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A incrível poética de Nauro Machado entre o clássico e o abismo existencial

Integram este texto: Fritz Teixeira de Salles, Ricardo Leão, Ronaldo Costa Fernandes, Arlete Nogueira, José Neres, Daniel Blume, Dino Cavalcante e Ivan Pessoa.

11/02/2026 às 08h19 Atualizada em 11/02/2026 às 08h47
Por: Mhario Lincoln Fonte: Plataforma Nacional do Facetubes
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Nauro Machado: “Sou consumido por horrores místicos” (Art: MHL/Ginai).
Nauro Machado: “Sou consumido por horrores místicos” (Art: MHL/Ginai).

Editoria de Pesquisa e Extensão – Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln

Nauro Machado, sem dúvida, é um dos maiores nomes da poesia brasileira contemporânea. E mais, com o lançamento póstumo de Um Iceberg para Praia Grande, obra escrita pouco antes de sua morte em 2015, ele ratifica sua abundância criativa.

O livro mergulha na memória e na paisagem afetiva da cidade, especialmente na região da Praia Grande, habitué histórico da boemia atual. Também reafirma o vínculo visceral do poeta com São Luís do Maranhão. Aliás, nesse evento de sucesso, (14.09.2025), a música se uniu à palavra, em um espetáculo que reuniu ícones da canção maranhense para homenagear aquele que fez “da linguagem poética um campo de investigação estética e existencial”, como disse, certa vez, Raimundo Fontenele, poeta e colaborador da Plataforma do Facetubes.  

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Nauro Machado – mais do que nunca - construiu, desde Campo sem Base nos anos 1950, uma trajetória marcada pela rara combinação de rigor formal e inquietude filosófica. Sua poesia não se contenta com o virtuosismo técnico: investiga as zonas mais densas e inquietantes da condição humana, num diálogo permanente com a tradição literária.

Alguns que o citam não sabem que nas obras de Nauro (“tem uma aura atômica, resultante da explosão da Bomba Lírica”), nas palavras do poeta e ex-desembargador Aluízio Ribeiro da Silva – in “Alfarrábios Meus”, (e continua) “há uma forte influência da lírica francesa – Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine – é indissociável de sua formação, mas não o define por completo; em sua escrita, há também algo de viridante que flui de Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Antero de Quental, Fernando Pessoa (...)”, discorre Aluízio.

 

Mais adiante há estudos que consideram em Nauro uma mágica intelectual impressionante fazendo com que o soneto, forma clássica que muitos consideravam exaurida, encontrasse algo de renovador. Seu domínio técnico não era mero exercício de estilo, mas instrumento para sustentar imagens de contundência lírica e intensidade dramática.

Como observou o crítico Fritz Teixeira de Salles, “Nauro Machado exprime a seiva linguística que o Maranhão fabrica para o Brasil, continuando a tradição impressionante de Sousândrade e trabalhando o moderno com o instrumento do clássico”. Ao revigorar o soneto, Nauro Machado – mesmo preservando a sua estrutura – quebrou paradigmas e o fez vibrar com novos significados, capazes de acolher tanto a música interna dos versos quanto a violência das imagens que evocava. 

Na maioria dos livros pesquisados para tornar este texto viável, sempre ficou claro entre os autores e resenhistas do poeta de 90 anos – se vivo fosse - a busca pelo “poema”, como se ele também buscasse pelo próprio sentido da existência.

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“Não busco o poema: busco o abismo. E nele encontro o poema”, escreveu, sintetizando o ethos de uma produção que oscila entre o rigor intelectual e a vertigem metafísica.

 A morte, o tempo, o corpo e o sentido último da vida atravessam seus livros como obsessões inevitáveis, mas nunca repetitivas, pois cada abordagem revela novas camadas de percepção e linguagem. “Sua poesia é, ao mesmo tempo, uma meditação e um combate”, como escreveu Ricardo Leão.

 

Embora reverenciado por críticos e estudiosos, Nauro Machado permaneceu distante das vitrines mais imediatas da cultura de massas, o que não diminuiu o alcance de sua obra. Ao contrário, tal condição parece preservar o frescor de uma voz que se mantém íntegra frente às efemeridades.

Vale aqui, igualmente citar Ronaldo Costa Fernandes: “Nauro Machado é o épico do ser, a grandiosidade da dor última, só comparado ao gênio da língua Jorge de Lima com seu Invenção de Orfeu. A dilaceração do eu, a viagem odisseica pelo interior atormentado - não consigo entender a poesia a não ser como expressão do desconcerto do mundo ou desassossego de espírito. E Nauro é o mestre dessa arte maldita. Acrescente-se este exílio - insular e poético de Nauro - que o faz mais singular, sofrido e personalíssimo”.

Destarte, sua poesia, de essência atemporal, sempre vai conversar com o presente, sem perder a densidade que lhe é própria. “Ler Nauro é confrontar-se com uma linguagem que, em vez de oferecer respostas fáceis, amplia o horizonte das perguntas”, igualmente escreve Ricardo Leão*.

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Agora, com Um Iceberg para Praia Grande, São Luís recebe de volta um filho que nunca a abandonou. Nesta obra final, ele reafirma a fusão entre geografia e memória, entre a materialidade das ruas e o imaginário que delas brota. É a confirmação de que Nauro Machado não escreveu apenas sobre o mundo: escreveu contra o esquecimento, inscrevendo sua voz na tradição da poesia de língua portuguesa como elo indispensável entre o clássico e o contemporâneo, entre a herança recebida e o abismo que ainda nos desafia.

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Durante a festa de lançamento de “Um iceberg para a Praia Grande(**), vale destacar que a esposa Arlete Nogueira Machado considerou esse último livro do poeta Nauro Machado como “uma despedida, dentre os seis livros inéditos e eu fiz. É um livro de quase 5000 versos, marcados pelos temas dele, inclusive de morte. Ou algo parecido. Parece que com esse livro, ele despediu da vida”.  

O presidente da Academia Maranhense de Letras, Desembargador Lourival Serejo se manifestou na ocasião do lançamento do último livro da cepa de Nauro e disse: “(...) depois de tantos anos do seu falecimento, lançar um livro com o que ele deixou produzido em vida, é a prova de que quem produz poesia literária nunca morre, são imortais e nós estamos aqui consagrando isso porque ele ainda vive e se manifesta por essa poesia de seu 'Um Iceberg na Praia Grande'. Isso é realmente um trabalho de obstinação da sua esposa, que se dedica muito afinco, para manter viva essa memória que merece todo esse reconhecimento, não só no Maranhão como em todo o Brasil".

O acadêmico da AML e da Academia Poética Brasileira, poeta, professor e escritor José Neres afirmou que “(...) o livro de poesia de Nauro Machado é uma prova de que o homem estava completo. O poeta, não! Como ele mesmo disse; mesmo após uma década após a morte de Machado, nós ainda colhemos os frutos de sua poesia e a sua poesia, como todos nós sabemos, não se limita somente aos livros. A própria vida de Nauro Machado foi um exemplo de poesia, um exemplo de ser humano, exemplo de poeta. E agora nós chegamos ao último livro deixado por ele, o que para nós é sempre uma honra poder ler (...)”.  

Outro imortal e amigo da APB, advogado Daniel Blume, asseverou: “(...) o poeta Nauro Machado é considerado um dos grandes escritores de sua geração. O lançamento de 'Um iceberg para a Praia Grande', que é um poema de quase 200 páginas, é único e traz a alma desse poeta nas letras, mostrando que a verdadeira imortalidade está na literatura que fica. O poeta da filosofia, Machado, que hoje ressuscita através da literatura.  Já o professor Dino Cavalcante (colaborador emérito da Plataforma Nacional do Facetubes), assegura que “o livro Um iceberg para a Praia Grande, do escritor Nauro Machado é de sua importância para que a gente possa refletir sobre esse grande Homem que foi o poeta Nauro Machado, o homem que fez da palavra a sua trilha literária, o homem que construiu o Maranhão voltado para a nossa literatura maranhense, que é uma referência não só no Maranhão, mas para o Brasil e para muitos estudiosos do mundo. Então, estar aqui hoje neste lançamento do Livro do Machado é uma honra para todos nós que estudamos a literatura maranhense”.

Ivan Pessoa, amigo de Nauro Machado, disse, na ocasião: “Sempre que Nauro vem à minha memória sempre vem de maneira muito pontual, de maneira muito especial, porque, na minha opinião, existiam dois Nauros. Um, essa figura pública, esse poeta de relevância inestimável para a nossa cultura e para a nossa literatura. O outro Mauro, que frequentemente mantinha certos diálogos comigo por telefone e quase sempre eram conversas que complementavam muito do que ele produzia, mostrava suas angustias íntimas. Lembro que certa vez ele me ligou e numa das ocasiões ele se valeu de uma expressão que nunca mais esqueci: “Sou consumido por horrores místicos”. Essa foi a expressão que ele utilizou”.

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Fontes: https://www.ma.gov.br/ *”Tradição e Ruptura:a Lírica Moderna de Nauro Machado”/Ricardo Leão (Funbcma)./ O Imparcial./ Portal de Periódicos./ TV Mirante/ AML.

(**) A Praia Grande representa um dos mais pulsantes símbolos da poesia e das artes no Brasil, pois ali a cidade respira cultura em suas ruas de pedra, casarões coloniais e azulejos seculares, que ecoam memórias de séculos de encontros entre Europa, África e América. Espaço onde o tempo parece suspenso. Assim, a "Praia Grande" é ao mesmo tempo palco e inspiração: seus becos guardam os passos  de Nauro Machado, enquanto suas feiras, rodas de tambor de crioula, artesanato e música popular revelam a essência viva de um patrimônio que não se limita à arquitetura, mas se prolonga no imaginário artístico e literário, transformando-se em fonte inesgotável de criação cultural.

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Silvânia TamerHá 1 mês São LuísMaravilha de texto. Nauro Machado deixou um grande legado na literatura maranhense.
Elisa LagoHá 1 mês São LuísNauro Machado tem sua obra eternizada pela irreverência do ser poeta. Obrigada por nos trazer no artigo, a grandeza daquilo que ele deixou jorrar no papel com maestria.
Joizacawpy Muniz CostaHá 1 mês São luís Obrigada pelo texto. Sem dúvidas Nauro Machado não foi um poeta raso, ele sempre mergulhou na profundidade do que a poesia pede. Trazer São Luís de forma não meramente metafórica, mas misturando simbologia com realidade é fantástico e isso ele sabia fazer com excelência.
Socorro Guterres Há 7 meses Natal/ RNO livro póstumo "Um Iceberg para a Praia Grande" mostra a permanência poética de Nauro Machado na cena literária maranhense. Excelente e justa homenagem trazida pela Plataforma Facetubes ao imortal escritor.
JaimeHá 7 meses BSB/DFParabéns Presidente ML, que texto de Muita erudição. Aplausos de Pé!!! * Retratar o escritor Nauro Machado, são pouquíssimos, que se habilitam. Pela profundidade de seus escritos. Mas o senhor, vem fazendo com maestria e competência, mostrando a sua grande intelectualidade.
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