
*Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
Conheci o poeta Luiz Henrique quando estive em Santa Inês (MA) para participar de um encontro literário promovido pelo premiado poeta e escritor Paulo Rodrigues. Fui agraciado com um exemplar desse livro; "Enamorados", de 2018, onde o poeta, faz algo raro: assume-se, sem disfarces, como um apaixonado em voz alta.
Logo na apresentação, ele confessa ser “um enamorado incorrigível” e reivindica para si uma “pitada de romantismo nesse nosso mundo tão digital”, em que o toque e o olhar são substituídos por telas apressadas.
Esse gesto inicial não é mero prólogo; é uma declaração de método. O poeta avisa ao leitor que o livro nasce de uma necessidade de se abrir para o mundo, de transformar o acúmulo de carinho guardado no peito em verbo direto, coloquial, por vezes irreverente, mas sempre ancorado numa afetividade sem vergonha de se assumir.
Um dos cartões de visita dessa catarse é o texto “Sinônimos para amor”. Em vez de recorrer ao dicionário, Luís Henrique elenca gestos: proteger, não abandonar, fazer sorrir, evitar chorar, não enganar, não iludir, não fazer sofrer. O amor aparece como prática, não como substantivo abstrato. Porém, ao concluir que “pode ser tudo / mas AMOR… não é não!”, o poeta desmonta a ilusão de que qualquer afeto serve.
Uma demonstração salutar de que há uma ética rígida, quase um código de conduta, escondida atrás do tom simples. O que ele escreve: "o amor não tolera descuido, negligência ou jogo de cena; exige presença radical, compromisso com a inteireza do outro".
Em “Exclusividade”, essa ética se transforma em corpo, espaço e renúncia. O eu lírico interpela a pessoa amada que ousa falar em “infelicidade” e a convida a olhar para o “tanto de gente que tem nesta cidade”. Entre todos, é ela – “tu, somente tu” – quem tem a nudez do poeta atravessando a casa, quem recebe a devoção do “bicho alado que, por devoção a ti, renunciou as próprias asas”.
O verso é de uma força simbólica rara: amar, aqui, é escolher perder altitude para ganhar presença, trocar a fantasia da liberdade ilimitada pela concreção de um tu. Há ternura e há risco; ao abdicar das asas, o sujeito se entrega a uma vulnerabilidade sem garantias, e é nessa zona perigosa que o livro insiste em permanecer.
O diálogo que o volume estabelece com outros poetas reforça essa tensão entre querer e amar. Em “Bem Querer (Ao Adônis)”, de Pedrinho Terra, o verso destacado – “Quero-te, não te amo!” – abre uma fissura poderosa. O poema começa nesse aparente distanciamento, mas vai sendo tomado por uma onda de luz que “atinge o mais profundo de mim”, até que o coração “empedernido” se deixe atingir.
O movimento é de conversão afetiva: o sujeito que separava o desejo do amor, termina confessando, com limpidez rara na poesia contemporânea, “Te amo! Mais que te quero.” A presença deste texto ao lado de Luís Henrique não é casual: juntos, eles escancaram o percurso do afeto que sai do impulso, atravessa o medo e chega à palavra “amor” sem eufemismos.
O resultado de Enamorados é esse mundão de gestos, confissões e pequenos manifestos que, somados, formam uma grande catarse romântica. Eu simplesmente adorei os poemas, caro amigo Luís Henrique porque você não teme o sentimental, não teme a palavra “carinho”, não teme escrever “simplesmente”.
Justamente por isso alcança uma coragem que falta a muitos: a de assumir o amor como escolha adulta, responsável, mas ainda assim arrebatada.
Texto de Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes e presidente da Academia Poética Brasileira.
Mín. 13° Máx. 20°