Mhario Lincoln
A poesia de Rogério Rocha não cansa de ser elogiada. Especialmente após a publicação de seu livro "A Linguagem da Ausência", que veio mostrar toda uma maturidade editorial, contemporânea e da exegese lírica. Ou seja, a poesia de Rogério Rocha, com sua ênfase na fragilidade humana e na efemeridade da existência, começa a subir degraus da responsabilidade construtiva, na medida em que a leitura osmótica da composição, deixa de objetivar "o que o outro vai pensar", para a "autointrospecção poética" de como dar vazão às vibrações de seu conteúdo gerador. (Exatamente aí que se diferencia o menino, do Poeta!).
Coicidentemente, ontem, li algumas poesias da poeta Ana Cesar, amiga e adorada por Nélida Piñon, da qual recebeu inúmeros elogios. Pois bem: a poesia de Rogério Rocha, com sua ênfase em 'uma certa melancolia', compartilha semelhanças com a poesia de Ana Cristina Cesar, cujo destaque na década de 1970 é frequentemente associada à chamada "Geração Mimeógrafo". Por isso é que eu digo que mesmo não tendo participado euforicamente dessa geração, em razão da própria idade produtiva, algo influenciou boa parte da contrução poética desse trabalho novo - "A Linguagem da Ausência" - porque há subliminares que remetem a uma linguagem mais intimista e com uma forte expressão dos sentimentos pessoais, frequentemente abordando temas como a solidão, o amor e a angústia existencial.
Abaixo, se pode ter uma ideia contemplativa do quanto amadureceu a construção poética de Rogério Rocha, em dois poemas simplesmente únicos, mesmo que essa forma de escrever tenha rápidas semelhanças com Manuel Bandeira, TS Eliot ou mesmo Cristina Cesar:
"Imagina se
tua boca
recebesse bônus
pelo silêncio"
Mas ao ler esses quatro primeiros versos, meus dedos coçam e é impossível não chamar Epicteto para me ajudar a debulhá-los. Impossivel não pensar que tais construções não levem diretamente ao estoicismo. E por que? Mesmo que haja a possibilidade desses versos terem outro entendimento, algo me levou (esta é a minha visão) aos estóicos porque valorizavam a autodisciplina, a autossuficiência e a paz interior, alcançadas através do controle sobre as paixões e desejos.
Nesse contexto, o “bônus pelo silêncio” pode ser visto como translação para a paz interior e a sabedoria que se ganha ao se abster de falar desnecessariamente. Aliás, eu pergunto: e se esse silêncio fosse encarado - não, apenas, como a ausência de fala - mas, também, como ausência de paixões e desejos descontrolados, influenciando diretamente na paz interior? Suposições, nada mais que suposições...
Bom, sem mais conjecturas, vamos aos poemas:
RUÍDOS
Imagina se
tua boca
recebesse bônus
pelo silêncio
E teu ouvido
ao menos uma vez
absorvesse
os meus ruídos
Que entendesses
de primeira o que
venho tentando dizer
Talvez assim
nos encontrássemos
realmente
pra superar
de vez
qualquer mal-entendido
******
MENINO DE RUA
As luzes do dia
atravessam-me
qual objeto
indefinido
Sou pequeno
e indefeso
Sou fosco
e pálido
quase imperceptível
Tão ínfimo
para o mundo
que pareço lentamente
desvanecer
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