Nota da Editora: Sem dúvida uma das entrevistas da secção VICEVERSA de maior fôlego, onde foram discutidos assuntos de grande importância em diversas áreas da atividade humana e, em especial, do pensamento messiânico e histórico sobre Jesus, pesquisado e publicado pelo entrevistado Jñana Soham/José Viégas, presidente da Associação Maranhense de Escritores Independentes-AMEI. No contraverso, José Viégas fez perguntas muito importantes ao jornalista Mhario Lincoln, até então, nunca dantes perguntadas, o que garante a todas as outras conversas, publicadas aqui, uma sequência significativa para o jornalismo brasileiro, sobre o melhor que se pode discutir diante de situações que abraçam o Mundo moderno. Obrigada, Mhario Lincoln! Obrigada José Viégas! (Orquídea Santos, assessora de impresa do FACETUBES).
VICEVERSA
A – SOHAM JÑANA
1 - Mhario Lincoln: Em resenha sobre seu livro “Da Concepção ao Batismo”, fica claro que você “esmiuçou o livro sagrado e escreveu obra corajosa que desmistifica, repõe verdades e detona velhos paradigmas”. O que o levou a entrar nesse universo, não apenas, na forma literária?
RESP: Foi um Chamado interno que ocorreu em 2005 e me levou a abandonar tudo que era minha vida até então para me dedicar 100% (de manhã à noite, todos os dias sem fins de semana ou feriados ou pausa de qualquer tipo) a esse trabalho de pesquisa e escrita que perdurou 12 anos dessa forma intensa e que ainda continua, mas agora já intercalado com a gestão da Editora e a presidência da Associação Maranhense de Escritores Independentes – AMEI.
2 – ML: Uma das polêmicas criadas em torno de seu livro “Da Concepção ao Batismo”, tem pertinência com uma palavra e uma assertiva sobre Jesus. Você escreveu ser Ele, um ‘Mamzer’. Por que isso, já que ‘Manzer’, para os Judeus, significa ‘bastardo”?
RESP: Ele é filho biológico de Ebed Pantera (ou Júlio Tibério Abdes Pantera) um judeu de Sidom, que foi feito escravo pouco depois de Seforis sofrer represálias (momento em que também faleceram os pais de Maria e Salomé, sua irmã, casada com Zebedeu). Considerando a gravidade de uma mulher nessa época não ter amparo de um homem e ser mãe, José que era estéril, viúvo e amigo da família de Zebedeu e de Simão se predispôs a reconhecer Jesus ainda no ventre de sua mãe (o que o tornava oficialmente seu filho). No entanto, todos sabiam que ele realmente não o era. Todas essas circunstâncias assim como o destino do pai biológico de Jesus se encontram relatadas e explicadas no livro “Da Concepção ao Batismo”.
3 – ML: Outra coisa no mesmo livro que cabe inúmeras discussões: se Jesus era um ‘Manzer’, ele chegou a descobrir seu pai biológico nos anos que passou entre nós? Se sim, onde há provas disso?
RESP: Sim, ele se encontrou apenas uma vez com ele quando Jesus tinha cerca de 36 anos (Jesus na realidade faleceu no ano 36, com 39 anos de idade) e tal relato se encontra bem claramente referido no Evangelho atribuído a João (mas que não é dele nem teve qualquer participação dele). No quarto livro da Heptalogia, com o título “Do Deserto à Cruz”, eu explico como e quando ocorreu esse encontro e o que daí resultou para ambos.
4 – ML: Ao ler “Da Concepção ao Batismo”, cheio de impactos fraseados, verdades e opiniões pessoais, não se pode nunca deixar de se emocionar com o relato de como Jesus se apaixonou por Maria Madalena. Sem dar ‘spoiler’ para quem ainda não leu, pergunto: esse fato consta em algum Evangelho Apócrifo, ou quem trouxe essa informação?
RESP: O Evangelho de João (que na realidade foi ditado por Maria Madalena a Cerinto seu primeiro redator e antigo discípulo de Filon de Alexandria) tem todo esse relato para quem o ler não com olhos de hoje mas com o olhar e conhecimento pleno do que era o judaísmo no século I em suas várias facetas (algo que eu explico no livro “O Contexto Social e Espiritual no tempo de Jesus”, o segundo volume da Heptalogia sobre o Jesus histórico).
5 - ML: Em uma das resenhas sobre “Da Concepção ao Batismo”, que recuperei de sites especializados, uma, me chamou a atenção por esse parágrafo. Permita-me: “O fato é que as pessoas ainda são extremamente preconceituosas, não é aquele preconceito clichê. Mas é o que eu chamo de ‘Doutrinação’”. Então pergunto: até onde a ‘doutrinação’ e o ‘preconceito religioso’ se cruzam?
RESP: Vão aos pares, pois ambos são filhos da ignorância. Você só pode manipular ou ser manipulado com base no desconhecimento profundo de uma realidade que acaba por se resumir ao que lhe disseram que era e não ao que você mesmo foi questionar para encontrar suas respostas baseadas não em uma crença ou fé ou no fato de que outros assim escreveram ou afirmam ser, mas em convicção sustentada numa análise lógica e racional sobre fatos comprovados. Por isso, convido todos os leitores a duvidarem até do que eu afirmo e procurarem suas próprias convicções, eu apenas indico mais um caminho. No entanto, se sua pesquisa for séria, profunda e completa, pode lhe levar uns 12 a 15 anos e no final chegará muito provavelmente onde eu cheguei.
6 - ML: Como você vê a unificação de fragmentos de evangelhos propagados em diversos territórios conquistados pelos romanos, à época, a partir do momento em que o imperador Constantino se converteu ao Cristianismo, numa tentativa de padronizar as doutrinas cristãs e criar um cânone, a partir das escrituras do Novo Testamento?
RESP: Não diria que se converteu ao cristianismo. Um político não serve uma religião, mas se serve da religião para seus propósitos, que são apenas os de poder. Não dá para aqui explicar o surgimento do Cristianismo, que nada tem a ver com Jesus, mas sim com Paulo e deveria se chamar de ‘paulinismo’ e não de cristianismo, nem como explicar os vários cristianismos e o percurso histórico que levou à predominância do cristianismo como o conhecemos hoje em suas mais variadas facetas. No entanto, tudo isso se encontra explicado nos livros 5 e 6 da Heptalogia, que se intitulam “De uma cruz à outra” e “Da era do Filho à era do Espírito Santo”.
B- José A.A. Viegas
7 – ML: Na leitura inicial de apresentação da “Viegas Editora”, há algo que me chamou a atenção: “Por iniciativa do escritor português SOHAM Jñana, pseudônimo literário de José A. A. Viegas (...)”. Afinal o nome ‘Soham’, se deu por conversão ou, como diz o texto, é apenas um ‘pseudônimo’?
RESP: Não diria conversão porque não me converti a nenhuma religião, afinal ninguém precisa de guias, gurus, líderes espirituais, padres ou pastores, e ainda menos de fazer parte de um rebanho para poder se “relacionar” com o divino em si, em tudo e em todos. Esse nome é um pseudônimo (que tem seus motivos de existir, mas não cabe aqui explicar) que em sânscrito significa “Aquele eu sou” para SOHAM e “sabedoria perdida” (aquela que não sabíamos que sabíamos até surgir em nós de parte alguma) para a palavra Jñana.
8 - ML: Por que você decidiu vir para o Maranhão e aqui construir um dos complexos mais respeitados da Literatura e Arte do Estado, superando, inclusive, as deficitárias ações públicas? Em Portugal, essa era a mesma atividade? De que cidade portuguesa você é emigrante?
RESP: Nasci em Portugal, mas me considero cidadão do mundo, cresci na França, viajei por 22 países, vivi em 6 e vim para o Maranhão em 2008 por motivos de coração ligados ao meu chamado interno. Fiquei até agora porque encontrei na minha presença aqui, ecos e motivos perante o que está por detrás da crença messiânica-milenarista reformada pelo padre António Vieira sobe o nome de Quinto Império, que estou aprofundando no livro 6 da Heptalogia. A construção da AMEI, da FLAEMA, e da Editora entre outras mais ações e eventos culturais, surgiu como tudo em minha vida, onde aprendi a não me queixar e fazer acontecer se achava que deveria existir algo que não existisse e isso fosse importante para mim e muitos mais na mesma situação. Então, perante o gritante descaso das autoridades tanto municipais como estaduais, diante da Literatura maranhense em particular, mas também da cultura maranhense no seu todo, decidi como escritor, decepcionado com o tratamento dado aos escritores maranhenses na Feira do Livro de São Luís onde realizei lançamentos dois anos consecutivos, criar uma feira do livro que valorizasse realmente a literatura e cultura maranhense. Assim, surgiu a primeira FLAEMA, Feira do Livro do Autor e Editor Maranhense. Ali reunimos 102 escritores maranhenses que não queriam no final que isso acabasse aí e solicitaram a criação de uma associação que pudesse cuidar de defender os interesses do escritor maranhense e de sua literatura. Assim, promovi o surgimento da AMEI e os escritores me deram sua confiança para presidir seu destino num primeiro mandato de 4 anos. Meu primeiro compromisso ao assumir a Presidência foi o de resolver duas grandes carências da literatura maranhense, a primeira era de não encontrar o devido acolhimento nas livrarias que, afinal, estão, por motivos financeiros, mais vocacionadas para divulgar e vender a literatura “Fast read” e os fabricados “Best Sellers”, então decidi que a AMEI deveria disponibilizar as obras da literatura maranhense numa Megalivraria e Espaço Cultural num dos mais importantes Shoppings da cidade. A segunda carência era de não existir uma solução completa editorial e gráfica que conseguisse atender à demanda da literatura maranhenses nos mesmos padrões de qualidade e preço que conseguem, por exemplo, os escritores de São Paulo. Isso foi resolvido com a abertura da Viegas Editora (Edições Soham) - inicialmente criada só para minhas obras - para atender à demanda dos demais escritores. Resultado: só no primeiro ano editamos e imprimimos com grande qualidade mais de uma centena de títulos. É importante ressaltar que como somos uma associação sem fins lucrativos que ainda não dispõe de qualquer apoio municipal ou estadual, temos sempre conseguido até agora o milagre de fazer “omeletes sem ovos”, é algo que sempre fiz em toda a minha vida, pensando: “Meu Deus, o que poderia fazer se tivesse pelo menos um ovo?”. Assim me apanho muitas vezes a pensar: “Meu Deus, poderíamos fazer tanto mais para a literatura e cultura maranhense se tivéssemos um mínimo apoio, uma ínfima parte do que é dado a outras instituições que pouco ou nada fazem para os outros!”
9- ML: Do que José AA Viegas é capaz de fazer, para que nada possa atrapalhar seus objetivos?
RESP: Meus objetivos são apenas místicos e espirituais, ligados ao “ser”, não tenho desde 2005 mais objetivos ligados ao “fazer”. O fazer (fora do trabalho de pesquisa e escrita sobre o Jesus histórico) é apenas uma forma de não pensar só em mim ajudando outros escritores que, assim como eu, precisam, para verem seus trabalhos valorizados, de uma literatura maranhense forte e respeitada.
10-ML: Fale-me das conquistas da AMEI – Associação Maranhense de Escritores Independentes, um de seus objetivos mais aplaudidos em terras do Maranhão? Que tipo de reação humana isso lhe proporciona?
RESP: Mais de 1.800 eventos culturais gratuitos em 3 anos de vida do Espaço Cultural AMEI e mais de 2.100 títulos de autores maranhenses (de mais de 800 autores maranhenses) disponibilizados na Megalivraria física (para os leitores de São Luís ou que visitam São luís) e na livraria online (para todo o Brasil). 3 edições da Feira do Livro do Autor e Editor Maranhense. Mais de 200 escritores associados. A AMEI considera a Cultura como uma família e assim acolhemos todas as artes no Espaço Cultural (literatura, teatro, dança, música, folclore...) e na Livraria (com oferta de artesanato e artes plásticas maranhenses). Que tipo de reação humana isso me proporciona? Tristeza e preocupação por não encontrar a nova geração que possa levar esse trabalho em diante, o que me prende a ele e me retira do meu foco que deveria ser tão só meus livros. É irônico pensar que para poder cuidar dos livros dos outros acabo por não conseguir ter tempo para cuidar devidamente dos meus. Tristeza também porque poderíamos fazer muito, muito, muito mais se pelo menos tivéssemos apoio do Estado ou do Munícipio, como algumas outras instituições têm. Provavelmente não tivemos ainda esse envolvimento do Município ou Estado porque me recuso a praticar a política do prato de esmola mendigando apoio. Se o Município ou o Estado que nos vê fazer muito sem nada não é capaz de olhar para nós e nos ajudar a fazer muito mais, também não queremos uma ajuda solicitada por nós para que não fiquemos devendo qualquer favor político que sempre será cobrado. Se as autoridades não fazem acontecer ou ajudam a acontecer, nós sociedade civil faremos acontecer e temos feito acontecer. No entanto, lembremo-nos de que mesmo um maratonista acaba por perder fôlego se continuar a correr passado a meta, já estamos há 4 anos lutando sós, e fizemos muita coisa acontecer, no entanto, não posso garantir que conseguiremos nos mantermos muitos mais anos dessa forma, sem apoio ou da sociedade civil ou das Instituições do Munícipio ou do Estado.
VICEVERSA. JOSÉ VIEGAS PARA MHARIO
1- JOSÉ VIEGAS: Seu percurso literário e cultural é longo e o levou a encarar inúmeros desafios e a vencer muitos deles. O que o motiva, ainda hoje, a continuar trilhando esse inglório caminho?
MHARIO LINCOLN: Muito bom ter você aqui conosco neste projeto, caro amigo. Nossa Plataforma Lítero-cultural-musical é uma prova de que superei vários obstáculos para constituir tal feito. O importante é que os resultados têm sido inebriantes. Altamente satisfatórios quando vejo que nosso esforço pode atingir centenas, milhares de pessoas que dantes, não tinham rumo que os pudesse apoiar em seus dons artísticos. Quanto ao ‘caminho inglório’, sim! Muitas vezes esse caminho é inglório. O moçambicano Mia Couto, em uma de suas palestras, falou de ‘reinvenção do humano’. Eu copio essa expressão, mas adaptada à minha realidade. Isto é, falo nessa ‘reinvenção do humano’, como parte de mim mesmo. Em minha totalidade. Mas o fiz, a partir do momento em que frisei bem que essa reinvenção, deveria ser moldada integralmente à justiça de dar oportunidades iguais a todos os bons de dom que eu tivesse acesso. Ora, se existem obstáculos e discordâncias contrárias a minha linha de pensamento, pertinentes ao que desejo almejar – com justiça – superarei a falta de lógica dos contrários, e todos, ao final, receberão os bons benefícios. O trabalho que faço hoje, de cunho nacional e internacional (minha plataforma chega a superar 11 mil acessos por semana, na contagem oficial do ‘Google Analytics’), é, sem dúvida, beneficiário de boa parte de artistas que, antes, não tinham tanto acesso à grande mídia. E isso me deixa ‘reinventado’, sem dúvida, do meu jeito.
2- JV: Você é ludovicense, sua família tem um longo histórico de contribuições para a cultura maranhense, então, por que escolher terras longínquas para dar continuidade ao seu trabalho cultural? O desafio de fazê-lo aqui em São Luís, ou desde aqui, seria algo impossível? Se sim, por quê? Se não, porque não vir dar esse enorme contributo para a cultura aqui mesmo, onde mais se precisa vencer barreiras e batalhas?
ML: Uma excelente pergunta. Vejo-me, assim, desafiado a respondê-la de duas maneiras distintas, reunidas em uma frase só, de Fernando Pessoa. Muito conhecida, mas pouco sentida como eu a sinto. Refiro-me a "Navegar é preciso; viver não é preciso". Precisava navegar e ampliar as oportunidades de meus conterrâneos, além-mar. Quando vim, a conjuntura presencial ainda era requisito básico para contatos positivos. Navegar era mesmo preciso, pois acreditava que de fora para dentro, as coisas funcionariam melhor em meu berço natal. Infelizmente! Na segunda parte – ‘viver não é preciso”, acreditava que meus projetos e aspirações poderiam morrer. E se morressem, seria, pelo menos, por uma causa justa. Mas não morreram. Por essa razão, pensei na frase de Pessoa, que, por sua vez, se baseou numa história real de ‘uma causa justa’. Vale contar: o Império Romano, por sua expansão e brigas internas, começou a precisar de suprimentos básicos para sobreviver. Nesse contexto, o general Pompeu, por volta de 70 a.C., foi incumbido da missão de transportar o trigo das províncias para a cidade de Roma, sob grande risco da navegação, na época. Assim, os tripulantes daquela viagem viviam um difícil dilema: salvar a cidade de Roma da grave crise de abastecimento, indo buscar o trigo na Sicília ou morrerem nas águas do oceano. Foi então que, de acordo com o historiador Plutarco, o general Pompeu proferiu essa lendária frase. Pois bem! Quanto a mim, fiz a viagem e de onde estou, consigo alimentar os sonhos de muitas pessoas nascidas em minha terra.
3- JV: Como dizia Jesus, “a colheita é grande e os trabalhadores poucos”. Você estaria pronto a unir esforços, (não estou falando de uniões de intenções, mas de pratica, de ação concreta) para inverter o que parece ser até hoje uma signa da cultura maranhense de sofrimento do descaso das autoridades municipais e estaduais com a cultura, sabendo que nessa luta de sobrevida do “formigueiro cultural” a união de cada “formiga” em prol do “formigueiro” importa?
ML: E como importa! Comecei esse trabalho de transformação e oportunidades a todos, quando ainda era colunista diário do grande “Jornal Pequeno”, na verdade, único matutino ludovicense que me abriu as portas para todos os projetos que lá implantei. Por outro lado, o JP tinha uma força reconhecida nessa área com o Suplemento Cultural e Literário “Guesa Errante”, editado, muitas das vezes, por Alberico Carneiro, com apoio de Josilda Bogéa, uma das diretoras do JP, num exemplo dignificante do Jornalismo Cultural. A minha coluna ‘social’, não falava de casamentos, nem 15 anos. Mas de matérias políticas, econômicas e literárias. Começou exatamente aí a ideia de criar algo que pudesse servir de arcabouço coletivo para mostrar o valor do Maranhão. Foram 10 anos de trabalho, de muita luta, de alguns sacrifícios financeiros. Todavia, os focos das políticas públicas se desviavam bastante para outros segmentos. Mesmo assim, a cidade fervia com Festivais de Música, Saraus, encontros de Poesia na Praça Gonçalves Dias, Movimentos Culturais intensos na UFMA, criação de grupos de teatro, ascensão das apresentações de artistas de mímica e mamulengo, Circo Cultural “Nelson Brito” etc. Vivemos grandes momentos culturais, sim, ao longo de aproximadamente 30 anos. E por que a pujança diminuiu tanto, até surgir a Associação Maranhense de Escritores Independentes - AMEI, para solidificar a autêntica produção Lítero-Musical e Artística do Maranhão? Bom, a essa pergunta (AMEI), você respondeu lá em cima. Aproveito para confessar publicamente que não fujo a nenhuma missão. Se queres meu apoio, já o tens e o terá, sempre! Vale lembrar: “(...) É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar”. (G. Dias).
4 - JV: A Lei Aldir Blanc já se tornou um canal de auxílio real e concreto em todos os estados. Você é conhecedor dos absurdos contidos nos Editais que o Estado publicou no Maranhão e da aberrante atitude do Município de São Luís de rejeitar as verbas que lhe cabiam? A situação aí em Curitiba é semelhante ou o Estado e Município têm tido uma atitude mais responsável e de atendimento à realidade do segmento cultural local?
ML: Quando se trata de assunto político-executivo, a discussão ganha ares de unicidade: ‘tudo como dantes no Quartel de Abrantes’. Aliás, essa frase portuguesa é do período em que Portugal foi invadido pelo exército de Napoleão, liderado pelo general Jean Junot, que conquistou, antes de invadir Lisboa, o castelo de Abrantes, lugar militarmente estratégico e ficou por lá alguns dias. Nesse período, um emissário de Dom João VI lhe passava as notícias: “tudo como dantes no quartel-general de Abrantes”. Mutatis Mutandi, o Brasil político é o nosso Quartel Abrantes. Tudo é igual de norte a sul, leste a oeste. Pois bem, quanto a Lei ‘AB’, a primeira coisa que se deve levantar nisso tudo é a burocracia que os artistas enfrentam. Isto é, a regulamentação da lei, não elimina uma série de complicações contidas nos formulários. Ou você contrata um terceiro para configurar tudo certinho ou vira um pesadelo. O menor erro, anula a solicitação. Perguntei a um músico. Ele respondeu na mosca: “Quem vai atentar para cultura em meio a uma eleição difícil com ares pandêmicos? Tudo, a partir de agora, é eleição e ponto final. Isto é Brasil”. Na verdade, fica difícil a gente opinar conceitualmente sobre isso ou aquilo. O que posso dizer é que a Lei, em sua essência, é uma vitória coletiva, pois a ideia foi sendo construída numa briga com articulação nacional entre sociedade civil e entes municipais e estaduais do poder público, nas instâncias legislativa e executiva. A partir da instauração do estado de calamidade pública no mês de março, e provocados por intensa mobilização social de agentes culturais, artistas e empresários da cultura, gestores de espaços culturais e parlamentares de vários municípios, encaminharam propostas voltadas para diminuírem os impactos da pandemia no setor cultural. Março passou, a lei foi aprovada e a burocracia avassaladora, acaba impossibilitando que muitos desses artistas (possivelmente os mais necessitados), fiquem longe dos direitos dessa aplicação legal.
5 - JV: Nos próximos cinco anos como você vê a evolução do mercado literário no Brasil e no mundo (enceramento de cadeia de Livrarias, novas tecnologias de impressão, divulgação e venda etc.)? O que vai mudar, o que vai sobreviver e com que consequências?
ML: Excelente indagação. Queria mesmo falar nisso. As grandes livrarias não estão passando por dificuldades financeiras em razão da modernização da leitura, através da inclusão digital. Tudo aconteceu por graves problemas de gerenciamento, com três principais razões: a multiplicação incontrolável de lojas, até mesmo em bairros com muitas dificuldades financeiras básicas. Sim, é necessário levar o livro até onde o povo está, dando aos leitores o máximo possível de opções de acesso à leitura, claro! Mas com total controle e análise contábil de cada região. Outro fator que observo está ligado às negociações entre fornecedores e editoras, a imposição da venda de espaços nas lojas (vitrines e prateleiras que passaram a ser vendidas às editoras ou escritores). A consequência é um terceiro viés da possível falência do sistema: com a editora sendo a dona do espaço, não importa mais a qualidade do livro a ser vendido. Qualquer obra ‘água com açúcar’, enviada pela matriz, seja nos EUA ou na Europa, fará a editora brasileira representante, colocá-la nos espaços mais privilegiados da loja. Antes, os livreiros liam, analisavam e escolhiam, com base no bom senso, quais obras estrangeiras ou nacionais teriam mais impacto no leitor brasileiro. O livro “A Revolução do Glu-Glu-Glu”, (tradução livre), estrangeiro, por ter vindo num pacote pré-determinado pela matriz, dona do melhor espaço na livraria, esse livro ficará na vitrine principal. A tendência é uma venda acima da média. E o que trata o livro? Trata da revolução de ‘cocôs’ que fazem uma greve porque o humano come só fast-foods. Essa greve se torna uma grande prisão de ventre e... por aí vai. Resultado: um dos mais vendidos no País das Maravilhas. Por outro lado, o bom é entender que nem só de elite vive o vendedor de livros. Deve-se levar em conta a situação real da população brasileira. Vale ressaltar somente que 1, em cada 4 brasileiros domina (mais ou menos) as habilidades de leitura, escrita e matemática. Mais de 44% dos brasileiros (em números baixos, quase 100 milhões) não abriram um livro nos últimos 3 meses e que 28%, disseram que não gostam de ler. O Brasil tem 210 milhões de habitantes (até este minuto). Então, porque acredito que a internet não é o fator ‘sine qua non’ dessa derrocada livreira, se não a péssima administração organizacional? Porque recente pesquisa a que tive acesso diz claramente que muitos leitores alfabetizados, ainda compram livros em livrarias físicas; 19% desses, compram em bancas de jornal e somente 15% compram via virtual. Outro ponto a favor do livro físico são as redes sociais, sim. Nelas, a valorização das obras é explícita, através de blogues, dos próprios autores, aficionados por leitura e dos leitores. Tenho participado de muitas reuniões virtuais que alimentam o desejo da compra do livro físico, através de recomendações e resenhas. Isso acontece entre pessoas de muitos estados através do Facebook e do WhatsApp, movimentos virtuais, não é mesmo? E se for falar sobre impostos de livros físicos e mais um ou outro assunto que gostaria, esta resposta se torna um ensaio. Mas, no meu bestunto, são aqueles três fatores que citei no início, os fundamentais para a decaída das grandes redes de livrarias, no Brasil e fora dele.
6 - JV: Quais os desafios e objetivos de curto, médio e longo prazo de Mhario Lincoln na cultura?
ML: Fiquei muito feliz em ter a oportunidade de publicar um de meus livros pela “Viegas Editora”. Acho que assim, vou ter uma das publicações mais importantes de minha carreira numa editora genuinamente maranhense. Com o movimento pandêmico, muita coisa que faria este ano foi transferida. Porém, estão todos os planos sob a mesa de trabalho. Na primeira oportunidade darei o ‘start’ necessário. Um dos projetos que já se realizou é o da iRadioweb 24 horas. Uma emissora de rádio devidamente registrada e apta a funcionar pela internet. Uma conquista e tanto. Nesse sítio, mostraremos programas de várias pessoas do Maranhão, podcast, músicas, poesia, transmissões ao vivo, além de ter, embutido no site, nosso Canal de iTV. Antes, tinha muitas produções nossas espalhadas. Agora, não. Tudo estará direcionado a um só endereço de web. Muito bom! Em 2021 ampliaremos para 100, o número de vagas (o limite) disponíveis na Academia Poética Brasileira. Estou muito feliz com o que consegui fora do Maranhão, para o Maranhão.
7 - JV: Como você vê o futuro das Academias de Letras? Não são elas um resquício de algo que irá se desvanecer com as novas gerações de escritores que têm outras prioridades e olham para as academias e seus rituais como coisa de velho?
ML: Pelo contrário. As academias não são ‘coisas de velho’. O que pode e deve mudar é a forma das atividades dessas academias. Na minha modesta opinião, esses relicários servem, primeiro, para imortalizar a grande e importante produção literária e artística de uma comunidade. Não são os poetas, homens ou mulheres, imortais; mas sim, toda uma produção deles. Isso é Patrimônio. Integra a história do seu povo. Da mesma forma como se conserva a história arquitetônica, a história da existência da humanidade, em grandes Institutos, Museus, Reservas Florestais, Quadras Físicas da Construção Clássica, a Academia tem essa função: ser a guardiã do pensamento dos seus. Para isso, deveriam substituir algumas ideias elitistas e ampliar as vagas para as manifestações populares de cada região ou estado. Isso legitimaria muito mais essa qualidade de guardiã da cultura. Se realmente as Políticas Públicas repensassem suas prioridades e incluíssem as Academias, Museus, Cinemas, Casas de Espetáculos, Associações Culturais entre, pelo menos, as 100 prioridades do Estado, essas agremiações se tornariam autênticos tesouros e distribuiriam a cultura através de palestras, cursos, livros, gravações audiovisuais e manifestações pertinentes, especialmente para a juventude que teria um apoio incondicional para amar sua terra e conhecer suas origens. Isso dignifica. Na Academia Poética Brasileira, da qual sou presidente, não há nenhum elitismo intelectual, nem hierárquico. Todos os membros são tratados com Igualdade e Respeito e fazem parte de vários gêneros artísticos. Inclusive pessoas que aderiram à Umbanda, à Manifestações Populares, além de poetas, músicos e artistas visuais de todos os estilos. Assim deveria ser a entidade que se propõe guardar o pensamento humano e suas produções. Enquanto isso não amadurece, as academias vão exercendo algo importante: a saga de imortalizar as produções dos filhos queridos de cada pedacinho deste País.
8 - JV: Conhecemos o Mhario homem de cultura, pode me falar um pouco do Mhario espiritual, místico ou religioso?
ML: Tenho educação presbiteriana. Toda a minha família, por parte de mãe, é evangélica. Essa família (os Felix) ajudou a fundar algumas igrejas evangélicas em São Luís. Durante muitos anos frequentou a Igreja Ebenézia, na Rua da Paz, do pastor Mister Moses. Por minha vez, congreguei na Igreja Presbiteriana do Brasil, na Praça da Alegria, em São Luís-MA. Durante os últimos 20 anos, porém, estudei muitas outras concepções religiosas. Mesmo sabendo que todas elas têm seus próprios sacrifícios. Isso veio a fortalecer ainda mais meu amor e minha fé em Deus, da maneira como o concebo. Fiz também sacrifícios. Assumi algumas posições bem difíceis, após ler trabalhos pertinentes ao Jesus Messiânico, fora dos contextos constantinos. Para entender onde pisava, raciocinei muito em cima das compreensões desenvolvidas pelos tutores do Apocalipse. Os mesmos que aguardavam um ‘Messias Filho do Homem, descido dos céus’. Tive que ler a Concepção dos Essênios, a qual esperava um Messias Sacerdotal. Tive que vivenciar o que os Zelotes cultivaram através dos movimentos (revolucionários) populares. Tive que entender que muita gente via Jesus, como um Monarca de descendência Davídica. Diante de tantos exemplos, em cima de inúmeras concepções acerca de Jesus, acabei por respeitar quaisquer que fossem as religiões, seus conceitos e suas promessas. Alguns anos depois, descobri uma obra de grande impacto: “Da Concepção ao Batismo”, de Jñana Soham, obra indispensável àqueles que precisam desconstruir dogmas, credos, crenças e crendices ‘religiosas’. A partir daí, estudei o Espiritismo, a Umbanda, o Terecô, interessei-me pelas Mensagens Akáshicas, reabilitei meu lado cósmico e ufológico. Assim, posso responder afirmando que minha fé pode-me levar a ser Espiritual, Místico e Religioso, ‘sem perder a ternura.’
9 - JV: O escritor Mhario Lincoln vai publicar em breve uma nova obra? Se sim, pode nos falar um pouco dela?
ML: Sim! Tenho dois romances de quase 400 páginas, cada. Temas centrais bem interessantes. O que penso em lançar em São Luís é um livro-reportagem que fez muito sucesso editorial na década de 90. Mas continua atualíssimo, pois é história pura. Diz respeito ao naufrágio do terceiro maior graneleiro do Mundo, o Hyundai New Word, com temas quase inéditos sobre Meio ambiente, Desastre Ecológico e outros assuntos. Nesse livro, de 1994, a primeira edição, após 10 anos de pesquisa ininterrupta, tive a ajuda direta de vários amigos, dentre eles, do advogado Osvaldo Rocha, do membro do IHGM Edomir Martins de Oliveira, do empresário marítimo Mario Flexa Ribeiro, do jornalista Fernando Baima, do diretor Bento Moreira Lima (Companhia Docas MA), do CMG Carlos dos Santos Ramos, então Capitão dos Portos do Maranhão e de Antônio José Muniz (ex-Diretor do Sioge). Como se vê, uma obra de fôlego, que gostaria de lançar através da editora Viegas. Um livro maranhense, manufaturado em terras maranhenses. Ainda tenho outros dois livros de poesia e um inédito: “Guia do Extraordinário Poético no Twitter”, composto por uma centena de frases que escrevi por 3 anos, nessa rede social.
10- JV: Você se considera mais um exemplo do que Jesus dizia, “ninguém é profeta em sua terra”? Foi preciso você sair do Maranhão para reconhecerem o valor do seu trabalho? Como você vê hoje o meio cultural maranhense? Algo evoluiu? Mudou desde o tempo do seu “exilio voluntário” para as terras do Paraná? Se sim, o que mudou e o que você considera que seria preciso mudar ainda?
ML: São Luís é uma cidade surreal, desde a época em que franceses, ingleses e holandeses se revezaram no comando provisório dessa terra. Joãosinho Trinta chegou a afirmar: “Vou para São Luís e não sei quando volto. Lá, a gente não conta o tempo”. Talvez o carnavalesco tenha acertado. O tempo não muda e as coisas, também. Essa, possivelmente, seja a razão para poucas mudanças. E o que sobra, lembra a Academia Francesa, entre os séculos VII e XIII, quando o pensador francês Charles Perrault instigou a “Querela dos Antigos e Modernos”, polêmica intelectual, onde a antiguidade clássica e os modernistas, disputaram a superioridade da palavra. Enquanto isso, o rio Sena continuava banhando Paris e desaguando no Atlântico. Portanto, caro amigo, pouca coisa mudou. Contudo, tais fatos sumariamente culturais e indiscutíveis fazem de São Luís uma cidade original e tão carinhosa com os seus. Sou muito grato a tudo que por lá vivi. Na verdade, enquanto fui residente e domiciliado em São Luís, tive muitas vitórias. Como advogado, cheguei a Chefia de Gabinete da Secretaria da Fazenda do Estado do Maranhão. Sou auditor, cujo emprego, consegui através de concurso público. Assumi vários cargos importantes. Inclusive, no Tribunal de Justiça, na Assembleia Legislativa e na CAEMA, todos, nos gabinetes dos Presidentes. Como jornalista trabalhei nos dois principais jornais, “O Imparcial” e o “Jornal Pequeno”. Exerci minha profissão com muita felicidade. Cheguei a receber de Roberto Santos, então governador da Bahia, prêmio de melhor colunista em minha região. Eu e minha mãe, Flor de Lys, apresentávamos um dos programas mais antigos e de maior duração da TV Local (Difusora), além de coordenar, por longos anos, o Concurso Miss Brasil, no Maranhão. O Livro INA-A VIOLAÇÃO DO SAGRADO, minha estreia literária, foi simplesmente incrível. Como era um livro ligado ao mundo marítimo, toda a representatividade desse segmento esteve presente no lançamento ocorrido à beira do cais do Porto do Itaqui. Sou Comendador, deferência a mim oferecida pelo Governo do Maranhão. Recebi as três medalhas das Forças Armadas Brasileiras pelo meu trabalho no jornalismo local. Lancei dois livros de Direito e escrevi inúmeros artigos jurídicos na imprensa ludovicense. Por isso, sou membro-fundador da Academia Maranhense de Letras Jurídicas com muito orgulho, membro do Instituto Histórico do Maranhão (agora correspondente), além de ter recebido uma das placas mais importantes de minha vida, concedida pelo Hospital ‘Nina Rodrigues”, por ter-me dedicado por 25 anos ininterruptos à ajuda direta a pessoas que possuíam a doença do alcoolismo/outras drogas. Como se vê, consegui algumas glórias em minha terra natal. Recebi apoio em todas as atividades que me envolvi com honestidade, dedicação e dinamismo. O fato de sair do Maranhão deu-se para tentar ampliar meus horizontes profissionais, além da ponte do Estreito dos Mosquitos. Pensamento antigo, desde quando tinha 14 anos, começando minha carreira de jornalista, como repórter de polícia no ‘Jornal Pequeno’, guiado pelo grande Elói Cutrim. Na época em que decidi sair de São Luís, já tinha idade suficiente para minha aposentadoria. Foram longos 45 anos de vida pública. Assim, já possuía toda essa experiência profissional para alçar voos maiores. Precisava, então, ampliar tudo isso. Aqui, em Curitiba-PR, consegui continuar minha luta em prol das liberdades e igualdades culturais, de forma mais ampla. O Paraná me deu chance de abrir esse leque e estender minhas ideias a outras comunidades e outras pessoas. Aqui, fui Assessor de Gabinete do Secretário de Desportos, Raul Plasmann (o goleiro-campeão do Mundo pelo Flamengo), trabalhei na feitura do Suplemento Internacional da Visita do Imperador Akihito, do Japão, ao Paraná, pelo jornal “Indústria e Comércio”, também fui colunista do Jornal “A Hora” e finalmente, junto com o jornalista e poeta João Batista do Lago, dirigimos, durante 10 anos, o Portal “Aqui Brasil”, cujo sucesso foi significativo. Fui eleito para o Centro de Letras do Paraná, uma das casas acadêmicas mais tradicionais do País. Na verdade, minha saída de lá apenas complementou minha luta por uma São Luís melhor. Nosso trabalho nacional chamou bastante atenção ao que de bom minha cidade possui. Uma delas, a extraordinária AMEI – Associação Maranhense de Escritores Independentes, cujo exemplo, tentam copiar em vários rincões nacionais.
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