*Mhario Lincoln
Claudio Pinheiro fez sua passagem na madrugada de domingo. Deste Domingo de Ramos, (24.03.2024), uma celebração importante para o calendário litúrgico Cristão, marcando o início da Semana Santa e a antecipação da ressurreição de Jesus Cristo, no Domingo de Páscoa.
Significa, também, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, um evento narrado nos quatro Evangelhos do Novo Testamento. Durante essa entrada, a multidão teria acolhido Jesus, agitando ramos de palmeiras e oliveiras, e espalhando-os pelo seu caminho, em sinal de honra e boas-vindas. Esse ato simboliza a aceitação de Jesus como o Messias prometido e o Rei esperado.
Como Cristão que era, com certeza Claudio Pinheiro também entra pelos portões dos Céus e, como entregou, quando em vida terrena, muito carinho, amor, compreensão e superação, além de resiliência, provada durante os últimos meses de aflição, pelo que vinha passando, também está tendo uma acolhida espiritual triunfante, porque, se somos semelhantes a Ele, somos, assim, na Vida e na Morte.
Quem sabe, lá no Céu, não esteja nesse exato momento sendo distribuído o seguinte convite:
Convidamos todos os anjos do Céu para assistirem a estreia do cantor maranhense Claudio Pinheiro, no palco principal do Éden, na madrugada deste domingo, 24 de março de 2024. As cadeiras da frente estão reservadas para a Saudade, que ocupará a maioria dos lugares. A Banda Musical que acompanhará nosso querido Claudinho será formada por Virtude e Talento, nos vocais, Prudência, nos teclados, Justiça, no trompete e sax alto, Riqueza D’alma, na bateria, Paciência, autor dos Cenários de Vida, Resistência, no piano clássico e Amor no violão acústico. Uma banda celestial para um artista celestial.
CONVERSEI COM ALGUNS AMIGOS
Amigos próximos de Claudio nunca deixaram de afirmar que era um artista completo! Sua voz era um presente divino, uma melodia que tocava a alma de todos, especialmente aqueles que tiveram o privilégio de ouvi-lo. Sua simplicidade, atenção e amizade eram tão marcantes quanto sua música.
Para citar Santo Agostinho, “A medida do amor é amar sem medida”. Claudio viveu essa frase, amando a música e as pessoas em seu entorno, sem reservas. Embora ele não esteja mais conosco, seu legado e sua música continuarão a viver em nossos corações. Foi exatamente isso que disse um desses grandes amigos com quem conversei, o grande artista Fernando de Carvalho:
"Um dia triste pra nós. Um dia triste pra cultura do Maranhão. Repito: um dia triste pra todos nós, cantores, que temos em Cláudio Pinheiro uma referência. A minha relação de amizade com o Cláudio surgiu através da música. Através da música, fomos apresentados e nos aproximamos. Ele sempre foi uma referência pra mim. Quando comecei a cantar, no final dos anos 98, começo dos anos 2000, Cláudio era um verdadeiro professor de canto. Então, enquanto aspirante a cantor e no início da minha vida profissional, eu não perdia as apresentações dele, porque ele de fato era um mestre. Não só pela belíssima voz que tinha, - que tem, porque o seu legado está vivo -, como também pela sua presença de palco, pela sua interação com a plateia, com o público. E eu aprendi, aprendi muito com o Cláudio. Estivemos juntos em vários momentos, em aniversários meus, onde ele sempre cantava. Sem dúvida, é um dia triste para todos nós, artistas, cantores, um dia triste para a cultura do Maranhão que perde (em imagem física) um artista intenso. Sua estrela continuará brilhando, para sempre, no céu da música brasileira”.
"Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar"
(Encontros e Despedidas, NASCIMENTO; BRANT, 1985)
ELE E NÓS
Tinha 67 anos e ficou conhecido por possuir uma das vozes mais proeminentes da música popular maranhense. O músico, que nasceu na cidade de Araioses, a 409 km da capital São Luís-MA, fundamentou sua trajetória em extensa pesquisa das manifestações culturais do Maranhão, dando destaque a ritmos como o bumba-meu-boi, o tambor de crioula, quadrilha, e participando diretamente, como observador, de movimento populares religiosos, como mostra uma histórica entrevista da jornalista Gilda Lamita, feita para a então TVML, do antigo "Portal Aqui Brasil", hoje Plataforma do Facetubes, (www.facetubes.com.br). Vide bônus*, mais abaixo.
Outro amigo de Pinheiro, Sergio Habib, um dos ícones da música maranhense, elogiou muito a interpretação de Claudio Pinheiro em algumas de suas composições. Certa vez, numa entrevista pública, ele incluiu Claudinho entre os seus melhores intérpretes, cantando música das coletâneas ‘Pedra de Cantaria’ e ‘Arrebentação da Ilha’, ‘Sérgio Habibe’, ‘Marcas Indeléveis’ e 'Correnteza’.
Ele chegou a agradecer por "tanta gente bacana” ter interpretado suas canções e listou alguns desses artistas. Em primeiro, lugar, citou, Cláudio Pinheiro, seguido de Papete, Alcione, Rita Benneditto, Flávia Bittencourt, Maria Preá, Fátima Passarinho, ‘Nonato e Seu Conjunto’, ‘Boca Livre’, ‘Céu da Boca’, Doroty Marques, Orlandira Mato, Luanda, Cao Alves entre outros.
(Foto retirada de vídeo antigo: Uma das últimas apresentações públicas de Claudio, convidado pelo "Boi Barrica" para relembrar músicas da época em que participava do grupo).
E como no Maranhão, "o bumba meu boi é um fenômeno sociocultural de enormes proporções", como disse a diretora Renata Amaral do documentário "Guriatã", em homenagem a Humberto do Maracanã, Claudio Pinheiro, Rosa Reis e Roberto Ricci, nesse filme, interpretaram toadas de forma esplêndida, ratificando o estilo das releituras melódicas do folclore maranhense, cujo pontapé inicial foi dado pelo compositor e maestro Ubiratan Sousa (e Sousa Neto), com a obra "Tempo Certo", finalista do "Festival dos Festivais", na ocasião, interpretada pelo “Grupo Casinha da Roça”.
O tempo passou e nos últimos anos, Claudio dizia aos amigos mais íntimos que preferia ficar tranquilo, sem muitas aparições públicas, inclusive, deixou de cantar por um tempo. “Mesmo porque, ele nunca quis ter fama, só amava cantar", disse o amigo João Ewerton. E completa: "(...) ele amava o que fazia, ser intérprete, dar vida com sua voz às composições. Gostava dos amigos e esse era seu mundo ultimamente”. Ewerton e Claudio eram grandes amigos, “desde a época em que fazíamos parte do naipe de tenores do Coral da UFMA. Um parceiro querido por seu bom humor imaculável. Por isso acho que será tranquila a passagem dele desta dimensão para a morada dos consoladores e ancestrais", completa Ewerton.
Na mesma linha, o maestro Fernando Mouchrek também enaltece essa amizade e o trata com muito amor, especialmente pela passagem dele, brilhante, pelo "Coral São João".
O cantor, compositor premiado Wellington Reis se referiu igualmente a Claudio Pinheiro e disse: "Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, de certa forma, imortalizaram “Oração Latina”, de outro grande compositor, o César Teixeira”. Isso aconteceu em 1985, durante o aplaudido Festival Viva, que revelou grandes talentos da música maranhense”.
Verdade pura! As músicas finalistas até hoje são lembradas e cantadas pelo público. "Oração Latina", que Wellington se referiu, foi música consagrada na voz de Claudio Pinheiro e Melônio. Aliás, sobre festivais, nada mais salutar do que ouvir o Maestro Zé Américo que dirigiu a releitura do "Viva", em 2012: “A intenção é promover oportunidades e movimentar o espírito musical do Maranhão. De certa forma ainda é muito difícil abrir espaço para o artista local fazer shows e apresentar sua obra”.
Na verdade, e como se vê, Claudio Pinheiro sempre esteve presente nos melhores momentos em que a música do Maranhão o chamava para lá estar. Alguns desses momentos esteve ao lado de um dos músicos instrumentistas e compositores mais autênticos do Maranhão, Chiquinho França, que, ainda emocionado com o impacto do falecimento do amigo, confessou:
"Hoje eu acordei para embarcar numa tristeza muito grande, a perda do nosso Cláudio Pinheiro, nosso colega, nosso amigo, companheiro de luta, de música. Foi um dos maiores intérpretes da nossa música maranhense brasileira. Voz linda, afinadíssimo. Cláudio participou da efervescência musical da música maranhense nos anos 80 e 90. Além do seu trabalho solo, foi um dos principais vocalistas do projeto Boi Barrica e Bicho Terra. Cláudio Pinheiro vai deixar uma lacuna na nossa luta pela nossa música maranhense. Uma saudade que não vai passar. Eu tenho certeza, pela alma boníssima que era, nestas horas já está ao lado do nosso Maestro geral, que é o nosso papai do céu."
Em um comentário no Instagram, de fora do Brasil, sobre a morte de Claudio Pinheiro declarou: "Neste momento, a saudade é como uma brisa suave que sopra em nossa alma, trazendo consigo cores vivas e melodias doces. É um presente poder dizer: como sinto sua falta. Para muitos, como eu, é um deleite poder lembrar de todos os momentos que nos fizeram estar contigo e por isso, nos fazem sentir essa falta, lembrando coisas significativas. A profundidade da saudade que sinto, é imensa. Mas não me faz triste porque sei de tuas recompensas, onde estás agora".
Finalmente, todos os que tiveram contato, mesmo que apenas uma vez, saberão, com toda a certeza, abrir o coração para que Claudio Pinheiro permaneça vivo porque "a morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima", como bem nos ensinou o grande Rui Barbosa, em discurso à beira do túmulo de Machado de Assis.
Para finalizar, vale citar a poeta americana Mary Elizabeth Frye, a mesma citada por Jô Soares, alguns meses antes dele vir a falecer:
"Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá.
Estou no soprar dos ventos, nas tempestades de verão e nos chuviscos suaves da primavera.
Eu sou a pressa inquieta dos ruídos da cidade e o silêncio das madrugadas.
Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá.
Estou no brilho das estrelas perfurando a noite e no cantar alegre dos pássaros.
Não, não chorem tristes à beira do meu túmulo, eu não estou lá, eu não morri".
Eu sou a vida incessante e livre, que corre nas águas do rio".
E nós, amigos, fãs, irmãos, colegas poderemos repetir, uníssonos, a mesma frase que o Papa João Paulo II disse, segundos antes de vir a falecer, frase essa, adaptada à terceira pessoa do verbo: "Deixe-o ir para a casa do Senhor...", pois "tempus regit actum" (o tempo rege o ato). Que assim, seja!
Vídeo-Bônus: Claudio Pinheiro ia beber na fonte para se aprimorar
A jornalista Gilda Lamita à convite de nosso canal de TVWEB, cobriu um evento que é uma tradição maranhense. Ela foi ao bairro do Maracanã, em São Luís, para mostrar a tradicional "Queima de Palhinha", que acontece todos os anos, dia 06 de Janeiro, o "Dia de Reis". E sabe quem estava lá, apreciando, estudando e aprendendo? Claudio Pinheiro, acompanhado de Roberto Brandão ("Boizinho Barrica").
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Mhario Lincoln* é presidente da Academia Poética Brasileira.
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