DISCURSO DE JOSÉ SARNEY
Data de eleição: 17 de julho de 1980
Data de posse: 6 de novembro de 1980
Acadêmico que o recebeu: Josué Montello
O que aprendi lendo Sarney e Montello, na ABL
(Análise do discurso de José Sarney na ABL/Parte I)
*Mhario Lincoln
Li e reli, atentamente, casa frase, cada parágrafo de dois discursos homéricos, neste caso de posse e recepção, de José Sarney e Josué Montello, respectivamente, na Academia Brasileira de Letras; e deles, tirei inúmeras lições com pertinência à vida, ao existencial, à humanidade, à política acadêmica e à memória. Acredito ter sido esse momento, o meu start para conhecer muito mais a lógica do meu trabalho, da minha escrita e de meus objetivos enquanto jornalista literário, antes mesmo de assumir a editoria-sênior da plataforma do Facetubes, onde me envolvo diariamente com Literatura, Arte e Música.
Por isso, nunca acreditei, apenas, em "dom". Mas sim, esse, somado e ajustado através de muito estudo, muitas pesquisas, imersão completa e objetiva no rumo do que se quer fazer. Assim, com certeza, o texto melhora, a rima supera a rima, o inexplicável torna-se explicável, discutido, falado. Assim, assisti meu pai José Santos, advogado, fazer petições homéricas, inclusive elogiadas por magnânimes ministros do Supremo, da época, como Aliomar Baleeiro, Djaci Falcão, Luiz Gallotti, Sepúlveda Pertence, Sydney Sanches, José Néri da Silveira, além de receber menções processuais no Senado, através dos ilustres senadores Pedro Simon e Paulo Brossard.
Tais fatos, a mim me fizeram ler fervorosamente. Não só ler, mas interpretar, anotar - graças às modernas canetas marca texto - cada linha que lia. Foi assim que aprendi a destacar resultados, como nesta análise do discurso de José Sarney, na ABL. Abaixo, reproduzo interessantes (sob meu prisma) excertos:
(1) - Os livros, como as pessoas, envelhecem e morrem. Há casos de ressurreição, como ocorreu há pouco com o redescoberto O Guesa, de Sousândrade.
Aqui estão os excertos:
Às páginas 10 - do livro que publicou os dois discursos, intitulado "Posse na Academia Brasileira de Letras/Cadeira 38", José Sarney confessa:
"(...) A Academia era para mim um horizonte longínquo. Leve sedução transformada na ambição que, sem coragem de ser desejo, era um desejo de desejá-la e, desejando desejá-la, tornou-se desejo, esperança e sonho. Sonho que se realizou e, como diz Jorge Luis Borges, quem realiza um sonho, constrói uma parcela de sua própria eternidade.
Fecho os olhos da ausência para pensar nos que aqui estariam. Um deles vou buscar no retiro dos santos para que abençoe este momento: Odylo Costa, filho. Foi ele quem me fez possuir da sedução de subir estas montanhas. Mãos quentes de irmão que apertei a vida toda, mãos frias de eternidade que num domingo cinzento de agosto, aqui, nesta casa, beijei, na saída da morte.
A força poderosa da tradição cultural da minha terra obrigou-me a este gesto de audácia(...)".
(2) - "Não fosse o Maranhão eu aqui não estaria. As letras no Maranhão dão título de nobreza e brasões de prestar".
Sobre o amor à literatura, às pgs 11 (ob.cit), disse ele:
"(...) Minha infância está povoada dessas visões que apontaram o caminho da vocação onde jamais consegui chegar. Mas se na vida fui deixando pelas ribanceiras dos rios, nas travessias das lagoas, na enchente das decepções, desejares, gostos, anseios, ambições e quereres – à literatura não deixei. Foi o meu refúgio, e não passou dia nem noite sem que para ela eu não tivesse um aceno, um olhar, um convite de noivado. O mundo da criação literária deu-me condições de suportar o saibro das amargas. A esta fidelidade, a este amor sem volta, a vossa escolha reconheceu. E agora, na comunhão dessa paixão comum, estou aqui, menor que todos vós e maior do que eu mesmo(...)".
Esse parágrafo é simplesmente extraordinário pelo pertencimento, pela raiz que prende Sarney às cláusulas-pétreas pessoais e intransferíveis. Esse trecho revela essa profunda conexão, igualmente, com a literatura e a forma como ela serviu de refúgio e de paixão constante na vida do autor de "Saraminda". No fundo, algo perto de Max Weber, que também explorou as complexidades da experiência humana e a busca por sentido em meio às estruturas sociais e culturais.
Sarney segue em sua aula, diante de uma ABL lotada:
"(...) Maranhão geográfico que vai das areias brancas dos lençóis do mar às barrancas vermelhas que morrem no Tocantins. Das serras que têm nome de Gado Bravo, das Meninas, da Chita, do Penitente, do Piracambu. Das Chapadas de Mangabeiras, do Peito de Moça, do Urucurana. Cidades como Olho d'Água das Cunhãs, S. Benedito do Rio Preto, Pinheiro do Pericumã, São Bento dos Peris, Buriti da Inácia, Vila de S. José das Mentiras, do Vale-Quem-Tem, do Quem-Diria, Centro dos Boas, Buritirana, Jejuí, Bom-Lugar, Pinto-Velho, Pau-Caiado, Água-Fria, Boi-Morto, Salvaterra do Destemor, Canafístula do Jovino (...)".
Abaixo, a grandiosidade do pensamento de Sarney, mostrando sua ampla habilidade de ler e reter as minúcias da leitura:
"Padre Vieira diz que o Maranhão está nas escrituras sagradas, nas Profecias de Isaías: 'a terra de que fala é terra que usa embarcações, que tem nome de sinos; e estas são pontualmente os maracatins dos Maranhões'. Claude d' Abeville, que escreveu a História dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e fez parte da missão da ocupação francesa, afirma:
'Não há neste país outro jardineiro senão Deus e tão-somente a natureza cuida das árvores, dos enxertos e das podas. Haverá melhor jardineiro? E em verdade o Maranhão na terra do Brasil é bonito, bom e tão bem ordenado que com acerto se pode dizer: hortus odoratis cultissimus herbis'. E o Capitão holandês Morris de Jonge, pedindo que o povo de Nassau não saísse do Maranhão? 'O lugar, pela sua fertilidade e amenidade, bem pode ser comparado ao Jardim do Éden.'
Vieram os portugueses e Simão Estácio da Silveira, navegador do século XVIII, alerta os lusitanos: 'Eu me resolvo que esta é a melhor terra do mundo, onde os naturais são muito fortes e vivem muitos anos, e consta-me que, das que correram os portugueses, a melhor é o Brasil, e o Maranhão é o Brasil melhor'(...)."
Neste parágrafo, José Sarney, ex-presidente da República do Brasil, poderoso, apesar, confessa:
"Não fosse o Maranhão eu aqui não estaria. As letras no Maranhão dão título de nobreza e brasões de prestar".
E sobre o Maranhão, prossegue Sarney:
"Maranhão, onde os púlpitos guardam até hoje a voz de fogo daquele Padre clamando contra o morticínio e escravidão dos índios: Vieira, o Vieira que escrevia e falava com os homens comuns, reis e Deus, orando e protestando com a mesma voz. Maranhão de Luís Alves de Lima, que afirmava em sua proclamação de despedida ter 'saudades do Maranhão'. Quem era seu secretário, cronista da guerra? O poeta Domingos Gonçalves de Magalhães, fundador do romantismo no Brasil, que escreveu Suspiros Poéticos e Saudades".
Como se forjado em ferro e aço, a inesquecível legião literária que com ele conviveu:
"Não só o Maranhão passado, também o contemporâneo, tão grande quanto o outro, com poetas como Odylo Costa, filho, Bandeira Tribuzzi, Ferreira Gullar, José Chagas, Lago Burnett, Luci Teixeira, Nauro Machado; historiadores como Jerônimo Viveiros, Rubem Almeida, Mário Meireles; escritores como Franklin de Oliveira, Domingos Vieira Filho, João Mohana, Carlos Madeira, Nascimento Morais Filho, Jomar Morais, Reis Perdigão, Bandeira de Melo, Carlos Cunha e tantos outros; mestres da língua, como Joaquim Campelo, brilhante colaborador de Aurélio; pintores como Floriano Teixeira, Péricles Rocha, Antônio Almeida; romancistas da culminância de Josué Montello, que tem hoje lugar sagrado na história da literatura brasileira".
Continua de forma brilhante:
"E, se passarmos do Maranhão erudito para o Maranhão popular, chegaremos à beleza anônima dos folguedos das cheganças e do boi-bumbá, da língua do povo cheirando a poesia e cravo, à cantiga inocente e maliciosa de João do Vale, no Pisa na Fulô, ou o grito de uma nova “Canção do Exílio”, dessa extraordinária cantora brasileira, Alcione, filha do cantador Nazareth: “Oi Maranhão, oi Maranhão...” Dos 40 membros iniciais da Academia Brasileira de Letras, cinco eram do Maranhão: Artur Azevedo, Graça Aranha, Coelho Neto, Aluísio Azevedo e Raimundo Correia. Dos escolhidos para patronos: Gonçalves Dias, João Lisboa e Joaquim Serra, Odorico Mendes e Sotero dos Reis. Depois vieram Humberto de Campos, Viriato Correia, Odylo Costa, filho. E temos Josué Montello(...)".
(Continuarei analisando essa obra-prima na semana que vem).
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*Mhario LIncoln é jornalista, advogado, presidente da Academia Poétioca Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes (www.facetubes.com.br).
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