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Brasil EDUCAÇÃO

Crônica inédita do Jornalista Mhario Lincoln: "Todos os 15 de Outubros".

Lembranças do Colégio São Luís de Gonzaga

15/10/2020 16h07 Atualizada há 1 semana
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Rua do sol. Velho prédio do CSLG.
Rua do sol. Velho prédio do CSLG.

 

DIA 15 DE TODOS OS OUTUBROS

Mhario Lincoln

 

(*) Esta crônica foi o resultado de uma conversa com o poeta João Batista do Lago, meu contemporâneo do Colégio São Luís de Gonzaga, a quem agradeço a lembrança dessa extraordinária passagem de minha vida. Contudo, bateu-me imensa tristeza ao ver esse belo predio colonial, quase que completamente destruído pelo abandono. (Foto baixo).

Já se vão lágrimas de saudade. Quando ouço, leio ou vejo homenagens aos professores, essas lágrimas regam minha infância e o pátio interno do Colégio São Luís de Gonzaga, situado à Rua do Sol, (S. Luís), em frente ao prédio do Museu Histórico do Maranhão. Rua do sol, ladeira que nos leva ao Largo do Carmo, palco de discussões, do Senadinho da Praça, da revolução de 51. Era isso que se hoje voltasse a me dependurar nas grades que circundavam o parapeito das janelas do segundo andar da escola, com certeza eu avistaria, caso rumasse meu olhar ‘praquelas’ bandas.

Grades. São essas grades de parapeito que foram únicas testemunhas de minha dor, quando a diretora e dona do colégio, professora Zuleide Bogea, quase me arrancava, com as unhas de alicate, minha orelha, por subir nelas e quase desabar, calçada abaixo. Zuleide, que professora! Que mestra! Mesmo com com seus 100 quilos de existência, flutuava na leveza educacional e no talento montessoriano indelével.

Praticamente em ruínas.

O Colégio São Luís de Gonzaga era uma Catedral. Na sala principal de aulas, para os quartanistas, as paredes recebiam decoração de mapas-múndi. A partir daquelas configurações de massa colorida, em alto relevo, bem elaboradas obras de arte, o aluno confundia-se com a campanha de conquista do espaço. Era época do Sputnik. Momento de celebridade da cachorrinha Laika, o primeiro ser vivo a deixar o planeta Terra rumo ao espaço. Isso era um incentivo à vitória profissional e me fazia sonhar em ser um ‘Ultraman’, ou ‘Jaspion’, ou ainda ‘Flash Gordon’.

Mas, um amor juvenil atrapalhava os sonhos intelectuais, dentro desse espaço-tempo primordial para o desenvolvimento físico. Todo o foco mudava de repente quando passava no corredor, no fundo da sala principal, a inebriantemente linda, Luíza, sobrinha da professora Zuleide. O perfume de ‘patchouli’ invadia a razão e a descontrolava de forma inevitável. Até que as unhas de alicate da professora Zuleide voltassem a agarrar as orelhas, para obrigar a retomada do foco em sua aula de História Geral.

Olhando ao pé da escada que levava ao primeiro andar do casarão, a irmã, D. Dadá, era impecavelmente fiel a tudo que por lá acontecia. Mesmo assim, uma pessoa de extrema sensibilidade, com olhos que tremulavam de felicidade quando via um aluno feliz ou saboreando o cardápio servido: arroz, feijão e bife acebolado, realmente um privilégio para quem era, como eu, semi-interno.

Se tivesse que classificá-la, poderia dizer que tinha uma alma - se não igual - o mais próximo possível do espírito de Madre Tereza de Calcutá. Amável e carinhosa! Sempre alegre e disposta a se doar pelo outro. Vez em quando, ela me chamava no canto da sala (no intervalo) e oferecia um pão dormido (melhor ainda) e uma consistente fatia de goiabada cascão. Era um momento de imensa felicidade.

Em casa, eu e minha irmã Orquídea Santos, ela, ainda bebê, passávamos por um momento difícil, acompanhando o processo de separação de nossos pais. Exatamente aí, no meu caso específico, entra D. Dadá, que quando me surpreendia chorando, vinha, me dava um longo abraço e me levava para a cozinha. Fazia um ovo bem molinho, jogava farinha d’água por cima e me entregava um copo de leite (distribuídos pela campanha “Aliança Para o Progresso”). Com aquela voz calma e harmônica dizia: “meu filho, o leite acalma e o ovo fortalece”.

Como eu era aluno do semi-internato, passava mais tempo no colégio. Privilégio que me conferiu conviver com pessoas como Luiz (sobrinho), 'Prego', 'Morcego', 'João de Deus', Miércio Jorge, João Batista do Lago e Luiza. Às tardes, no pátio inferior do casarão da escola, falávamos bobagens e sonhávamos alto. E não foi em vão sonhar. A maioria dessa turma, até onde sei, teve uma vida adulta muito feliz.

Foi-se a escola e perdi o vínculo com alguns. Hoje, quando volto a minha terra, São Luís do Maranhão, e vejo aquele prédio imenso do jeito em que ele se encontra, a vontade que tenho é invadi-lo para furtar o que restou de minha infância. Uma infância onde respeitava e amava meus professores. Por essa razão, elas, a professora Zuleide Bogea e a irmã Dadá, tiveram tão grande importância em minha vida e na vida de tantos quantos por lá passaram.

Volto meus olhos para o hoje e sinto como mudaram os relacionamentos entre aluno/professor. Como mudou o interesse de vestir um uniforme e expô-lo com orgulho no percurso entre a casa e o colégio. Como eram festivas as diplomações do Primário. Interessante é que tinha uma foto de nossa diplomação, onde o presidente do Tribunal de Justiça (MA) estava presente. Uma honra para quem recebia o diploma de uma primeira etapa vencida.

Hoje, dia 15 de outubro (2020), revejo meus alfarrábios e me descubro uniformizado, orgulhosamente, à entrada do Colégio São Luís de Gonzaga. Mil coisas em meus pensamentos! Luíza, nossa musa, ainda passa rapidamente. Mas a família Bogea continua símbolo de uma saudade, que me ajudou diretamente nesse rito de passagem, do qual nunca esquecerei.

Feliz Dia dos Professores!

 

Mhario Lincoln

Presidente da Academia Poética Brasileira.

 

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