
Keila Marta (APB, Seccional Maranhão).
Ouricuri, palmeira nativa dos estados do Piauí, Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais, particularmente compõe o bioma da caatinga, conhecida por outros nomes como licuri, dicuri, audicuri, aricui, coqueiro-cabeçudo, com algumas utilidades tanto para a gastronomia quanto para o artesanato, pois do fruto pode se extrair bebida vegetal, sorvete e licor e farinhada, a palha é usada para cobertura de casas e também na produção de chapéus, bolsas e cestos, entre outras finalidades, se extrai cera e óleo. Além do que, é título de uma das famosas canções de João do Vale, lançada 1965 no álbum O poeta do povo, gravada também nas vozes de Clara Nunes e Nara Leão. Ouricuri faz parte daquelas canções que revelam a natureza do que é cantado, no caso o cenário do sertão. Então, o João foi um dos compositores que soube universalizar um recorte do nordeste e colocá-lo em um lugar quase mitológico em que o homem tem poderes e percepções trazidas pelas experiências da vida dura, levada com resiliência e coragem, marcada por uma conexão espiritual, forte e direta com a natureza, que não depende de escolaridade, mas é própria da vivência.
Lá no sertão, quase ninguém tem estudo
Um ou outro que lá aprendeu ler
Mas tem homem capaz de fazer tudo, doutor
Que antecipa o que vai acontecer
Trata-se de uma letra simples e ao mesmo tempo carregada por uma densa atmosfera, entrecortada por períodos de seca e chuva, floração e frutificação e cada acontecimento serve de alerta para outro, um prenúncio, situação que se observa logo na primeira estrofe.
Oricurí madurou
E é sinal, que arapuá já fez mel
Catingueira fulorou lá no sertão
Vai cair chuva a granel
Nessa linha acima chama atenção, o efeito provocado pelo emprego do termo a granel, que significa em grande quantidade, pois a cena que surge no imaginário do leitor é água da chuva descendo bem forte pelos telhados de palha ou cavaco, e bicas, feitas geralmente de tronco de árvore oca, como a embaúba, enchendo baldes, tanques e potes.
Assim, todo o restante da música serve de reforço dessa mensagem, que se a gente ouvir as diferentes gravações vai perceber que dependendo de quem canta, ela é passada e sentida por uma perspectiva diferente, na voz do João transmite a relação do plantador com a terra, daquele que sente na pele o que é viver no sertão e fala ao sulista, ao homem da cidade o quanto que o nordestino tem de conhecimento, revelando o lado bom dessa parte do Brasil que na época passava por muito preconceito, fato sentido por exemplo numa fala da Carolina Maria de Jesus no livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada em que ela diz em tom de crítica: O senhor Alfredo fez um baile. Está tocando vitrola. Dança só os nortistas porque os paulistas aborreceram de ouvir e dançar Pisa na fulô. A palavra nortista era usada de forma separatista, preconceituosa, que apequenava os nascidos na parte de cima do mapa.
Já na voz da Clara Nunes ganha um tom especial, como se fosse a própria natureza falando de si, a voz feminina que traz uma força ancestral como Mãe-Terra, e no cantar da Nara se percebe uma interpretação livre, um olhar de fora, mas, desprendido, receptivo, mesmo nativa de um lugar privilegiado, cercada de boa cultura, é aquela figura que busca conhecer outras realidades, para além das fronteiras sul e sudeste.
E olhando mais nos detalhes, a letra é marcada por prolongamentos e pausas (gerados pelo uso do gerúndio), que proporcionam o efeito da espera, que não é particularidade do homem, mas partilhada com plantas e animais.
Arapuá esperando
Oricurí madurecer
Catingueira fulorando
Sertanejo esperando chover
O tempo na canção parece mais lentificado do que o normal, pois vem preenchido por um excesso de esperança, fé de que tudo tem sua hora, que um dia a vida se ajeita, tudo vai ficar bem e assim os ciclos no sertão vão acontecendo. Esse tempo é de longe coadjuvante, ele se apresenta com a profundidade histórica do Brasil rural em que tudo chegava e ainda de alguma forma chega com certo atraso, as cartas, as compras da cidade, as notícias do rádio, os dias em que retirantes, fugitivos da seca levavam para chegar até seu destino, geralmente a cidade grande.
Catingueira fulora, vai chover
Andorinha voou, vai ter verão
Gavião se cantar, é estiada
Vai haver boa safra no sertão
Cada termo aqui é muito simbólico, o cantar do galo e da acauã faz parte do cenário como uma extensão da casa sertaneja, e que só demonstra o lado intuitivo, o ouvir com total atenção a natureza, o que pode acabar interferindo na vida amorosa entre homem e mulher.
Se o galo cantar fora de hora
É mulher dando fora, pode crer
Acauã se cantar perto de casa
É agouro, é alguém que vai morrer
Esse galo que canta fora de hora, antes da meia noite, se relaciona com os pressentimentos de quem acorda com esse barulho numa hora inesperada, pois o galo é símbolo solar, anunciante da aurora, da luz, representa também a valentia, o deus Hermes que além de mensageiro, fazia companhia a alma dos mortos, era aquele que transitava entre as polaridades, morte e vida, noite e dia, céu e terra.
Enfim, o bonito de tudo é que o João do Vale exalta as belezas e nuances desse Brasil de dentro, aquele do Guimarães Rosa com suas superstições, onde os pastos carecem de fechos, onde um pode torar dez, quinze léguas sem topar num morador; e onde o criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. Brasil que Maria Bethânia gosta de cantar, o Brasil real que não é falso, que não está na tela da televisão ou do celular. É o Brasil real, lindo, com suas alegrias, suas transparências, suas lindezas [...] em que qualquer lugar tem sua música característica da sua região [...] Um Brasil lindo, misterioso, grandioso.
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Referências:
1Música Ouricuri: o segredo do sertanejo, retirada do site: https://www.letras.mus.br/joao-do-vale/ouricuri/
Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em1960.
Trecho do livro Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, 1956
Entrevista de Maria Bethânia ao canal da Sarah Oliveira no Youtube. Disponível em: https://youtu.be/z5Atsk2cbdc?si=Qwz5Tqoau7yjR4yV
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