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Brasil HERÓI ESQUECIDO

Sarney se livrou de dois acidentes com aviões. Um deles, graças ao herói da Vasp, Comandante Fernando Murilo

Rememórias: a história do sequestro do avião da VASP, em 1988.

15/09/2020 16h59 Atualizada há 6 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Do R7, com informações da Record TV
Comandante Murilo deixa hospital após ter sido baleado na perna no desfecho do sequestro — Foto: José Paulo/AE
Comandante Murilo deixa hospital após ter sido baleado na perna no desfecho do sequestro — Foto: José Paulo/AE
Fernando Lima e o pai, piloto Fernando Murilo Lima e Silva. Foto: Reprodução/Facebook

Textos Escolhidos

(Do R7, com informações da Record TV/ Jornalista Élle Marques)

Tudo corria bem no voo VASP 375 no dia 29/09/1988, saiu de Porto Velho, Rondônia, e fez escala em Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte, de onde ele voaria para o Rio de Janeiro, aeroporto do Galeão, seu destino final. Mas as coisas não aconteceram exatamente assim.

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Decolando de Belo Horizonte, um passageiro se levantou e, armado com um revolver calibre .32, iniciou o sequestro da aeronave. O passageiro, Raimundo Nonato Alves da Conceição, estava com raiva da política econômica brasileira, dos rumos do país, e por isso resolveu se vingar.

A vingança pretendida: Sequestrar um avião e jogá-lo contra o Palácio do Planalto, bem no local onde fica o gabinete do Presidente. Com isso, Raimundo pretendia matar aquele que ele considerava o grande vilão da história: Jose Sarney. Pode parecer piada, mas a coisa foi feia. Exigindo que a porta da cabine fosse aberta, Raimundo atirou em um comissário. Com a porta ainda trancada, Raimundo começou a atirar contra a cabine (as portas ainda não eram blindadas). Um tiro acertou o piloto reserva na perna, fraturando-a. O outro, acertou o painel.

Diante do risco que representava aquele homem atirando a esmo dentro de uma aeronave em pleno voo, o piloto abriu a porta e Raimundo anunciou seu plano, que representava a morte dos 98 passageiros e 7 tripulantes, fora possíveis vítimas em terra. O piloto, Fernando Murilo de Lima e Silva, conseguiu avisar sobre o sequestro, acionando, o transponder da aeronave, o código que indica interferência ilícita. Também conseguiu informar a torre de comando acerca dos planos envolvendo a Palácio do Planalto. Nesse momento, a 1ª vítima fatal do sequestro. Quando a torre responde ao piloto, foi o co-piloto, Salvador Evangelista, quem fez menção de responder. Provavelmente, um movimento brusco foi interpretado como reação. O co-piloto foi morto na hora com um tiro na nuca. Com dois colegas baleados, um colega morto, surge o sangue frio e a perspicácia do grande herói dessa história: o piloto Fernando. Ele percebeu que morrer seria inevitável, então começou um perigoso processo de convencimento com o sequestrador em busca de uma improvável solução.

Durante todo esse período, o Voo VASP 375 era seguido de perto por caças Mirage da FA, que tinham ordens de abater o voo, sacrificando os passageiros, caso surgissem indicações de que a aeronave seria usada contra algum prédio da capital. Nesse ponto, o sequestrador toma outra decisão: exigiu que rumassem para São Paulo, provavelmente em busca de outro alvo. O piloto Fernando novamente argumentou que o avião não tinha combustível para tanto. Sugeriu então um pouso no Santa Genoveva, em Goiânia. Enquanto a discussão se dava entre os dois, o piloto Fernando, disfarçadamente, rumou para Goiânia, afastando o avião de Brasília, cheia de potenciais alvos. Por fim, diante da recusa de pousar em Goiânia, e das ameaças que só faziam crescer, o piloto tomou mais uma decisão. Primeiro, ele tirou o avião do piloto automático e fez uma manobra chamada tonneau (manobra em que o avião dá uma volta completa ao redor de seu eixo). Ele pretendia, com isso, fazer o sequestrador cair e, assim, tomar a arma dele, mas isso não deu certo. Depois, ele partiu para a cartada final: o parafuso, manobra em que o avião perde a sustentação e cai de bico, girando as asas como um pião. A ideia do piloto era descer 9 mil pés durante a manobra, fazer o sequestrador cair e imediatamente efetuar o pouso em Goiânia. 

Anos depois, Fernando falou: "Eu pensei, como vou morrer mesmo, vou arriscar. Parti para o tudo ou nada. Já que vou morrer, vou morrer brigando porque, pelo visto, ele não ia me deixar pousar.” Fernando conseguiu fazer cair o sequestrador e pousar com tranquilidade. Mas ele logo se recuperou e seguiu com o sequestro. Era perto de 13h45 quando o pouso ocorreu. Em terra, as negociações continuaram. O aeroporto foi cercado por agentes do EB e da PF, que quase invadiram a aeronave, mas foi, novamente, o piloto Fernando quem deu rumo às coisas. Ele convenceu o sequestrador a pedir um avião menor, com bastante combustível, e com essa 2ª aeronave, ir em busca de sua vingança. O sequestrador aceitou, mas exigiu que Fernando seguisse pilotando, o que o piloto aceitou. Sua vida em trocar de 103 sobreviventes. 

Todos os feridos foram atendidos em hospitais de Goiânia. Nessa nova negociação, o sequestrador foi baleado pela equipe especial da Polícia Federal. Fernando, o piloto reserva e o comissário baleado não corriam risco de morte.  Nem o sequestrador, nas informações prestadas pelo hospital. Misteriosamente, 3 dias depois, Raimundo Nonato morreu de forma estranha, segundo consta, foi vítima de anemia falsiforme. No fim, o piloto Fernando, grande herói do sequestro, conseguiu salvar 104 vidas e evitou que tivéssemos um 11 de setembro muito antes das Torres Gêmeas.

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Por seu feito, foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico, a mais alta distinção honorífica do Comando da Aeronáutica. Contudo, nunca recebeu qualquer palavra de agradecimento do Presidente Sarney, que se quedou calado acerca do sequestro. “Ele nunca me dirigiu a palavra. Nunca me agradeceu. Mas não tenho mágoa. Estou tranquilo com minha consciência e sei que fiz meu papel”. E, até hoje, as manobras que o piloto Fernando efetuou naquele 29/09/1988 não são reconhecidas pela Boeing, que afirma categoricamente SER IMPOSSÍVEL FAZÊ-LAS EM UM BOEING 737-317. O capitão Fernando provou serem possíveis.

É que esse herói pouco conhecido, o piloto Fernando, morreu nesse 14.09.2020, em Búzios, aos 76 anos de idade. Morreu com o crédito enorme de ter salvado 104 vidas e de ter agido, quando muitos não fariam nada. Por isso, essa singela homenagem. Que o comandante Fernando vá em paz, e que fique sua lição de altruismo, em tempos tão duros de egoismo e individualismo.

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Élle MarquesHá 6 anos atrásSanta CatarinaLamentamos que ele tenha morrido sem a honra de ser prestigiado por todos que foram livres da morte e pelas famílias que receberam seus amados com vida. Reflexão que me chega:agradecer mais, reconhecimento é coisa que quanto mais se dá mais nobre nos tornamos porque é próprio destes o fazer justiça.
Piloto comercial aposentado, JairoHá 6 anos atrásRio Grande do SulUma história incrível. Se fosse nos Estados Unidos, esse nosso heroi seria nome de Comenda na Aeronáutica. Mas este país aqui é de lascar, viu.
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