
O PAPEL DA BORBOLETA
NA “BORBOLETA DE PAPEL”
Wanda Cunha*
Borboletas me convidaram a elas. O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.(..)Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens. Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens. Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas. Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta. Ali até o meu fascínio era azul. Barros (2000, p.59).
“Borboleta de Papel” é o segundo livro da escritora Maria José Lima e que concede à sua autora “O privilégio insetal de ser uma borboleta”. Do ponto de vista editorial, um título atraente e sugestivo é importante para a aceitação da obra junto ao público; é sua porta de entrada, sala de visita. E “Borboleta de Papel” preenche esse requisito, pois sendo a borboleta uma metáfora que se encontra em todo o plano lírico desta obra poética, não há como fugir da analogia entre os versos aqui lapidados e os voos da borboleta-escritora, cujo papel é escrever.
Manoel de Barros, em um único verso, sintetizou sua metapoesia de forma simples, objetiva e bela: “Poesia é voar fora da asa” (BARROS, 2010, p. 302). Em “Borboleta de Papel”, Maria José Lima “voa fora da asa”, exteriorizando sua poesia dentro de recursos metalinguísticos com os quais alcança um fazer poético que traz em si toda a metaforização da borboleta, com carga sentimental indelével, enumerando as características daquilo que a borboleta sinonimiza, ou seja, transformação, cores, liberdade criadora e espiritualidade, ao transitar em seus diferentes ciclos: o ovo, a lagarta, a crisálida e a borboleta propriamente dita.
O primeiro poema, que dá título ao livro, já evidencia a característica marcante da poetisa nessa sua segunda safra de poesia: a transformação. Por meio de uma metapoesia, ela já demonstra a sua evolução poética e a importância de sua poesia contemplativa diante da vida.
Minha poesia nasce da contemplação
A poesia não se prende
Não se dobra ao tempo
Ela se transforma, segue o vento
Como borboletas de papel
O papel da borboleta também é colorir a natureza com sua beleza. Sob a luz de sua sensibilidade artística, Maria José Lima dá cor à Poesia criando significados simbólicos, a exemplo de “Cores da poesia”, cujos versos conseguem pincelar suas emoções ao decifrar o mundo como se dele a Poesia fosse tecelã:
A poesia tece o mundo
Em sua imensidão
O cinza da saudade
O vermelho da paixão
O verde da esperança
“Metamorfose” é um texto no qual a poetisa relata a dor das transformações à luz de sua maturidade criativa. Ela registra o percurso que leva a água doce a se encontrar com a água salgada, em meio a um ciclo que se mantém, da mesma forma que a borboleta em suas etapas de evolução, pois na condição de lagarta já nascera pra voar e se transformar. Um poema de força poética que demonstra o peso das mudanças, resgatando a Teoria do Devir e reiterando o que dizia Heráclito de Éfeso: “Nada é permanece, exceto a mudança”. E é assim que a poetisa se debruça sobre o que ela denominou de “a dor da transformação”.
A semente dorme antes de florir
O rio percorre longos caminhos
Antes de encontrar o mar.
O que é a dor, senão transformação?
A lagarta se fecha
Aprisionada em si mesma
Sem saber que dentro dela
Mora o voo que ainda não veio.
Grande parte deste livro de Maria José Lima tem como pano de fundo a metapoesia, um recurso que consagrou muitos poetas da linhagem de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, como bem explicara o professor Antônio Miranda, ao falar sobre a “Metapoesia de João Cabral de Melo Neto”.
A Poesia é um tema constante na obra de muitos poetas. Não é da exclusividade de críticos e estudiosos. A Poesia é um ofício de vertentes e visões confluentes ou contraditórias, com posições e propostas convergentes ou conflitantes. Ao longo da história da literatura, um conjunto de poemas dessa natureza pode ser elucidativo ou, na pior das hipóteses, desconcertante. Mas sempre instigantes.(MIRANDA, 2013, s/p.)
Em “Poesia”, Maria José mistura as sensações no enlevo quase sinestésico que a consome, enquanto criadora em busca de sua criatura. Por isso, ela sente cheiro do que bebe e do que come, igual ao café torrado e moído e ao pão saído do forno. Dá-lhe corpo de mulher; dá-lhe o som suave da chuva, o sussurro do vento, das cachoeiras do cantar dos pássaros... Nesse percurso, a poesia adquire todas as sensações, num jogo de sentidos que amplia sua liberdade criadora.
A poesia tem cheiro,
Da flor que exala no jardim
Do perfume marcante na pele
Do café torrado e moído
Do pão saindo do forno
Da grama e terras molhadas
Das folhas e tinta do livro novo!
A poesia tem forma...
Palavras recorrentes na poesia de Maria Lima são “vento”, “tempo”, “mar” e “voo”. Em “Voo infinito”, a poetisa compara sua metapoesia à própria borboleta que cria asas para o alcance de novos leitores: “As palavras que nasceram aqui/Não se fecham entre estas páginas/Ela seguem, leves/Como borboletas ao vento/Procurado novos olhares/Novos corações onde pousar...” Para a poetisa, o vento é um parceiro poético que permite que a poesia se eleve enquanto voa, enquanto poliniza a alma do poeta, assinando em seu balanço a coautoria dos versos.
O tempo e o vento se misturam em “Indagações”: “que é o tempo, senão um vento/Que sopra e passa sem se deter?”. Em “Refúgio”, ela verseja: “O sol beija a terra/num doce encontro/O vento sussurra segredos à noite.” “Ser é sentir o vento atravessar a pele/e não perguntar de onde veio”. Em “Amor não correspondido”, ela diz: “Te vi chegar como quem traz o vento/Leve, despretensioso, sem notar o estrago”. Em “Misterioso mar”, “o mar, profundo misterioso/Guarda em suas águas segredos antigos/onde o vento dança e o tempo se perde”. Em “Espelho distorcido”, usa novamente a comparação para dar contiguidade às palavras e ao vento: “Corações em labirintos/Falsas promessas/Palavras deslizam/Leves como o vento.” Em “Encontros e Desencontros”, “Há mãos que quase se tocam/Vozes que se misturam no vento”.
Pode-se dizer que Maria José Lima vê a poesia como um “Ato de entrega”, ou “um voo livre num papel”. Em “Esboço”, ela conceitua: “A poesia é um pedaço de mim arrancado/é um grito que nunca emiti...” Quando se trata da “Essência da Poesia”, ela escreve: “Na vastidão do silêncio, reverbera a voz poética, sereno embate de tempestades internas, a verdade disfarçada de ilusão provisória... labirintos de encontros...A poesia repousa no divã do poeta”. Esses conceitos demonstram a busca incessante do ser humano em toda sua essência. Quando “a poesia repousa no divã do poeta”, a ideia remete à Psiquê. É a poesia com efeitos analíticos que se manifesta tentando amenizar os conflitos internos do eu poético, como uma forma terapêutica de solucionar seus problemas e entender seu inconsciente e angústias.
A poesia social de Maria José Lima, encontramo-la em “Crianças de Gaza”, quando ela escreve: “Elas choram sob um céu de fumaça/onde o sol mal toca o chão queimado/Pequenos pés descalços correm/entre escombros que já foram casa/que já guardaram risos e histórias...”. Também em “Silêncio Rasgado”, a poetisa denuncia o feminicídio, em seu apelo: “O amor não mata/ Não fere, não sufoca/ O amor não é posse/ Não tem dono/ Não sangra em calçadas escuras./ Mas ainda há vozes/Ainda há mãos que se erguem/Ainda há mulheres Que transformam dor em luta...”
No tocante a esta obra “Borboleta de Papel” em que a autora incorpora tão bem o Papel da Borboleta em sua poesia, lembrei-me de uma lenda atribuída ao filósofo chinês Chuang Tzu. Versa a lenda que ele sonhara ser uma borboleta, quando acordou, ele estava tão consciente da felicidade de ser borboleta que ele não sabia se era então um homem sonhando que era uma borboleta ou se era uma borboleta, sonhando ser um homem. O livro de Maria José Lima, com o sentido de alegoria, conquistou a mesma indagação de Chuang Tzu: será que sua Metapoesia é uma Borboleta que sonha ser Poesia ou será uma Poesia que sonha ser Borboleta? .
* Escritora, jornalista, professora, presidente da Academia Maranhense de Trovas.
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REFERENCIA
BARROS, Manoel. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010
Manoel de. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Record, 2000.
MIRANDA, Antonio. Metapoesia de João Cabral de Melo Neto. Natal, RN Sol Negro Edições, 2013. 91 p.
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