Texto da Editoria de Economia da Plataforma Nacional do Facetubes.
Ao afirmar que “não tem milagre no preço do combustível”, a vice-presidente executiva de Comercial Varejo da Vibra Energia, Vanessa Gordilho, escancara a matemática de um setor de margens estreitas e alta pressão concorrencial. A companhia trabalha com uma margem de Ebitda ajustada de R$ 177 por metro cúbico, o equivalente a R$ 0,17 por litro na bomba, num contexto em que a formação do preço envolve distribuição e revenda, custos do etanol anidro, tributos estaduais e federais e, sobretudo, os custos de produção. Quando um posto anuncia valores muito abaixo da média de mercado, quase sempre há algo que não se encaixa nesse equilíbrio delicado.
É justamente nesse ponto que a ilegalidade distorce o jogo. Combustível que não paga imposto, entra adulterado ou “economiza” na matéria-prima desorganiza toda a cadeia e gera preços artificialmente baixos na ponta, sufocando quem cumpre a legislação. A Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Receita Federal e órgãos parceiros, foi saudada por Vanessa como um divisor de águas ao atacar esquemas de sonegação e lavagem de dinheiro no setor. Segundo ela, quem “fazia coisa errada” já sente maior dificuldade de operar, diante do aumento da fiscalização não apenas nos postos, mas também em portos, bases e distribuidoras.
Para defender sua posição num ambiente tão tensionado, a Vibra aposta em escala, controle e reputação. A empresa opera 94 bases e reúne 8.000 dos 32 mil postos do país, apoiada pelo programa “De Olho no Combustível”, que já realizou milhares de inspeções e análises de amostras em postos de todas as regiões, com meta de ampliação dessas verificações até 2026. Vanessa enfatiza que o consumidor tem papel decisivo nessa equação: é ele quem escolhe onde abastecer e precisa entender que “o barato sai caro” quando o combustível adulterado compromete o veículo, corrói a concorrência leal e alimenta esquemas irregulares.
Ao mesmo tempo, a distribuidora se move para não ficar aprisionada à lógica exclusiva da gasolina e do diesel. Vanessa reconhece que o Brasil ainda depende fortemente do transporte rodoviário movido a diesel, mas defende que a transição exige mudanças estruturais, envolvendo montadoras, empresas, governos e novos investimentos em logística e tecnologia. Desde 2022, a Vibra investe na EZVolt, rede de recarga para veículos elétricos presente em mais de 20 estados, e incorporou a Comerc Energia, que hoje opera como divisão de soluções em energias renováveis, eficiência energética e descarbonização, com portfólio que inclui usinas solares, parques eólicos e estruturas de créditos de carbono.
O fôlego para essa agenda vem de uma operação ainda robusta no mercado tradicional. No terceiro trimestre, a Vibra registrou Ebitda ajustado de R$ 1,8 bilhão, geração de caixa operacional de R$ 3,5 bilhões, lucro líquido de R$ 407 milhões, receita líquida de R$ 48,6 bilhões e vendas superiores a 9 milhões de metros cúbicos, com market share de 23,8%. A mensagem da companhia é clara: não há espaço real para combustíveis “milagrosos” sem risco de fraude, e a sustentabilidade do negócio passa por eficiência, combate à ilegalidade e pela capacidade de conduzir, em paralelo, a transformação da matriz energética brasileira.
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