
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.
"...entre a ousadia estética e a sombra de vícios culturais de seu tempo — ajuda a ler melhor Jaguar. Sua pena foi decisiva para sofisticar a sátira política brasileira, mas também habitou a fronteira porosa onde a ironia de época pode ressoar como agressão no presente".
Desde 24 de agosto de 2025 quando Jaguar morreu aos 93 anos, a memória dele ainda mobiliza a cultura brasileira e imortaliza ainda mais “O Pasquim”, Semanário que se tornou símbolo de resistência criativa à ditadura.
Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe — o Jaguar — irrompeu no humor gráfico brasileiro desde os anos 1950, quando começou a publicar na Manchete, e consolidou um estilo inconfundível de traço e pensamento satírico. O pseudônimo, que viraria assinatura histórica, foi sugestão do cartunista Borjalo, numa linhagem que o ligaria para sempre ao jornalismo de invenção e irreverência.
Como fundador e alma do “Pasquim”, Jaguar ajudou a desenhar uma linguagem que afrontava o poder com humor anárquico, sem panfletarismo, e abriu caminho para gerações seguintes. De seus cadernos saíram personagens que entraram no folclore do cartum nacional — do rato Sig ao Gastão, o Vomitador, passando por Bóris, o homem-tronco, Capitão Ipanema e as aranhas Jacy e Hélio. É um repertório que, décadas depois, ainda explica por que sua obra parece ter mais de um autor dentro do mesmo artista.
Há quase 3 meses, a despedida foi marcada por manifestações de pares que dimensionam esse legado. Angeli, referência da mesma linhagem, escreveu: “Adeus ao maior. Todas as reverências ao carinhoso mestre, dono do traço mais rebelde do cartum brasileiro.” Laerte, em entrevista à GloboNews, definiu o “Pasquim” como um “Monte Olimpo” e disse que Jaguar era “um deus muito especial, acolhedor”. No balanço da história, poucos artistas receberam, em vida e morte, tamanha unanimidade afetiva entre quem sabe o peso de um traço.
A unanimidade, porém, nunca foi regra fora da roda de amigos — e o próprio “Pasquim” seguiu atravessado por debates que seguem até hoje. Uma literatura crítica produzida desde os anos 2000 aponta que o jornal, em diversos momentos, reproduziu posições machistas e homofóbicas ao satirizar feminismo e homossexualidade, num evidente choque entre sua verve libertária contra a ditadura e a cultura política de parte de sua redação. Em formulação sintética, Bernardo Kucinski descreveu “O Pasquim” como “machista”, fazendo do feminismo e do “homossexualismo” objetos de chacota — um diagnóstico duro que não apaga a relevância do periódico, mas relativiza o mito ao recolocá-lo no contexto de sua época.
Esse tensionamento — entre a ousadia estética e a sombra de vícios culturais de seu tempo — ajuda a ler melhor Jaguar. Sua pena foi decisiva para sofisticar a sátira política brasileira, mas também habitou a fronteira porosa onde a ironia de época pode ressoar como agressão no presente. Reconhecer o conjunto não diminui o artista: amplia o entendimento do que foi necessário — e do que faltou — à imprensa de humor que ousou desafiar a censura.
Na matéria de sua biografia, ficam os marcos objetivos: o carioca nascido em 1932, que começou a publicar em 1952, que se fez fundador do semanário que ensinou um país a ler a política por meio do riso, e que partiu sob a comoção de colegas e leitores. O obituário oficial reforça o quadro clínico da morte; a cobertura pública confirmou o adeus no Memorial do Carmo; a memória dos cartuns seguirá circulando em capas, acervos e timelines. Entre a devoção dos pares e as críticas históricas, sobrevive um consenso possível: Jaguar foi um capítulo decisivo do humor brasileiro — e continuará sendo lido como tal.
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