
Minha Opinião
Mhario Lincoln
Eu me empolguei demais com esse monólogo que mostra, de certa forma, Ana Jansen à beira de si mesma: o mito revisitado na bela performance da atriz Linda Barros. Entre memórias de poder, medo e solidão, a personagem confronta o peso de suas escolhas e o fantasma social que ajudou a construir. A voz que fala é de uma mulher que descobre que nenhum domínio sobre pessoas ou espaços é capaz de silenciar a culpa e a História.
Dramaturgicamente, o texto de José Neres tem começo, meio e fim bem definidos: parte da afirmação de poder, atravessa a zona de conflito interno e chega a um fecho em tom quase confessional. O propósito — humanizar a figura lendária sem absolver sua participação em um mundo de privilégios e violências. O monólogo é original ao deslocar Ana Jansen do caricatural para o trágico, abrindo brechas de ambiguidade que enriquecem o impacto da peça.
Ao assistir ao vídeo (queria estar lá) o personagem alterna momentos de altivez e fragilidade, criando ritmo interno que sustenta a tensão dramática. Há passagens que funcionam como chaves de profundidade psicológica, revelando motivações, medos e tentativas de justificar o injustificável. A construção linguística – essa é para dar um grande abraço em Neres. É clara, acessível, mas carregada de subtexto, o que favorece uma recepção ampla sem perder densidade artística.
Por fim, na performance, Linda Barros (minha confreira na Academia Poética Brasileira) confirma a potência do monólogo. Vale falar de sua boa projeção vocal e o uso preciso das pausas que acabam por construir uma presença cênica magnética. Linda administra bem as variações de ritmo, evitando a monotonia e valorizando os momentos de silêncio como extensão do conflito interno.
Corpo e voz trabalham juntos para manter a energia até o final, criando uma conexão efetiva com o público. O resultado é um encontro feliz entre a escrita de José Neres (Academia Maranhense de Letras) e a entrega da atriz, que honra a tradição teatral maranhense ao revisitar uma de suas figuras mais controversas.
Vale, então, ler esse monólogo (reproduzido com exclusividade pela Plataforma Nacional do Facetubes) e, mais abaixo, assistir até o fim, o vídeo gentilmente cedido pela atriz e por seu esposo, o escritor José Neres.
MONÓLOGO: O ENCONTRO
TEXTO: JOSÉ NERES
INTERPRETAÇÃO: LINDA BARROS
Monólogo em um ato
Todas as cenas se passam no mesmo ambiente: uma sala luxuosa, com mobiliado imponente. Importante que haja uma cadeira de espaldar alto no meio da sala.
CENA 1 - Ana Jansen caminha devagar, de forma imponente
ANA JANSEN - Quando será que ele vem? Preciso saber se esse boato é verdade. Onde já se viu? O Maranhão está acabado mesmo. É cada coisa que acontece!
(Faz uma pausa - olha para um ponto imaginário e diz, quase gritando)
ANA JANSEN - Abana direito, traste, o calor está infernal. Se não fizer teu trabalho direito, te mando para a casa de Ana Rosa… aí você vai ver o que é bom para tosse! Presta atenção, viu? Depois, depois…
(Ignora a escrava e volta a falar como se não tivesse outra pessoa por ali)
ANA JANSEN - Já mandei o moleque levar o recado três vezes só esta semana. Se não vier até hoje, ele vai ver o que acontece com quem desafia Ana Joaquina Pereira Jansen. Ele vai ver…
(Volta-se para o ponto imaginário onde está a escrava a abanar)
Não é para abanar assim com tanta força! Tá ficando doida? Depois, depois… não te digo nada…
ANA JANSEN - Ele que não pareça ainda hoje… Vai descobrir da pior maneira possível o que acontece com quem me desafia…
Aquele engenheiro metido a besta já aprendeu (Solta uma gargalhada)Onde já se viu uma coisinha daquelas me desafiar! Qual é o nome dele mesmo?
(Olha para o ponto imaginário)
ANA JANSEN - Isso mesmo, imprestável! Não te perguntei. Isso mesmo: Teixeira Mendes… Raimundo Teixeira Mendes. O besta acreditou que com o encanamento dele as pessoas iam parar de comprar minha água… fiquei ca-la-di-nha…
(Gargalhada)
Mas eu avisei. Eu avisei que água parada fica com gosto e cheiro de gato morto. Eu avisei. Duvidaram? Deu no que deu! (Riso de deboche) Não durou muito. Foi logo embora…
(Olha para o ponto imaginário)
Também não é para abanar tão devagar, parece que tá morta! Depois, depois…
(Olha para o outro lado - olhar radiante. Falando com alguém)
ANA JANSEN - Ah, ele chegou!!! Muito bem. Demorou, mas veio…
Não. Não. Não… deixa ele lá fora esperando… Não me fez esperar? Que espere também… E lá fora, na rua mesmo. Depois entra…
(Vira-se para o ponto imaginário)
E tem aquele também (faz cara de zanga) Não me ouse falar o nome dele aqui na minha sala… Calada! Hum!
ANA JANSEN - Tem aquele que inventou de mandar fazer penicos com a minha cara no fundo (Riso diabólico). Mal sabia ele que eu fiquei sabendo de tudo. Até hoje as paredes da casa dele devem estar cobertas de bosta. Bem feito. Bem feito.
(Volta-se para o ponto imaginário)
Quem te autorizou ficar rindo aí. Tá ficando doida? Depois, depois…
ANA JANSEN - Tá pensando que vai ter a mesma sorte da escravinha que a dona dizia para todos mundo: (Fazendo careta e usando voz de arremedo) Se tu não se comportar, vou te mandar para Donana Jansen, que ela vai dar um jeito em ti. (Voltando ao normal)
Isso me deu tanta raiva que comprei a pretinha e mandei alforriar na mesma hora. Ninguém vai debochar da minha cara. (Olhando para o ponto imaginário) Mas contigo é diferente. Mando é te jogar no poço mesmo. Vai duvidando, vai. Depois, depois.
(Senta-se na cadeira. Alisa a roupa. Faz um gesto como se chamasse alguém)
ANA JANSEN - Manda ele entrar. Quero ver se é verdade o que estão falando por aí. (Fecha a cara )
(Acompanha com o olhar alguém que se aproxima)
ANA JANSEN - E não é que é verdade mesmo? Vem um pouco mais para perto de mim… Para bem aí mesmo?
(Puxa o pince-nez com cabo de madrepérola e fica olhando e examinando por cerca de um minuto)
ANA JANSEN - E não é que é verdade mesmo? Qual é teu nome? (Pausa)
Damião, é? Então tu que é o preto professor? Nosso Maranhão está mesmo perdido. Onde já se viu um professor preto? É o fim dos tempos!
(Faz uma pausa, se levanta e, com o pince-nez no rosto, circula a figura imaginária)
Pode ir embora. Pode ir embora. Não quero nada contigo não. Só queria ver de perto o preto que sabe latim. Vai.
(Senta-se de novo. Alisa a saia. Franze as sobrancelhas, olha para o ponto imaginário)
Era só o que faltava. E tu, tira esse risinho da boca. Era só o que faltava. Nosso Maranhão está acabado mesmo! Depois, depois.
(Fim)
VÍDEO-BÔNUS
(Ana Jansen)
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EM TEMPO:
LINDA BARROS EM PERFIL ARTÍSTICO CÊNICO
Por Joizacawpy Costa
A atriz e poeta Linda Barros tem ganhado aplausos em território maranhense por sua desenvoltura no palco. A artista tem interpretado textos escritos principalmente pelo professor José Neres, os quais são ambientados em livros de marca presente na literatura maranhense, por exemplo, Os Tambores de São Luís.
Linda tem interpretado Ana Jansen de forma impecável, interpretação que a cada apresentação se torna ainda melhor, provando seu real potencial nos palcos. A atriz também interpretou um importante papel quando, na Feira do Livro de São Luís, deu vida ao texto do professor José Dino. Foi um encontro entre passado e presente no qual ela contracenou com Josimael Caldas: ela como a professora Lúcia e ele como Antônio Henriques Pires Leal.
Linda evidencia sua competência artística quando mostra uma interpretação totalmente diferente da outra. Em uma, ela tem que se reportar a outro tempo e construir a personagem num passado de séculos. Em outra, ela interpreta uma personagem contemporânea.
Num jogo de palco maduro, ela brinca com a plateia, incluindo-a em suas falas cênicas e dando uma movimentação inteligente e divertida à sua atuação. Linda Barros tem arrancado aplausos efusivos das plateias onde se apresenta; desse modo, vai se consagrando como atriz.
O trabalho artístico de Linda Barros tem sido de grande relevância no que se refere ao fortalecimento da literatura maranhense. Numa parceria forte entre literatura e arte cênica, quem ganha são os apaixonados tanto pela mágica dos livros quanto pelo encanto do teatro.
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