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Os livros que Papai Noel jamais iria ler, nem colocar no saco de presentes.

Esses livros, duros, mas geniais, são parte indispensável da formação humana, mas pertencem a uma etapa em que já não precisamos tanto de renas voadoras para acreditar em algo maior.

09/12/2025 às 09h00 Atualizada em 09/12/2025 às 09h01
Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes c/Mhario Lincoln
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Arte: mhl/ginai
Arte: mhl/ginai

Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln

 

Você gostaria de saber, seguindo o perfil do bom velhinho - a alegria das crianças - quais livros Papai Noel nunca leria e nem daria de presente para ninguém? Leia a matéria.

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Quando pensamos no ‘bom velhinho’, pensamos em alguém que protege o encanto das crianças, guarda segredos, oferece presentes e, sobretudo, acredita que o mundo ainda pode ser um lugar melhor.

 

Se Papai Noel tivesse uma pequena biblioteca ao lado do trenó, ela certamente estaria cheia de histórias de amizade, reconciliação, milagres discretos e risos à beira da lareira. Justamente por isso, há livros fundamentais da literatura mundial que ele provavelmente manteria numa prateleira alta, distante dos olhos infantis — não por censura, mas por cuidado. São obras necessárias para adultos, mas severas demais para quem ainda escreve a carta com caligrafia tremida e sonhos enormes.

 

Pensando no perfil do “bom velhinho” – guardião de sonhos infantis, defensor da ternura e da esperança – há livros brasileiros indispensáveis para compreender o país, mas que dificilmente fariam parte da sua mesa de cabeceira no Polo Norte. Não porque sejam “proibidos”, e sim porque mostram, com uma crueza quase insuportável, o lado em que o Natal parece ter sido esquecido.

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É o caso de “Cidade de Deus”, de Paulo Lins. O romance acompanha, com impressionante realismo, a escalada da pequena delinquência à violência generalizada e ao domínio do tráfico numa periferia do Rio de Janeiro. Entre execuções, guerras de gangues e vidas ceifadas ainda na adolescência, a favela é mostrada como um território onde a infância é atropelada pela necessidade de sobreviver.

 

Outro volume que o “bom velhinho” dificilmente leria com leveza é “Quarto de despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus. O livro é o registro direto, sem filtros, do cotidiano de uma mãe solo, catadora de papel, vivendo na favela do Canindé, em São Paulo, entre a fome, a humilhação e a luta diária por um prato de comida para os filhos. A grandeza literária de Carolina está justamente em não dourar a miséria. Para Papai Noel, acostumado a ver a ceia como símbolo de comunhão, ler linhas em que o almoço depende do lixo revirado seria uma punhalada no espírito natalino.

 

Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, também ficaria na prateleira dos adultos. A obra é o testemunho do escritor sobre a prisão política que sofreu durante o Estado Novo: porões imundos, tortura, medo e a sensação de ter sido arrancado da vida civil sem julgamento. É literatura de altíssimo nível, mas feita de humilhações, doenças e corpos confinados. Para alguém que simboliza a liberdade de voar sobre fronteiras, puxado por renas, entrar nesse universo de celas superlotadas seria aceitar que, em muitos momentos da nossa história, o país trancou a esperança a cadeado.

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Já na linguagem internacional, 1984, de George Orwell, seria um dos livros que Papai Noel dificilmente abriria. Ali, um “Grande Irmão” vigia cada gesto, cada pensamento, cada respiro — e esse olhar não é de ternura, mas de controle. Noel, que também “sabe quem foi bonzinho ou não”, nunca quis ser confundido com um fiscal de almas.

 

Outro título que, muito provavelmente, ficaria de lado é A Estrada, de Cormac McCarthy. Trata-se de um romance belíssimo, mas devastador, em que um pai e um filho caminham por uma terra arrasada, sem árvores iluminadas, sem sinos, sem canções. Há amor ali, um amor feroz, porém cercado de ruínas. Outro: se alguém colocasse na mesa American Psycho”, de Bret Easton Ellis, a reação seria quase automática. Noel empurraria o livro para longe, com um olhar de desconforto. A obra é um mergulho num universo de consumo vazio, ostentação, crueldade e desumanização extrema. É o lado mais sombrio de um capitalismo sem freios, onde pessoas viram objetos descartáveis. Papai Noel, muitas vezes usado como símbolo de compras e vitrines lotadas, sabe que o sentido da festa não é esse: presentes, para ele, são gestos de afeto, não troféus de status.

 

Enfim, A Metamorfose, de Franz Kafka, provavelmente permaneceria fechado em alguma gaveta do escritório de brinquedos. Ver Gregor Samsa transformado em inseto e lentamente rejeitado pela própria família é acompanhar a destruição daquilo que Noel se dedica a reforçar: a ideia de que, por mais estranhos ou diferentes que sejamos, ainda merecemos lugar à mesa. O homem que entra nas casas sem ser visto, deixando presentes para crianças que talvez se sintam deslocadas na escola ou em casa, não suportaria a imagem de alguém tratado como praga justamente no espaço que deveria acolher

 

Esses livros, duros, mas geniais, são parte indispensável da formação humana, mas pertencem a uma etapa em que já não precisamos tanto de renas voadoras para acreditar em algo maior. Papai Noel, se pudesse escolher o que ler, preferiria aquilo que reforça o fio de delicadeza que ainda sustenta o mundo, isto é, as narrativas de reconciliação, de justiça possível, de crianças que aprendem a perdoar. Talvez por isso, em nossa imaginação, ele nunca seja visto com essas obras pesadas nas mãos; alguém precisa defender, até o último minuto da véspera, o direito de adiar o peso do absurdo e da violência que a vida real nos apresenta. Pelo menos, por enquanto!!!!!!

 

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Joizacawpy Há 6 meses São luís Que texto bonito, criativamente construído nos levando a refletir sob o que a literatura traz de modo bem realista, realidades que não cabem simplesmente na fantasia. Parabéns ao Facetubes por mais uma grande sacada.
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