ELOGIO A MINHA LOUCURA?
*Mhario Lincoln
Não é à toa que filósofo alemão Arthur Schopenhauer aborda em sua obra que a “natureza da vontade e do desejo, frequentemente conduzem à frustração e ao sofrimento”. Ele argumenta que a busca incessante por satisfação aprisiona a pessoa em um ciclo de dor e insatisfação, uma ideia que reflete em minha própria experiência, com frustrações na música, no romance e na poesia.
Na alvorada de minha introspecção, as melodias que outrora fluíam como rios tranquilos agora se encontram represadas, interrompidas por barragens de desacertos. A música, que deveria ser uma expressão de liberdade, torna-se um labirinto de notas desencontradas. Da mesma forma, o romance, que prometia ser um porto seguro de afetos e conexões, revela-se um oceano turbulento, onde as palavras de amor naufragam antes de alcançar a costa do entendimento. E a poesia, meu refúgio mais íntimo, transforma-se em um campo de batalha, onde os versos lutam para encontrar seu ritmo e rima, refletindo a dissonância de meu próprio ser.
É necessário que eu use meu ato introspectivo, para indagar - e prevenir mais erros - acerca de minha verdadeira essência. Aliás, tenho ultimamente me questionado muito sobre quem realmente sou eu, senão um ator que oscila entre diferentes papéis: um humano em busca de uma harmonia que parece fugidia, um espírito navegando nas águas profundas da conexão, ou um cristão trilhando o caminho árduo da redenção?
As loucuras que antes murmuravam em segredo, agora ressoam com força, desafiando a quietude de minha consciência, tipo Alain de Botton, escritor e produtor londrino que, em uma de suas reflexões, convida a “olhar para dentro de nós mesmos com uma nova perspectiva, a fim de compreender quem realmente somos”. Será que sou ou não autêntico no que faço?
Será que as pessoas que me cercam realmente estão entendendo o esforço de todo esse trabalho coletivo? Mesmo porque, nem sempre as pessoas são fiéis com quem é autêntico. Mesmo porque há, em cada um, também uma originalidade, que transcende, inclusive, o coletivo. E isso pode ser, sim, compreensivo, no momento em que cada um produz sua arte, dentro de conceitos filosóficos ou não, pessoais e intransferíveis.
Tais reflexões me instigam a mergulhar no meu oceano empírico em busca de uma autoanálise, a fim de reconhecer que, em nossos dias, todos tem acesso a tudo, a qualquer hora, a qualquer momento, em qualquer língua e gênero. Por isso, explode a individualidade moderna, como crença da perfeição e ganha fôlego abissal, criando, por outro lado, uma bolha fluídica (até frágil) entre um trabalho coletivo, com jornada contínua, e a busca por uma ascensão individual intransponível.
Ou seja, está havendo uma cisão brutal, com explícita fragilidade e volatilidade, dos relacionamentos humanos, sejam esses multiartísticos ou de relacionamentos outros, como ensina em “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”, Zygmunt Bauman, acrescentando que tal fato também está ligado, em muitos casos desse espedaçar coletivo, à solidão e à insegurança dos partícipes; tornando-os “verdadeiros relacionamentos líquidos, que escorrem entre os dedos”.
Por todas essas questões, algumas vezes tenho a sensação de vivenciar uma loucura insólita por parte de algumas pessoas que participam de meus sonhos. Aí, imagino com meus botões: tanto sacrifício para alguns acharem que é 'por obrigação' ou por 'questões narcisistas pessoais'. Mas, me acostumei, ao longo de quase 60 anos de jornalismo diário, a algumas desilusões doídas. Não só no jornalismo, como também na música, no romance e na poesia, esta, desencadeando nos últimos tempos, um profundo questionamento sobre minha própria existência.
Esse palco da vida, por outro lado, acabou me apresentando múltiplos papéis: o humano, em busca de harmonia; o espírito ansiando por conexão; e o cristão, em busca de redenção, repito. Principalmente sobre minhas loucuras por pensar na loucura dos outros. Antes, elas se mantinham em silêncio, agora ressoam com força em minha consciência, revelando a complexidade de entender o ser humano, enquanto coletivo.
A coisa tomou um rumo tão alucinante que voltei a ler "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdã, onde encontrei um ‘ecodrama’ para minhas próprias inquietações. Erasmo celebra a loucura como uma essência intrínseca à humanidade, sugerindo que ela nos liberta das restrições da razão e nos convida a uma dança de libertação. Essa perspectiva transformou minha visão sobre a loucura, fazendo-me percebê-la não como um fardo, mas como uma fonte de sabedoria e introspecção.
Refletindo sobre as palavras de Erasmo, comecei a enxergar minha loucura sob uma nova luz. Ela se tornou um convite para explorar as profundezas da minha alma, transformando minhas frustrações em oportunidades para um entendimento mais profundo de mim mesmo. A loucura, portanto, se revela como um espelho que reflete a complexidade e a riqueza do meu ser interior.
Nesse contexto, é interessante resgatar o pensamento de dois filósofos do século VIII que, embora distantes no tempo, dialogam com essa essência. Alcuíno de York, monge, poeta, matemático, com sua ênfase no aprendizado (só através de muita dedicação e leitura) e no conhecimento como caminhos para a compreensão do ser; e, João Damasceno, (ou João de Damasco, um monge e sacerdote sírio), com sua abordagem da fé e da razão como meios complementares de acesso à verdade, ambos contribuem para a compreensão dessa jornada de autoconhecimento e redenção. Eles nos lembram que a busca pela essência do ser é um empreendimento que atravessa séculos, unindo razão, fé e, por vezes, uma dose de "boa" loucura.
Mhario Lincoln*
Presidente da Academia Poética Brasileira.
Editor-sênior da Plataforma do Facetubes.
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA
Convidados APB 29 DE AGOSTO DO IPIRANGA AO TRATADO DE PAZ E AMIZADE Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 11° Máx. 18°
Tempo nubladoMín. 8° Máx. 22°
Tempo limpo
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”
Esmeralda Costa BÁRBARA DE ALENCAR: UMA HISTÓRIA QUE CAMINHA ENTRE VERSOS E MEMÓRIAS