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VICEVERSA: Laura Neres Gonçalves/Mhario Lincoln/Laura Neres Gonçalves

Entrevista exclusiva. VICEVERSA do Facetubes é marca depositada da Plataforma Nacional do Facetubes.

11/03/2026 às 20h02 Atualizada em 11/03/2026 às 21h14
Por: Mhario Lincoln Fonte: ML/Laura Neres
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Uma conversa adorável com Laura Neres Gonçalves (psicóloga geriatra).
Uma conversa adorável com Laura Neres Gonçalves (psicóloga geriatra).

VICE-VERSA DO FACETUBES

Perguntas de Mhario Lincoln para LAURA NERES GONÇALVES

Mhario Lincoln (01)Eu estudo e gosto de estudar Lacan. E é dele uma das frases interessantes: “O desejo enquanto real não é da ordem da palavra e sim do ato”. Acho que é o fazer e não o falar em fazer que está a chave da realização pessoal. Concorda?

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LAURA BARROS NERES: Eu concordo! Acredito que só falar e falar o tempo todo não vai fazer o universo te dar de presente com um laço bem grande e vermelho em cima. Precisa fazer, que uma hora a realização nem bate na porta, ela já tem é a chave da casa. Também acredito que, quanto menos espalhar por aí o que quer tanto fazer, melhor. O olho gordo pode vir até do seu melhor amigo.

 MH (02)Existe (ou existiu) um projeto pessoal pensado e idealizado exclusivamente por você que, por um acaso (ou ocaso), não foi unânime entre os seus, igualmente talentosos? Qual atitude você tomou, caso tenha existido esse projeto? 

LBN: Nossa, sim! Meu sonho é que um dia todos nós possamos escrever um livro juntos. Já pensou? Um livro dividido em quatro partes e escrita de quatro maneiras diferentes por quatro pessoas da mesma família? Uau, até me arrepiei. A minha atitude é começar a minha parte e continuar animando os demais para toparem.

MH (03)Tenho notado que a relação sua com sua mãe ultrapassa os limites uterinos. Ela, literalmente, é fã. A emoção é explícita. Algo que eu defino como imensurável e belo. Essa abundância de amor e carinho acaba influenciando em sua vida profissional? 

LBN: Às vezes. Às vezes me incentiva muito e às vezes me atrapalha um pouco. Minha mãe e eu somos alma gêmeas, mas temos personalidades diferentes. Ela é muito extravagante e eu sou mega tímida. Ela me incentiva muito artisticamente e talvez ela nem saiba disso.  As coisas que faz, a coragem que tem de dar cara a tapa e performar, é impressionante. Mas as vezes eu preciso entrar no palco e ela me deixa mega nervosa e isso me atrapalha bastante.

MH (04)Na maioria das vezes pessoas mais jovens estreiam com livros de poesia. “Pétalas de Sangue”, não é poesia, mas texto romanceado, ou seja, praticamente o último degrau de uma promissora carreira de escritores. Isso me lembrou também Raquel de Queirós que, aos 19 anos, ficou nacionalmente conhecida ao publicar “O Quinze” (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. Pergunto: o que levou você a estrear com esse gênero forte?

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LBN: Essa é uma pergunta muito engraçada e fez-me relembrar de uma pérola do período que lancei o livro. Eu só tinha 15 anos, então o que eu amava ler (e amo até hoje rs) eram livros de suspense, então pensei, por que não escrever minha própria história? Quando eu lancei, convidei a maioria das pessoas da minha escola e só o meu professor de física apareceu. No dia seguinte, a diretora da escola reuniu o ensino médio inteiro para falar com os alunos e pegou o gancho para falar sobre o lançamento do livro, me parabenizar e etc. Ela encheu a boca me elogiando como aluna e soltou que amou ler o livro e todos os poemas que eu escrevi e em seguida soltou a frase: “Por favor, recite uma poesia do seu livro”. Eu, educadamente segurando o riso, falei que meu livro não tinha poesia e era um romance. Isso é hilário para mim até hoje. Mas enfim, não sinto que tenho o dom de escrever poesias como meus pais, com certeza seria um desastre e prefiro deixar com quem sabe muito bem rs.

Dra. Laura Neres Gonçalves.

MH (05)No Teatro, sua outra paixão, você atuou em “O Mágico de Oz”, interpretando Dorothy e “O Mulato” no papel de Ana, entre outras peças. Na minha modesta opinião, dois extremos, enquanto personagens ficcionais. O que de bom você pode ter tirado dos dois textos tão diferentes para inflamar sua veia de escritora e roteirista? 

LBN: ‘O Mágico de Oz’ foi a minha introdução no teatro, lá eu aprendi tanta coisa e uma delas, pasme, foi lidar com crianças. Esse texto é “meu texto” favorito, foi um dos primeiros livros que eu considero mais maduros que o meu pai me deu de presente e até hoje eu o tenho. Em ‘O Mulato,’ interpretar Ana, foi super fácil, o processo que foi difícil, tive que pegar o texto e as marcações que ele exigia em um tempo recorde. Fora que foi meu primeiro texto adulto. Querido leitor, por favor, leia os parênteses como se fosse um sussurro (e eu dei minha primeira bitoca cênica rs). Mas, ambos os textos foram importantíssimos e desafiadores, pois nas duas peças eu tive o mesmo tempo de preparação e memorização, 3 a 4 dias. Os dois foram importantes para que eu pudesse criar as minhas próprias adaptações, com eles aprendi que eu precisava fazer um texto que TODO MUNDO entendia e que não ficasse chato pra ninguém.  Foi o caso da minha primeira adaptação para o teatro com de ‘Memórias de Um Sargento de Milícias’, que eu botei todo mundo pra chupar uma laranja durante os 20 minutos de espetáculo.

 

MH (06)No seu livro “Mulheres”, há quem acredite que cada conto é uma ‘mulher’ que você descreve e cada uma delas pode ser algo que você mesma já presenciou ou algo que você sentiu de forma mais profunda ao observar a convivência humana? Essa é a chave para se entender o livro que tem a marca viva de um beijo na capa? 

LBN: Nesse livro, eu pensei bem diferente do Pétalas, eu queria que as mulheres se vissem na minha escrita, então, através de amigas e até de notícias no jornal, eu fui catando histórias. Na época, eu acompanhava a história de uma moça que estudou na mesma escola que eu, mais velha e que passou por um relacionamento abusivo e eu lia os textos que ela escrevia e ficava imaginando os horrores daquela relação, até que um dia, eu tomei coragem e conversei com ela e falei que eu queria escrever um livro e ter a história dela pra mim e dai surgiu Mulheres. E o batom vermelho é que eu amo batom vermelho, nenhum motivo grandioso demais.

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 MH (07)Como uma pessoa jovem como é você, inteligentemente nata, consegue descrever o mundo em que você está embutida. Não com olhos da escritora, da filha ou da artista. Mas de forma orgânica, pessoal e intransferível? Dá para elaborar uma teoria do bem, em meio a tantas coisas que vêm acontecendo ao nosso redor? 

LBN: De forma humana, eu tenho perdido a fé na humanidade com os horrores que tenho assistido. Mas, na arte da elaboração de uma teoria do bem, eu tenho doutorado. Evito o máximo de coisas ruins que eu puder e vejo o máximo de lados bons de absolutamente tudo, chega a ser chato, juro. Sempre que acontece alguma coisa que parece não ter saída, é automático, eu vejo um lado bom e fico mega feliz e até faço piadas com a situação (menos quando realmente é muito pesado, aí eu prefiro guardar a piada pra mim). Eu sinto que se eu não fizer isso, eu vou acabar enlouquecendo um dia. Daí é só aparecer o Coringa, pois a nova Arlequina estaria pronta.

 MH (08)Muito intenso, legal e cheio de humor “Nordestina”:

"Eita menina da fala engraçada. / - E a risada, já escutou? É alta, escandalosa. / - De onde será que vem? Ah, do Nordeste. Por isso que é desse jeito”. /

Agora a pergunta: ainda existe no Brasil algum preconceito que ligue a alma nordestina à nossa imensa felicidade de viver? 

LBN: Existe e muito. Eu fico me perguntando se esse preconceito parte da inveja do povo pelo Nordeste ter praia, ter sol, ter calor o ano inteiro, será? Acho que não, deve ser coisa da minha cabeça. Falando bem sério agora, é muito triste ver uma pessoa sofrendo preconceito por ser nordestino. O Nordeste é tão gostoso, tem uma comida maravilhosa, pessoas mega acolhedoras, paisagens de tirar o fôlego.  

MH (09)Há 32 anos, faço parte de um grupo que tem ajudado muitos jovens que se envolveram com drogas, álcool e tristeza absoluta. Quero lhe pedir uma ajuda agora: como agir com pessoas que são tão frágeis, mesmo com tão pouca idade? Você deve ter escrito algo ou trabalho em algum momento, nessa situação, ajudando a terceiros? 

LBN: Amei saber que você também dedica um pouco do seu tempo para ajudar!!! As únicas que posso falar é: Tenha paciência e empatia. Essas pessoas passam por momentos extremamente difíceis e com certeza o julgamento dos seus familiares e de outros já é puxado. Ninguém gosta de ouvir o tempo inteiro que está no fundo do poço, eles já sabem disso. Tudo o que nós podemos fazer é oferecer um pouco dos nossos ouvidos pra ouvir a queixa daquele sujeito que se encontra nessas situações, as drogas levam à depressão e a depressão leva às drogas, é um ciclo vicioso, a única saída é alguém que puxe ele/a e não abandone depois. O grande problema da humanidade é ter zero empatia com o desconhecido. 

MH (10) – Tenho-lhe admiração e respeito pelo trabalho e talento que representa e tem. Mas há uma boa parcela também de jovens talentosos que precisam alcançar seus lugares ao sol. Então, tem alguma mágica para chegar ao sucesso? 

LBN: Se tem uma mágica para chegar no sucesso, ainda não tomei, pois contínuo uma mera mortal desconhecida rs. As pessoas fazem seu próprio sucesso, mas sem uma persistência, sem luta e muito suor, não se chega a lugar nenhum, a não ser que tenha alguém passando a perna nos outros por aí, assim é fácil demais. Mas, eu acredito que o sucesso das pessoas está todo escrito letra por letra em um caderninho.

 

 

VICE VERSA: perguntas de Laura Neres Gonçalves para Mhario Lincoln

 LAURA BARROS NERES - Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos, podemos estender esse conceito para a revolução tecnológica. Como você vê esses conflitos causados por esse distanciamento que tem o uso indiscriminado do celular, como um dos principais fatores de afastamento entre pessoas que às vezes estão no mesmo ambiente?

Mhario Lincoln: Antes de qualquer coisa, Bauman foi um dos caras que conseguiu ligar, pela primeira vez, na minha opinião, de forma moderna e consciente, o indivíduo, a sociedade e a história. Mas a sua ideia de impingir a revolução tecnológica à liquidez e à segmentação histórica do passado, ainda me traz muitas dúvidas. Porém, quanto à questão de afastar as pessoas, é necessário atentar um pouco mais, para não generalizar. Indo por partes: (1) - Nesta pandemia, foi o uso da tecnologia que agregou parentes e amigos de forma extraordinária. Pessoas que não se viam há tempos, através da ligação de vídeo, puderam se reencontrar e reavivar a amizade, na mesma cidade, estado ou de outro continente. Há quem garanta que se não fosse o celular, teria afundado em depressão. A tecnologia vai além da relação genética. (2) – É exatamente a tecnologia a facilitadora dessa reunião virtual entre pessoas e pensamentos. (3) - A tecnologia tem ajudado inúmeras pessoas tímidas, fazendo-as romper barreiras psicológicas e descaminhar pensamentos de solidão e suicídio. Há muitos grupos de whats exatamente para você falar sobre isso. Que maravilha! (4) – E por fim, vale reproduzir uma pesquisa elaborada pela “Pew Internet and American Life Project”  onde os resultados mostram que a tecnologia não afasta a pessoa do contato social direto com os outros: quem usa celulares possui uma rede de discussão 12% maior do que quem não os usa, compartilha fotos online e troca mensagens de texto via celular 9% a mais. Outra coisa muito importante: há grupos de WhatsApp de (auto-ajuda para suicidas especialmente) que atenderam nos últimos dois anos, mais de 1 milhão de pessoas, resultando no salvamento de milhares deles. Em outro aspecto, a variedade de pessoas nos grupos de quem usa celular é 25% maior.

LN (02) - Em sua crônica recente "Ó, minha cidade, deixa-me viver...", você faz um passeio cultural por nossa São Luís. Como você sente sua cidade vivendo tão longe dela há tanto tempo?

ML: Tenho muitas saudades. É engraçado como vez por outra meu olfato me prega a surpresa de sentir o cheiro ocre da avenida Beira-Mar. Ou me traz a sensação de maresia banhando meus pés. Meu tato me traz recordações dos poucos azulejos em relevo nas faixadas de alguns dos 5600 imóveis tombados, (alguns deles já não existem mais), todos, oriundos de um imenso conjunto arquitetônico e urbanístico dos séculos XVIII, XIX e XX. Ainda tenho em minha retina, bem gravado, o por do sol vendo-o da ponte do São Francisco. Meus ouvidos, vez por outra, me trazem a risada moleca de Erasmo Dias, quando trafego pela Rua Riachuelo, no centro de Curitiba. A sonoridade do Hino de São Luís, de Tribuzi. Imagina, só: qualquer alimento que contenha ‘coentro’, meu paladar confunde de imediato com as tortas deliciosas de caranguejos da ‘Base da Lenoca’ (onde é hoje a praça dos Poetas). E mais: bastou mastigar algo mais amarelinho para lembrar da farinha d’água, imprescindível em todos os meus pratos maranhenses. Como se vê, minha lembrança é extremamente orgânica. Não posso fugir disso. São mais de 20 anos de saudades.

LN (03) - Desde pequena, eu observava meu pai escrever, criar, fazer e refazer várias vezes o jornal virtual dele, era uma graça! Lendo os textos dele, percebe-se que eram feitos com muita dedicação. Você não difere nem um pouco, então eu gostaria de saber: para você, como é criar um ambiente onde você se expõe?

ML: Excelente pergunta! Isso me lembrou um alguém, que, em uma de minhas palestras, perguntou se a minha escrita era ‘muda e escondida para que eu não me expusesse’. Vou responder (mais ou menos) o que improvisei à época: (1) - Na minha modesta opinião, todos os meus textos (até aqueles compostos por uma ou duas palavras e um ponto final), são gritos bem íntimos. E por que isso?  (2) – Porque quando escrevo, não crio expectativas para mim. Não o destruo tentando aperfeiçoá-lo para tornar-se uma obra de arte. Nunca penso em me superar ou superar algo anterior.  (3) – Escrevo... escrevo. Claro que fico atento às normas cultas etc. Mas nunca me prendo à métodos de perfeição. Desta forma, deixo meu texto livre para interpretações mais dignificantes – a do leitor. (4) – É ele quem decide se vai chorar, rir, condenar ou nem ler até o fim. Isso me traz alívio se, por um acaso, o leitor se desiludir com meu texto. (5) – Ao fim, quando tornado público – a meu ver numa exposição saudável e por isso sem me preocupar em me expor às críticas positivas ou negativas - muitas interpretações imprevisíveis acontecem. Essas, muitas das vezes superam até mesmo a minha própria imaginação. (6) – Quanto maior o número de críticas, mais o meu texto fica original. Vale também para o contexto de minhas atividades pessoais e intransferíveis.

LN (04) - Confesso que algumas vezes, me veio a mente seguir o caminho da psicanálise e com isso, ficar em uma grande dúvida entre Lacan e Freud. Quando você mencionou uma frase de Lacan, me lembrei de uma outra “Toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno de um vazio.” Você vê sentido nessa frase? Se sim, qual é sua opinião a respeito da mesma?

ML: Tenho uma certa maneira de enxergar essa frase. Isso porque, ao tecer essa possível articulação entre a arte e o contexto da psicanálise, acabo sendo levado a entender se há na verdade, algo perceptível entre o ‘real’ e o ‘simbólico’. Mas, óbvio, que tal pensamento não é o fim do Mundo, pois há quem acredite de pés juntos nessa correlação que, de certa forma, me faz pensar e aprofundar meus estudos tanto em um, quanto no outro (o que irei fazer incitado por esta ótima questão). Porém, mesmo que existam pontos comuns, continuo acreditando não haver continuidade entre eles, pois são ângulos disjuntos. Por exemplo, Freud trabalha isso como se fosse ‘pulsional’. Já Lacan trabalha o mesmo tema de forma ‘real’. Por outro lado, estudiosos ao analisarem essa relação, costumam exemplificá-la com o termo ‘tyquê’, isto é, quando o brilho das imagens nos ludibria muito mais, do que nos leva ao objeto real. Destarte, ainda não consegui ver perfeitamente na obra de Freud ou no ensino de Lacan alguma coisa que me desse a certeza da existência de uma conceituação de arte, mesmo que ambos a tenham usado para praticiar (práxis psicanalítica) muitos dos nossos paradoxos. Ao final, vale ressaltar a clareza do objetivo lacaniano nesse contexto, quando acaba inserindo o teatro num conjunto de práticas simbólicas e, ainda, numa busca constante de uma dimensão onde se possa juntar ao simbólico, o real. Enfim, mesmo ainda com algumas perguntas no ar, acho válido essa busca e esse relacionamento, enquanto estudos teóricos.

LN (05) - Você é um maranhense que mora em Curitiba. Cidades com mais do que o clima de diferença. Sentiu diferença cultural de uma cidade para a outra?

ML: Senti sim. São cidades culturalmente ‘disjuntas’, usando o mesmo termo da resposta anterior a esta. Porém, há um fator que interliga tudo isso: a diversidade. Quão bela é a diversidade! Por isso, Curitiba deixou de ser ‘exclusiva’ de curitibanos. Quando aqui cheguei pela primeira vez, na década de 80 (para conhecer a família de minha esposa) ainda se encontrava nas ruas o ‘Oil Man’, um ‘curitiboca’ conhecido por andar de bicicleta somente de ‘sunga’ besuntado de óleo, nos períodos de maior frio. E mais: Personalidades paranaenses como a vendedora de bilhetes alcunhada de ‘Borboleta 13’, a artista plástica Efigênia ‘Rainha do Papel de Bala’. O músico ‘Plá’ e o maratonista Paulo Cezar dos Santos Rodrigues. Hoje há uma autêntica nordestinidade passeando na feirinha do Largo da Ordem ou na Feira do Poeta ou nas cercanias da ‘Avenida Mateus Leme’, em dia de festas. Para se ter uma ideia, até pouco tempo existia uma Associação de Maranhenses por aqui. Muitos dos integrantes originais já faleceram e os filhos não deram continuidade. Em determinada época o número chegou a quase 2 mil pessoas, só em Curitiba-PR. Hoje, sinto-me perfeitamente adaptado ao vento, à chuva, ao ‘status quo’ dos paranaenses, sem prejuízo de minhas origens.

 

– “Enfoderando-se

(..) “Se a liberdade causar aflição

Se o amor morrer do coração

Foda-se quem queira!” (...)”.

LN (06) -Nesse poema, você literalmente pede que as pessoas se "fodam" e, fala bem rapidamente sobre liberdade. Para você, a liberdade causa aflição? Você já mandou alguém se "foder" por querer censurar sua fala/escrita?

Mhario Lincoln.

ML: Muito interessante. Poucas pessoas que leram o meu livro A BULA DOS SETE PECADOS, atentaram para esse pormenor. Obrigado por me dar oportunidade de conversar sobre esse pequeno poema. Na verdade, eu li uma conceituação muito interessante que me deu o ‘start’ de escrevê-lo. Dizia que o fato de ‘enfoderar-se’, significava ter um compromisso pessoal de buscar diariamente a própria autenticidade, num ambiente cheio de opiniões e de ‘conselhos’ abruptos direcionados ao modo de viver de cada um. Então, “(...) se o amor morrer do coração / Foda-se quem queira!”. Isto é, a liberdade de, pelo menos, viver à maneira de cada um. (Até mesmo sem amar ninguém). Mesmo conhecendo a máxima de Gustave Flaubert, escritor francês, autor do clássico ‘Madame Bovary’, afirmando em um de seus romances, que ‘poesia não se explica’, acredito que cada leitor interfere diretamente na interpretação de cada peça artística. Por isso, a minha liberdade pode ser diferente da liberdade de quem lê. A minha reação pertinente a um crítico voraz pode ser diferente. Mesmo porque, o ato de construção da poesia também passa pelo “tyquê” ou da práxis psicanalítica, onde o brilho pode iludir o leitor. Quanto à minha reação de mandar para as ‘cucuias’ as opiniões contrárias à minha, todos os humanos fazem isso, quiçá diariamente. (Risos).  Assim eu penso!

LN (07) - De filha de estrelas para outro filho de estrelas. Você, em algum momento da sua vida, foi pressionado a ser um exemplo, por ser filho da Flor de Lys?

ML: Não! Pelo contrário. À princípio, dentro da Faculdade de Direito, os professores tinham um olhar diferenciado em minhas notas e em minhas ações acadêmicas, em razão de ser filho do dr. José Santos, conceituado advogado do Maranhão. A minha vida sempre foi perseguida por essa conotação até eu lançar dois livros de Direito Administrativo (década de 80) e ingressar na Academia Maranhense de Letras Jurídicas, onde sou membro-fundador. A partir daí e após a morte prematura de meu pai, passei a me dedicar ao que realmente a mim, me interessava: o jornalismo. Cursei a Faculdade de Comunicação Social até ser definitivamente profissionalizado, pois antes mesmo dos bancos acadêmicos, já exercia a profissão de jornalista, trabalhando no glorioso “Jornal Pequeno”, minha grande e verdadeira escola. A partir daí eu e minha mãe Flor de Lys construímos uma grande história no Maranhão. E quando alguém diz: "... lá vem o filho da Flor de Lys", que orgulho me dá! Por que, tenho certeza que acontece o mesmo com você, filha que é de Linda Barros (atris, escritora e poeta) e José Neres (AML, escritor e poeta) e irmão de Gabriel Neres (jornalista e escritor). Há um orgulho muito grande de pertencimento, sem dúvida. Agora, quando certas pessoas começam a comparar a qualidade dos trabalhos de cada um, e tentar introduzir uma isquemia de "competição", pra mim, a partir daí, passa a ser desaforo indiscordável.

LN (08) - O que você mais sente falta de quando você começou a trabalhar com jornalismo e o que você, hoje, pensa que poderia ter sido incrível quando começou?

ML: Acho que tudo tem seu tempo. Na verdade, o jornalismo foi uma grande escola, pois passei pelos três estágios da ‘modernidade da imprensa brasileira’: linotipo, offset e impressão digital. Até quando escrevi minha última coluna diária no jornal impresso, nos anos 2000, já usava o computador para enviar meus trabalhos diretamente por e-mail, sem mais ter que ir até o matutino. Contudo, essa necessidade da ‘prática moderna’, não me fez esquecer dos bons tempos de outrora. Queimei meus dedos várias vezes com o chumbo derretido, usado pelas máquinas de linotipo. Uma dificuldade imensa para diagramar e corrigir o que seria impresso. Alguns amigos saudosistas me falam do romantismo da época. Sim, era um período romântico. Fazer jornal na década de 70, quando comecei, era incrível. Mesmo porque, bem ao meu lado, monstros sagrados eram meus companheiros de redação: Ribamar Bogéa, Cunha Santos (pai), Hélder Paz, Amaral Raposo, Bernardo Coelho de Almeida, Luís Vasconcelos, Milson Coutinho, Carlos Cunha, Jámenes Calado, Carlos Nina, Cunha Santos (filho), João Alexandre Júnior, Alberico Carneiro, Walbert Pinheiro (meu chefe na Assessoria de Imprensa do governo municipal de Haroldo Tavares), Mário Coutinho, Flor de Liz, Jersan Araújo, Ademário Cavalcante, Eloy Cutrim entre outros. Com esses, aprendi muito. Às vezes lendo seus trabalhos ou sentado ao lado, em observação didática, ouvindo o característico barulho das teclas das “Remington”; em uma eterna sinfonia de letrinhas.

LN (09) - Em uma passagem de seu livro “A Bula dos Sete Pecados”, você escreveu que as vezes matamos o cupido pensando em matar o amor. Por quê?

ML: Algo tipo ‘erro de pessoa’. Transferir para terceiro a infelicidade própria. Isso acontece demais na vida real. Como se tivéssemos que ‘matar’ o cupido para por fim a um relacionamento tóxico. Isto é, com a ideia de que matando um terceiro, o seu amor pode ressuscitar de forma grandiosa. ‘Matar o cupido’ é dar mais uma chance para tentar desintoxicar esse amor, totalmente dependente. Porém, na realidade, essa toxidade nunca vai desaparecer...

 

LN (10) - Você já teve aquela sensação de reler um texto seu de anos atrás e pensar desconhecer-te? Pensar que poderia ter estruturado de outra forma e ter falado com outras palavras?

ML: Genial! Você acaba de descobrir o porquê de não ter lançado até hoje meu romance ‘A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NAVIO MARIA CELESTE”. Comecei a escrevê-lo em meados de 92. Minhas pesquisas duraram 10 anos e mais uns 3 para terminá-lo: 478 páginas. Quando enviei aos analistas da ‘Cia das Letras’/SP, na época, eles me aconselharam a diminuir o número de páginas, pois seria mais prático. E anotado por um deles, de próprio punho, no rodapé: “(...) a maioria dos leitores brasileiros não leem mais livros, tendo quantidade superior a 200 páginas (...)”. Assim, comecei o trabalho de reformulação. Cada página que lia, achava que as informações deveriam ser complementadas. Um determinado personagem precisava de maior espaço. O cenário da cena era impróprio para aquele exato momento. E assim.... estou nessa luta. Perdi o contato com alguns dos amigos da editora. O mercado literário brasileiro está quase desabando e meu romance permanece devidamente sendo adaptado para os tempos de modernidade.

(Muito bom ter conversado com você, minha amiga).

 

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Raimunda Pinheiro de Souza Frazão Há 3 meses São José de Ribamar-MA Parabéns Laura Neres!Parabéns Mhario Lincoln!
alcina maria silva azevedoHá 5 anos Campinas- SPSensacional troca de experiências, entre dois grandes autores. Mostraram aqui as diferentes formas de pensamentos e idéias que me fizeram repensar valores.Mhario Lincoln sempre esbanjando naturalidade e talento. A autora, muito intelugente em sua ideologia e simpatia também. Amei a entrevista.
Roger DageerreHá 6 anos São José de Ribamar - MaranhãoMuito interessante essa conversa descontraída e raríssima. Mas gostaria muito de poder apreciar as 478 paginas de “A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NAVIO MARIA CELESTE”. Sei apenas que o navio foi atingido por um incêndio durante uma operação de descarga de combustível, deixando 16 mortos...
Sharlene SerraHá 6 anos São LuisAplausos de pé. A Laura tem no DNA a arte em todas as linguagens e o Mhario também. Sou super fã.
Linda BarrosHá 6 anos São Luís/ MA "A Laura, de São Luis pra Hollywood ????. Muito interessante a entrevista" comentário de Fernanda García, Alemanha
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