
Editoria de Pesquisa e Extensão – Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Nauro Machado, sem dúvida, é um dos maiores nomes da poesia brasileira contemporânea. E mais, com o lançamento póstumo de Um Iceberg para Praia Grande, obra escrita pouco antes de sua morte em 2015, ele ratifica sua abundância criativa.
O livro mergulha na memória e na paisagem afetiva da cidade, especialmente na região da Praia Grande, habitué histórico da boemia atual. Também reafirma o vínculo visceral do poeta com São Luís do Maranhão. Aliás, nesse evento de sucesso, (14.09.2025), a música se uniu à palavra, em um espetáculo que reuniu ícones da canção maranhense para homenagear aquele que fez “da linguagem poética um campo de investigação estética e existencial”, como disse, certa vez, Raimundo Fontenele, poeta e colaborador da Plataforma do Facetubes.
Nauro Machado – mais do que nunca - construiu, desde Campo sem Base nos anos 1950, uma trajetória marcada pela rara combinação de rigor formal e inquietude filosófica. Sua poesia não se contenta com o virtuosismo técnico: investiga as zonas mais densas e inquietantes da condição humana, num diálogo permanente com a tradição literária.
Alguns que o citam não sabem que nas obras de Nauro (“tem uma aura atômica, resultante da explosão da Bomba Lírica”), nas palavras do poeta e ex-desembargador Aluízio Ribeiro da Silva – in “Alfarrábios Meus”, (e continua) “há uma forte influência da lírica francesa – Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine – é indissociável de sua formação, mas não o define por completo; em sua escrita, há também algo de viridante que flui de Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Antero de Quental, Fernando Pessoa (...)”, discorre Aluízio.
Mais adiante há estudos que consideram em Nauro uma mágica intelectual impressionante fazendo com que o soneto, forma clássica que muitos consideravam exaurida, encontrasse algo de renovador. Seu domínio técnico não era mero exercício de estilo, mas instrumento para sustentar imagens de contundência lírica e intensidade dramática.
Como observou o crítico Fritz Teixeira de Salles, “Nauro Machado exprime a seiva linguística que o Maranhão fabrica para o Brasil, continuando a tradição impressionante de Sousândrade e trabalhando o moderno com o instrumento do clássico”. Ao revigorar o soneto, Nauro Machado – mesmo preservando a sua estrutura – quebrou paradigmas e o fez vibrar com novos significados, capazes de acolher tanto a música interna dos versos quanto a violência das imagens que evocava.
Na maioria dos livros pesquisados para tornar este texto viável, sempre ficou claro entre os autores e resenhistas do poeta de 90 anos – se vivo fosse - a busca pelo “poema”, como se ele também buscasse pelo próprio sentido da existência.
“Não busco o poema: busco o abismo. E nele encontro o poema”, escreveu, sintetizando o ethos de uma produção que oscila entre o rigor intelectual e a vertigem metafísica.
A morte, o tempo, o corpo e o sentido último da vida atravessam seus livros como obsessões inevitáveis, mas nunca repetitivas, pois cada abordagem revela novas camadas de percepção e linguagem. “Sua poesia é, ao mesmo tempo, uma meditação e um combate”, como escreveu Ricardo Leão.
Embora reverenciado por críticos e estudiosos, Nauro Machado permaneceu distante das vitrines mais imediatas da cultura de massas, o que não diminuiu o alcance de sua obra. Ao contrário, tal condição parece preservar o frescor de uma voz que se mantém íntegra frente às efemeridades.
Vale aqui, igualmente citar Ronaldo Costa Fernandes: “Nauro Machado é o épico do ser, a grandiosidade da dor última, só comparado ao gênio da língua Jorge de Lima com seu Invenção de Orfeu. A dilaceração do eu, a viagem odisseica pelo interior atormentado - não consigo entender a poesia a não ser como expressão do desconcerto do mundo ou desassossego de espírito. E Nauro é o mestre dessa arte maldita. Acrescente-se este exílio - insular e poético de Nauro - que o faz mais singular, sofrido e personalíssimo”.
Destarte, sua poesia, de essência atemporal, sempre vai conversar com o presente, sem perder a densidade que lhe é própria. “Ler Nauro é confrontar-se com uma linguagem que, em vez de oferecer respostas fáceis, amplia o horizonte das perguntas”, igualmente escreve Ricardo Leão*.
Agora, com Um Iceberg para Praia Grande, São Luís recebe de volta um filho que nunca a abandonou. Nesta obra final, ele reafirma a fusão entre geografia e memória, entre a materialidade das ruas e o imaginário que delas brota. É a confirmação de que Nauro Machado não escreveu apenas sobre o mundo: escreveu contra o esquecimento, inscrevendo sua voz na tradição da poesia de língua portuguesa como elo indispensável entre o clássico e o contemporâneo, entre a herança recebida e o abismo que ainda nos desafia.
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Durante a festa de lançamento de “Um iceberg para a Praia Grande(**), vale destacar que a esposa Arlete Nogueira Machado considerou esse último livro do poeta Nauro Machado como “uma despedida, dentre os seis livros inéditos e eu fiz. É um livro de quase 5000 versos, marcados pelos temas dele, inclusive de morte. Ou algo parecido. Parece que com esse livro, ele despediu da vida”.
O presidente da Academia Maranhense de Letras, Desembargador Lourival Serejo se manifestou na ocasião do lançamento do último livro da cepa de Nauro e disse: “(...) depois de tantos anos do seu falecimento, lançar um livro com o que ele deixou produzido em vida, é a prova de que quem produz poesia literária nunca morre, são imortais e nós estamos aqui consagrando isso porque ele ainda vive e se manifesta por essa poesia de seu 'Um Iceberg na Praia Grande'. Isso é realmente um trabalho de obstinação da sua esposa, que se dedica muito afinco, para manter viva essa memória que merece todo esse reconhecimento, não só no Maranhão como em todo o Brasil".
O acadêmico da AML e da Academia Poética Brasileira, poeta, professor e escritor José Neres afirmou que “(...) o livro de poesia de Nauro Machado é uma prova de que o homem estava completo. O poeta, não! Como ele mesmo disse; mesmo após uma década após a morte de Machado, nós ainda colhemos os frutos de sua poesia e a sua poesia, como todos nós sabemos, não se limita somente aos livros. A própria vida de Nauro Machado foi um exemplo de poesia, um exemplo de ser humano, exemplo de poeta. E agora nós chegamos ao último livro deixado por ele, o que para nós é sempre uma honra poder ler (...)”.
Outro imortal e amigo da APB, advogado Daniel Blume, asseverou: “(...) o poeta Nauro Machado é considerado um dos grandes escritores de sua geração. O lançamento de 'Um iceberg para a Praia Grande', que é um poema de quase 200 páginas, é único e traz a alma desse poeta nas letras, mostrando que a verdadeira imortalidade está na literatura que fica. O poeta da filosofia, Machado, que hoje ressuscita através da literatura. Já o professor Dino Cavalcante (colaborador emérito da Plataforma Nacional do Facetubes), assegura que “o livro Um iceberg para a Praia Grande, do escritor Nauro Machado é de sua importância para que a gente possa refletir sobre esse grande Homem que foi o poeta Nauro Machado, o homem que fez da palavra a sua trilha literária, o homem que construiu o Maranhão voltado para a nossa literatura maranhense, que é uma referência não só no Maranhão, mas para o Brasil e para muitos estudiosos do mundo. Então, estar aqui hoje neste lançamento do Livro do Machado é uma honra para todos nós que estudamos a literatura maranhense”.
Ivan Pessoa, amigo de Nauro Machado, disse, na ocasião: “Sempre que Nauro vem à minha memória sempre vem de maneira muito pontual, de maneira muito especial, porque, na minha opinião, existiam dois Nauros. Um, essa figura pública, esse poeta de relevância inestimável para a nossa cultura e para a nossa literatura. O outro Mauro, que frequentemente mantinha certos diálogos comigo por telefone e quase sempre eram conversas que complementavam muito do que ele produzia, mostrava suas angustias íntimas. Lembro que certa vez ele me ligou e numa das ocasiões ele se valeu de uma expressão que nunca mais esqueci: “Sou consumido por horrores místicos”. Essa foi a expressão que ele utilizou”.
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Fontes: https://www.ma.gov.br/ *”Tradição e Ruptura:a Lírica Moderna de Nauro Machado”/Ricardo Leão (Funbcma)./ O Imparcial./ Portal de Periódicos./ TV Mirante/ AML.
(**) A Praia Grande representa um dos mais pulsantes símbolos da poesia e das artes no Brasil, pois ali a cidade respira cultura em suas ruas de pedra, casarões coloniais e azulejos seculares, que ecoam memórias de séculos de encontros entre Europa, África e América. Espaço onde o tempo parece suspenso. Assim, a "Praia Grande" é ao mesmo tempo palco e inspiração: seus becos guardam os passos de Nauro Machado, enquanto suas feiras, rodas de tambor de crioula, artesanato e música popular revelam a essência viva de um patrimônio que não se limita à arquitetura, mas se prolonga no imaginário artístico e literário, transformando-se em fonte inesgotável de criação cultural.
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