
Mhario Lincoln
A poesia “Janela de Vidro”, de Joema Carvalho, abre-se como metáfora da fragilidade e da transformação. A janela quebrada simboliza o rompimento de barreiras, o estilhaçar de certezas, permitindo que o “movimento mental” se expanda em voo.
E como é inevitável não incluir filosofia, não há como não relacionar esse insight poético com o pensamento de Nietzsche, que via na destruição das velhas estruturas a possibilidade de criação de novos valores. E como diz o ditado popular, “quando uma porta se fecha, uma janela se abre” — aqui, a janela não apenas se abre, mas se quebra, revelando que a liberdade exige ruptura.
No segundo momento, a imagem da borboleta que emerge do casulo evoca a metamorfose como processo inevitável da vida. A lagarta grotesca, que se transforma em beleza alada, lembra a lição budista da impermanência: nada permanece igual, tudo se renova. Comparativamente, Heráclito já afirmava que “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”, pois tanto o rio quanto o ser estão em constante mudança.
Os versos seguintes aprofundam a reflexão sobre a transitoriedade: “depois da crença de que tudo é impermanente, sem valor intrínseco”. Essa visão dialoga com a filosofia oriental, especialmente o budismo, que ensina que o apego às coisas é fonte de sofrimento. Ao mesmo tempo, aproxima-se do existencialismo de Sartre, que vê o ser humano condenado à liberdade, sem essência pré-definida.
Por fim, é chegada a afirmação de que “um poema não se explica, traduz a base”. Aqui, Joema Carvalho, imortal da Academia Poética Brasileira, seccional Paraná, sugere que a poesia é experiência, não conceito; é vivência, não teoria. Comparando com Platão, que via a arte como sombra da realidade, e com Fernando Pessoa, que dizia “o poeta é um fingidor”, percebemos que a poesia é ao mesmo tempo máscara e revelação.
Então, porque não fechar com um conhecido ditado popular que diz: “quem canta seus males espanta”. Isso vem reforçar a ideia de que a arte não resolve, mas traduz, dá forma ao indizível. Parabéns, pois, Joema Carvalho por seu poema “Janela de Vidro”, lá no fundo, uma meditação sobre a quebra, a metamorfose e a essência da poesia como espelho da impermanência.
Eu gosto muito quando você envia seus poemas e eu analiso de coração e alma.
Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
O POEMA
JANELA DE VIDRO
Joema Carvalho
a janela de vidro quebrou
estilhaçada pelo ar
voo
sob a luz do sol
por entre as nuvens
do movimento mental
uma borboleta esvoaçante
novo ciclo que renasce
depois que a torre desmorona
depois do casulo
duma lagarta grotesca
depois da crença
de que tudo
é impermanente
sem valor intrínseco
à noite
um dia
a luz,
sombra de alguém
um poema
não se explica
traduz a base
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