
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Você gostaria de saber, seguindo o perfil do bom velhinho - a alegria das crianças - quais livros Papai Noel nunca leria e nem daria de presente para ninguém? Leia a matéria.
Quando pensamos no ‘bom velhinho’, pensamos em alguém que protege o encanto das crianças, guarda segredos, oferece presentes e, sobretudo, acredita que o mundo ainda pode ser um lugar melhor.
Se Papai Noel tivesse uma pequena biblioteca ao lado do trenó, ela certamente estaria cheia de histórias de amizade, reconciliação, milagres discretos e risos à beira da lareira. Justamente por isso, há livros fundamentais da literatura mundial que ele provavelmente manteria numa prateleira alta, distante dos olhos infantis — não por censura, mas por cuidado. São obras necessárias para adultos, mas severas demais para quem ainda escreve a carta com caligrafia tremida e sonhos enormes.
Pensando no perfil do “bom velhinho” – guardião de sonhos infantis, defensor da ternura e da esperança – há livros brasileiros indispensáveis para compreender o país, mas que dificilmente fariam parte da sua mesa de cabeceira no Polo Norte. Não porque sejam “proibidos”, e sim porque mostram, com uma crueza quase insuportável, o lado em que o Natal parece ter sido esquecido.
É o caso de “Cidade de Deus”, de Paulo Lins. O romance acompanha, com impressionante realismo, a escalada da pequena delinquência à violência generalizada e ao domínio do tráfico numa periferia do Rio de Janeiro. Entre execuções, guerras de gangues e vidas ceifadas ainda na adolescência, a favela é mostrada como um território onde a infância é atropelada pela necessidade de sobreviver.
Outro volume que o “bom velhinho” dificilmente leria com leveza é “Quarto de despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus. O livro é o registro direto, sem filtros, do cotidiano de uma mãe solo, catadora de papel, vivendo na favela do Canindé, em São Paulo, entre a fome, a humilhação e a luta diária por um prato de comida para os filhos. A grandeza literária de Carolina está justamente em não dourar a miséria. Para Papai Noel, acostumado a ver a ceia como símbolo de comunhão, ler linhas em que o almoço depende do lixo revirado seria uma punhalada no espírito natalino.
“Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, também ficaria na prateleira dos adultos. A obra é o testemunho do escritor sobre a prisão política que sofreu durante o Estado Novo: porões imundos, tortura, medo e a sensação de ter sido arrancado da vida civil sem julgamento. É literatura de altíssimo nível, mas feita de humilhações, doenças e corpos confinados. Para alguém que simboliza a liberdade de voar sobre fronteiras, puxado por renas, entrar nesse universo de celas superlotadas seria aceitar que, em muitos momentos da nossa história, o país trancou a esperança a cadeado.
Já na linguagem internacional, “1984”, de George Orwell, seria um dos livros que Papai Noel dificilmente abriria. Ali, um “Grande Irmão” vigia cada gesto, cada pensamento, cada respiro — e esse olhar não é de ternura, mas de controle. Noel, que também “sabe quem foi bonzinho ou não”, nunca quis ser confundido com um fiscal de almas.
Outro título que, muito provavelmente, ficaria de lado é “A Estrada”, de Cormac McCarthy. Trata-se de um romance belíssimo, mas devastador, em que um pai e um filho caminham por uma terra arrasada, sem árvores iluminadas, sem sinos, sem canções. Há amor ali, um amor feroz, porém cercado de ruínas. Outro: se alguém colocasse na mesa “American Psycho”, de Bret Easton Ellis, a reação seria quase automática. Noel empurraria o livro para longe, com um olhar de desconforto. A obra é um mergulho num universo de consumo vazio, ostentação, crueldade e desumanização extrema. É o lado mais sombrio de um capitalismo sem freios, onde pessoas viram objetos descartáveis. Papai Noel, muitas vezes usado como símbolo de compras e vitrines lotadas, sabe que o sentido da festa não é esse: presentes, para ele, são gestos de afeto, não troféus de status.
Enfim, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, provavelmente permaneceria fechado em alguma gaveta do escritório de brinquedos. Ver Gregor Samsa transformado em inseto e lentamente rejeitado pela própria família é acompanhar a destruição daquilo que Noel se dedica a reforçar: a ideia de que, por mais estranhos ou diferentes que sejamos, ainda merecemos lugar à mesa. O homem que entra nas casas sem ser visto, deixando presentes para crianças que talvez se sintam deslocadas na escola ou em casa, não suportaria a imagem de alguém tratado como praga justamente no espaço que deveria acolher
Esses livros, duros, mas geniais, são parte indispensável da formação humana, mas pertencem a uma etapa em que já não precisamos tanto de renas voadoras para acreditar em algo maior. Papai Noel, se pudesse escolher o que ler, preferiria aquilo que reforça o fio de delicadeza que ainda sustenta o mundo, isto é, as narrativas de reconciliação, de justiça possível, de crianças que aprendem a perdoar. Talvez por isso, em nossa imaginação, ele nunca seja visto com essas obras pesadas nas mãos; alguém precisa defender, até o último minuto da véspera, o direito de adiar o peso do absurdo e da violência que a vida real nos apresenta. Pelo menos, por enquanto!!!!!!
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