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Brasil PATRIMÔNIO

'Ó minha cidade/deixa-me viver...", crônica do jornalista Mhario Lincoln

Sobre o caso da derrubada do tradicional abrigo do Largo do Carmo, em S.Luís.

17/10/2020 10h57 Atualizada há 1 semana
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
arquivo google.
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“Ó Minha cidade, deixa-me Viver”

 (*) Mhario Lincoln

 

“Ó minha cidade, / deixa-me viver...”. Tribuzi tinha razão ao compor esses versos, parte do Hino da Cidade de São Luís-Ma. Em cada pedacinho da Ilha, um pedacinho de vida. Há história. Muitas histórias em cada canto das ladeiras, sobradões e nas praças. No Largo do Carmo, por exemplo, dava para ouvir o murmúrio da noite, ecoando entre o cimento armado do abrigo. ‘Rei dos Homens’, encostado na mureta do box do Jorge prestando atenção na conversa intelectual dos poetas em recitais intermináveis nas madrugadas de setembro. Não era raro, um carro de algum bacana frear bruscamente à frente das fileiras de taxis, no acostamento que dava acesso à via principal da praça. Nem bem saia do carro e já gritava para o atendente do box de caldo de cana, do outro lado: “Garapa com pão e dois ovos”. Na certeza de recuperar o suor físico que lhe banhara o corpo em alguma aventura de amor.

Leilinha do Itapiracó, corria para emboscar o bacana e lhe pedir cigarro e uns trocados para voltar pra casa. Naquela noite de calor infernal, mesmo àquelas horas, não tinha conseguido nenhum encontro. Com longos dedos da mão direita, pendurava as tiras dos sapatos altos sem se aperceber que a maquiagem forçada desaparecia com o tempo de espera.

O Pastor Humberto, morador da rua da Cerâmica, no bairro do João Paulo e frequentador dos abrigos noturnos da cidade ludovicense, cumpria sua missão e buscava salvar almas para o Senhor, abordando bêbados, prostitutas e infelizes, figuras incólumes, sempre, ao derredor do Abrigo do Largo do Carmo. Isso acontecia todas as noites, desde quando parou de beber, decepcionado por não ter participado da trupe de grevistas, em 1951, contra a posse do caxiense Eugenio Barros, por irresponsabilidade alcoólica.

O Abrigo estava lá. Assistindo a tudo, como um monolito pascal. Esse mesmo abrigo que assistiu embates líricos de maranhenses gloriosos como Erasmo Dias, Bandeira Tribuzi, José Nascimento Moraes Filho, Nauro Machado, José Maria e Jorge Nascimento, José Chagas, Othelino Filho, Bernardo Almeida, Amaral Raposo e José Ribamar Bogéa.

O mesmo Abrigo do Carmo, continua ali, firme e forte, há 69 anos. Mas, com os dias contados, à espera da eutanásia. O destino é ser despudoramente enterrado, sob uma pá de cal, em um brutal assassinato dos anais buliçosos, ainda efervescentes, de políticos, intelectuais, jornalistas, bêbados, transeuntes, juventude, pedintes, solitários e infelizes, que por lá deixaram suas histórias.

Então por que sobre esse solo sagrado não se reconstruir algo que, ao invés de aprisionar, possa libertar essa energia sedenta de renovação? Sim! Mahatma Gandhi ensinava: “Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”. E como poderia isso vir a se realizar? Concedendo a esse espaço uma nova chance de germinar pensamento e raciocínio humanos de forma saudável.

Existem muitas sugestões. Todavia, todas, indubitavelmente todas, depende inteiramente da vontade do Poder Público. Mesmo que hajam algumas importantes manifestações, em curso, de aproveitamento do local. Uma delas é importante: transformar esse Abrigo em museu da história de São Luís. Poder-se-ia usar parte do acervo do Museu do Maranhão, na rua do Sol. Muitos de nós, desconhecemos essa bela história de forma física. Existem inúmeros artefatos históricos espalhados por pontos aleatórios. O abrigo poderia servir para juntar parte deles.

Outra ideia: a criação de um museu do comércio, com a participação direta da Associação Comercial e da Fiema, mostrando de forma física e histórica, os períodos de desenvolvimento da indústria e do comercio local. Melhor ainda, agregando o Sebrae no projeto, a fim de, em sala especial, oferecer curso de micro e pequeno empreendedores, nicho de mercado usado por camelôs e pequenos comerciantes nas cercanias da Rua Grande, a rua principal do comércio.

Mais uma ideia: como há uma tendência de tirar (da região) as bancas de revistas, seria de bom alvitre, reordená-las nesse espaço, garantindo trabalho aos jornaleiros tradicionais do Largo do Carmo.

Uma das ideias pertinentes: a criação do Museu do Cinema. Ficaram na história Cine Éden, Cine Monte Castelo, Cine Roxy e tantas outras casas de entretenimento responsáveis pela diversão de gerações inteiras, infelizmente, esquecidas.

Na verdade, o resgate desse espaço (existem inúmeras ideias de reaproveitamento), transcende à obra física de engenharia. Torna-a indelével. Torna-a eco dos nossos próprios chacras, nossos centros de absorção, exteriorização e administração de energias no duplo etérico. Eco da voz do bacana pedindo garapa e pão com dois ovos. Da pinguinha da madrugada. Da música lastimosa ouvida no box do meio, do xingamento de um doido qualquer a um cliente que não lhe deu tostões, da zoada insistente das máquinas de “O Imparcial”, imprimindo a edição do dia. Dos caminhões de entrega de mercadorias para a Rua Grande, do cheiro do pão fresquinho da Padaria Cristal, dos sussurros madrugadores escapulindo entre as beiras do hotel, no outro lado da rua. Das risadas exageradas dos alcoolistas. Dos primeiros acordes da vinheta de abertura da Radio Timbira, altos da primeira esquina da rua Afonso Pena. Das inesquecíveis declamações de Carlos Cunha. Do ronco de cansaço do motorista Domingão, do taxi azul. Do tinir do telefone do Posto, chamando para uma emergência. De toda uma vida burilando no entorno de uma imensa saudade. Então mesmo sendo assombrado com os boatos da destruição do abrigo, fico com Anne Frank: “Apesar de tudo, eu ainda acredito na bondade humana (...)”. Desculpa, Anne. Nesses, do lado de cá, não!

 

(*) Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira

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