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Especial Edmilson Sanches: "Por que o Maranhão abandona seu maior patrimônio?"

CULTURA MARANHENSE, ECONOMIA E GOVERNO.

11/11/2020 17h52 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
Edmilson Sanches
Edmilson Sanches

NE: Com imensa satisfação a plataforma FACETUBES (sem fins lucrativos), tem a honra de publicar mais um texto do imortal, jornalista, escritor, poeta e editor Edmilson Sanches, sob sua autorização, a quem, antecipadamente agradecemos.

 

Por que o Maranhão abandona seu maior patrimônio?

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CULTURA MARANHENSE, ECONOMIA E GOVERNO

 

 

EDMILSON SANCHES

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Mesmo sendo grande, histórica, plural e, ao mesmo tempo, singular, por que a Cultura Maranhense é tão pouco conhecida pelo Brasil e tão mal “explorada” dentro de nosso próprio Estado?

Cultura, como produção, continua sendo essa “coisa” diferenciada, que tem a ver com o senso estético, com a Arte, com a inspiração, com os valores intelectuais, com os modos de ser, fazer e proceder. Mas Cultura, como consumo, deveria ser encarada e “trabalhada” mais e melhor como item de alto valor econômico agregado.

O Maranhão tem de deixar esse jeito “coitadinho” enquanto território de alto valor histórico e cultural. Temos, podemos e devemos “aparecer”, estar presentes nos diversos cantos, recantos e encantos das demais unidades federativas do Brasil e em outros lugares do mundo.

A área de Cultura em uma estrutura de Governo não deve se comportar apenas como uma unidade de despesas, um órgão gerador de custos, mas, sim, também um centro de receitas -- além, claro, de ser indutor, estimulador, catalisador de processos, produtos e serviços culturais, que proporcionem ganhos de imagem, de reforço de identidade... e ganhos financeiros igualmente.

Parece que tentam demonizar a relação “dinheiro—Cultura”. Temos de substituir o “X” pelo “+” ou até pelo “ = ”: não “Cultura X dinheiro”, mas “Cultura MAIS dinheiro”; “Cultura IGUAL (por que não?) a dinheiro”. Que mal há em nossos artistas, em nossos produtores culturais serem reconhecidos também com papel-moeda? (Vale lembrar uma frase atribuída ao bem-humorado Mário Quintana: "Obrigado pelos elogios, mas me dê minha parte em dinheiro"). 

Artista não é só romantismo, inspiração, estética, sensibilidade. É também contas a pagar, família a sustentar, tranquilidade a assegurar.

É necessária uma nova forma de gerir a Cultura -- sem condicionar a criação artística, claro. O município de São Paulo (SP), por exemplo, tem no segmento cultural o item de maior contribuição para a formação do PIB paulistano, de R$ 700 bilhões em 2017 (PIB, ou Produto Interno Bruto, é a soma de todos os bens -- serviços e produtos -- da economia de um município, estado ou país).

Não é só boi no pasto que pode dar lucro. O boi-bumbá também. Junto com a liberdade e qualidade de nossos produtores e agentes culturais temos de ter também visão e pulso para a contemporânea forma de gerir a Cultura, após esta ser gerada e gestada no útero, no ventre, na mente, na alma, no cérebro, em um "corpus" em qualquer “locus”.

O Maranhão é uma espécie de França do Brasil -- aliás, historicamente, já foi a França Equinocial. Pela grandeza, historicidade, pluralidade e singularidade da Cultura e História que seus filhos fizeram, era para o Maranhão SER e, se é, ESTAR mais presente como opção de consumo, seja pelo turismo histórico-cultural, seja pela Literatura, Música (inclusive clássica), Artes Plásticas, Cultura Popular, Culinária, Artesanato... Mas a grande realidade é a de que o Maranhão histórica e culturalmente grande ainda é um ilustre desconhecido da maioria senão de grande parte de sua população.

Quem olha a Bandeira do Brasil, olha para o Maranhão. (A bandeira é de autoria de um maranhense).

Quem canta o Hino Nacional, canta também o Maranhão. (Alguns versos do Hino são de autoria de maranhense e foi de um maranhense a ideia de haver uma letra para o Hino brasileiro, que antes era somente música).

Existe o Ministério da Agricultura porque, antes, existiu um maranhense responsável por sua criação.

Se um mesmo brasileiro administrou quatro Estados, esse brasileiro foi um maranhense.

Quem sabe que o Rio de Janeiro é a “Cidade Maravilhosa”, sabe-o porque um maranhense "espalhou" esse título. A ideia e luta pela construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi de um maranhense e a peça que o inaugurou, de outro maranhense.

O primeiro e maior dramaturgo negro do Brasil, laureado nacionalmente, é maranhense.

O Balé Bolshoi se sustenta até hoje como maior corpo de bailarinos do mundo, e já há anos nele também há pés maranhenses.

Se há uma poesia que é a mais conhecida de todos os brasileiros, ela é de autor maranhense.

Se há um dentista que foi considerado “Glória da Odontologia Brasileira”, autor do primeiro livro de Odontologia no Brasil, pioneiro no uso da anestesia odontológica em no nosso País, é um maranhense.

Se nas Artes Plásticas há um artista considerado “inovador” pelas mais altas mentes brasileiras, esse artista é um maranhense.

Se a França já aplaudiu um grande maestro e compositor clássico brasileiro, este era um maranhense.

Se a escravidão no Brasil teve uma Lei do Ventre Livre, é porque esta lei teve como redator um maranhense. Também, as leis de proteção à mulher trabalhadora, ao menor trabalhador, ao índio e ao doente mental, foram lutas pioneiras de um maranhense.

Se temos liberdade de crença e culto, com a separação Igreja—Estado, deve-se a um maranhense.

Se existiram grandes Escolas literárias e artísticas – Parnasianismo, Indianismo, Concretismo, Neoconcretismo, Modernismo nas Artes Plásticas --, é porque existiram grandes escritores e artistas maranhenses, pioneiros criadores ou cocriadores dessas Escolas.

Além das Artes e das Letras, o Maranhão é a terra do maior matemático da História do Brasil e um dos maiores de todo o mundo.

Até em áreas mais distintas, como a ideia de criação do primeiro banco no Brasil e a criação da primeira companhia imobiliária do País foram maranhenses.

A primeira música sertaneja gravada no Brasil, era de um maranhense. A primeira tradução de Shakespeare em Língua Portuguesa, obra de um maranhense.

Por que os maranhenses não nos louvamos mais disso tudo e muito mais?

Forças políticas e empresariais são no geral ruins com o antes e o agora, com talentos da História e com talentos atuais. Cultura e Economia não são contendores mas complementares. Ambas formam alma e corpo da Civilização.

O Presente e o Passado de História e Cultura maranhenses podem ser base para que se construa uma excepcional referência de Futuro para nosso Estado   --  com valorização de imagem e identidade, com ganhos econômicos e inclusão sociocultural.

Mas isso só acontecerá se às falas e aos feitos dos artistas maranhenses houverem ouvidos que ouvem e olhos que vejam o (muito) que há para ser visto.

Pois, por enquanto, há uma sensação geral de que nossos artistas estão, e continuam, jogando pérolas aos... povos...

...enquanto algo de suíno viceja e grunhe em cochos oficiais.

A Arte e a Cultura torcem para que, pelo menos uma vez mais na História, alguém senão santo mas pelo menos de algum de valor deixe de tanto cochinar em manjedoura e alevante o rosto para o maior dos patrimônios de um povo  --  sua Identidade Cultural.

Em essência, é ela que sobra e resiste quando tudo o mais se desmancha no ar... 

 

EDMILSON SANCHES

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(Texto da coluna "Edmilson Sanches", no jornal "O Estado do Maranhão", de São Luís, em 10/11/2014. Com revisão e ampliação.)

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