Especial: pesquisas de Leopoldo Gil Vaz
Encontrei em “A Pacotilha”, de 25 de novembro de 1927, de Fulgêncio Pinto o que segue - Um conto de Natal:
Ortografia da época
“Era o ano de 1609, em Saint Malo, ilha de França, cidade dos corsários. Numa taberna reuniam-se muitos homens a gritar, a falar alto.”
[...] De repente surge um cavalheiro de olhos azues, porte esbelto e fidalgo, vestindo um gibão escarlate, trazendo sob a cinta de couro de serpente, um punhal de cabo de prata.
Ele chegava de longe, de outras terras, de lugares desconhecidos.
- De onde vem?
- Quem será ele?
- Para onde irá?
- Parece-me que o conheço!...
- Creio que fazia parte da tripulação de Jacques Riffault.
- Não estás enganado?
- Por Deus, que não. Não me são estranhos, este rosto e esta voz.
Eram estes os commentarios em torno d figura simpatica daquele homem que ali entrara, pedira um copo de cidra, e o esquecera em cima da mesa, entretendo-se a examinar um velho mapa.
Ele havia chegado em companhia de alguns indios, dois dias antes numa das naus que ali estavam ancoradas no porto.
Ali viam-e homens de todos os aspectos, de todas as raças, de todas as nacionalidades, de todas as cores, desde os mais ferozes até os mais pacíficos.
Misturavam-se as línguas; ora ouviam dialetos sonoros, ora idiomas duros e quasi imperceptíveis.
A fumaça dos cigarros diluindo-se no éter deitava uma iaca enjoativa, acre, misturando-se com o cheiro de alcatrão e da maresia.
Aquela velha casa onde se reunia tanta gente, era a taberna cuja porta encimava garbosamente este letreiro ’Au rendez vous dês corsaires’ sobre uma grossa chapa de ferro.
Em frente desdobrava-se uma paizagem marítima, banhada pela margem do oceano aformoseando o horizonte, quer nas manhãs magníficas quer nas tardes silenciosas, quando o sol com seus aparatos de riquezas sumiam-se no mundo do sonho e do nada.
Quatro mesas enormes estavam cercadas de bancos de carvalho.
Apesar da grita o homem que entrara ha pouco, esquecia-se da cidra e continuava a estudar o mapa com muita atenção.
- Diabo! Quem será aquele cavalheiro? Gritou um corsário.
- Não o incomodeis berrou Tricon, pronto para fazer calar com um murro, o curioso.
A’ porta da taberna assomaram mais dois cavalheiros. Um era François Dupré, filho único de um rico armador de Saint Malo, que havia conquistado nome e fortuna no Corso; o outro Raul Renaud, antigo professor em Paris, na Universidade de Sorbona, conhecido como sábio em sciencias naturaes.
Entram e sem dirigir palavras aos demais que ali se embebedavam, tomam assento justamente, diante do desconhecido que lia o mapa.
- Carlos Des Vaux!... Vós aqui!
Já vos tínhamos como morto!... gritou admirado Dupré.
O homem, espantado ouvia-lo o seu nome levantou a vista, e reconhecendo no jovem, o pequeno Dupré, o garoto que deixara ainda imberbe quanto partira para as suas correrias pelo oceano, poz-se de pé e estendeu-lhe as mãos entusiastamente.
- Bravo Dupré! Estaes um perfeito homem.
- Onde andaveis vós?
- Cruzando os mares – responde o pirata.
- O que tanto vos prende a esse papel
- Um sonho, pequeno.
- De amor?
- Não, de conquista.
- Que papel é esse Des Vaux?, Um mapa?
- Sim, um mapa.
- E que sonho de conquista será esse?
Dupré apresentou-lhe o seu velho amigo e mestre Raul Renaud.
-Ouçam-me o grande sonho – pediu Des Vaux.
Contentes achegaram os bancos de carvalho, e debruçados da mesa, quedaram-se sobre o mapa que Carlos Des Vaux tinha entre as mãos, apontando-lhes ali, num belo discurso, os encantos de uma terra prodigiosa e moça, para la do oceano, em que ele havia havia habitado por muito tempo entre os índios.
Quinze anos eram decorridos, desde o naufrágio de Jacques Riffault num dos baixios ao norte do Brasil, nas proximidades da costa do Maranhão.
Quinze anos aquele homem de olhos azues, cor bronzeada, pele queimada pelo sol caustigante dos trópicos, que ali estava a conversar animadamente, errara pelas matas da formosa terra moça pelos litoraes, pelos ínvios sertões, e depois de haver alcançado Victoria brilhantes ao lado dos índios nos conflitos de Hibiapaba, resolvera fixar residência no ponto mais pitoresco numa ilha arborizada, seguro da amizade dos Tupinambás, tornando-se o homem de confiança de toda a tribo, que lhe adirava a bravura e a bondade do coração.
Era ali a formosa ilhados Tupinambás, ilha d sol, vicendo na exuberância da sua luz, tecendo magníficos cortinados nas franças dos arvoredos selvagens, cheia de mistérios e explendores, flora maravilhosa, vales rumorosos, que ao revelhar-lhes os encantos, o pirata, sentia uma certa transfiguração de espirito, e o cérebro embriagava-se de sonhos magníficos.
Era ali que Japiassú grande amigo e aliado de Des Vaux, era chefe, principal, irradiando o seu alto poder, de Juniparan, a aldeia mais notal de quantas existiam na ilha.
Terminada a narração ele o pirata explicou aos amigos que voltava à pátria afim de oferecer à sua magestade cristianíssima Henrique IV, rei de França e senhor de Navarra, não só a posse do território fertilíssimo como também a amizade e obediencia dos Tupinambas.
Os três homens esquecidos do tudo quanto os cercava, confabularam em armar uma expedição, em demanda da terra previlegiada, expedição que mais tarde foi levada a efeito auxiliada pelo conde de Sulley, então governador da Bastilha, conselheiro de sua magestade Henrique IV, sob o comando do senhor de La Ravardiere, que foi ali fundar uma cidade em honra a Luis XIII, na regência de Maria d Medicis.
[...] onde fica essa formosa terra tão linda, tão moça de Carlos dês Vaux.
[...] essa formosa terra moça e previlegiada é S. Luis é o Maranhão [...]
- É Maranhão!...
- E quem era Carlos Des Vaux?
Era um Frances, amigo do Maranhão que sacrificara tudo, para fundar aqui a França Equinocial!
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