
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Imagina uma plêiade de memórias vivas desfilando com muita força contemplativa sua lírica por sobre um mar de leitores afoitos pela Segunda Poética? Sim! A editoria tem muita dificuldade ao escolher os personagens de cada semana para integrar esta seção - que já tem seu lugar cativo - dentro da Plataforma Nacional do Facetubes.
Pois bem! Neste segunda, a escolha da equipe foi mais que segura e sincera. Lendo várias publicações ao longo dos dias anteriores, a escolha recaiu sobre algumas das vozes mais expressivas da linguagem poética maranhense - e uma da paranaense, Vanice Zimerman, confreira da Academia Poética Brasileira, seccional Paraná.
Para começar, o poema “2084”, de Lourival Serejo, é especial, sem dúvida porque condensa em poucos versos uma poderosa memória da pandemia de 2020. A escolha do título projeta o 'eu' lírico para um futuro distante, de onde ele narra aos jovens “o que aconteceu naquele ano de vinte”, como se registrasse um capítulo traumático da história humana em forma de lembrança oral. A linguagem simples, quase coloquial, reforça o tom de relato – “quando o mundo / parou sem entender” – e devolve ao leitor a perplexidade coletiva daquele período, marcada pela interrupção brusca da vida cotidiana e pelo medo compartilhado.
Por outro lado, José Neres, cuja poesia traz memória e resistência, quando, em sua lírica, a cidade de São Luís surge como corpo vivo, em que pedras, casarões e figuras como Mãe Calu guardam o trauma da escravidão. Neres recusa tanto o romantismo quanto o panfleto, preferindo a musicalidade rigorosa e a sugestão para fazer o leitor ouvir, no presente, os ecos de um passado ferido.
Alex Brasil, por sua vez, extrai (com muita beleza) o lirismo confessional, onde fé, dor e amor se misturam na figura do “poeta peregrino”, prisioneiro do próprio coração. Sharlene Serra, essa guerreira, usa linguagem clara para contrapor infância e vida adulta, denunciando como o mundo burocrático arquiva sonhos e sorrisos, enquanto reivindica o direito de “brincar de existir”. Já Élle Marques, pastora, temente a Deus, condensa perdas e perdão em poucos versos, confiando na força da sugestão: a saudade é rearrumada na memória, a dor permanece, mas encontra um rito íntimo na espiritualidade e na forma breve.
No poema de Marconi Caldas - autor de imortais obras, inclusive a que se lê, "Somos todos D. Quixotes/em busca de Dulcinéias" - neste, agora publicado, emerge um gesto de celebração amorosa que converte Gabriela (filha de sua prima Cristina Felix Marão Matins) em um emblema de renovação coletiva: a imagética de movimento e o refrão exaltado elevam a experiência afetiva à condição de respeitada e querida da família. A leitura relembra ainda o peso histórico do autor, poeta, deputado e fundador da Academia Maranhense dos Novos, cuja dicção popular, religiosa e emotiva liga ação política, memória e festa, transformando a homenagem pessoal em rito comunitário.
Muitas saudades deixou Marconi Caldas. Mas suas obras ficaram!
Vamos às obras, Urbi et Orbi...
LOURIVAL SEREJO
2084
Hoje conto para os
jovens o que
aconteceu naquele
ano de vinte
quando o mundo
parou sem entender
e cada qual se
refugiou em casa
usando máscaras
pra não morrer.
****
JOSÉ NERES
Vozes do chão
Todas as pedras deste antigo chão
Guardam lembranças que não voltarão
Guardam os sopros de revolto vento
Que se desdobram nas dobras do tempo.
Caso escutemos com muita atenção
Os sons vindos de cada casarão
Ouviremos mais que tristes lamentos
Ouviremos vozes e esquecimentos
Como se fossem uma lenda ou oração
A lembrar Mãe Calu e a escravidão
Passando por mais de dez mil tormentos
Revivendo todos os sofrimentos
Que hoje são cantados a voz e violão
Com lágrimas que vêm do coração.
****
ALEX BRASIL
Deus me falou
Deus me falou,
eu era ainda um menino,
pra rimar espinho e flor,
eu seria um poeta peregrino,
nesta viagem sempre ida;
sem chegada, sem partida;
só amar e sofrer na vida.
Deus me falou
do demônio ao meio-dia,
dos olhos tristes do meu amor,
dessa branca poesia,
quando ela partiu e minha alma chorou.
Deus me falou,
por um anjo (mensageiro)
da minha sina-solidão,
sem régua e aritmética;
que eu não seria engenheiro:
seria apenas um poeta,
da poesia prisioneiro,
carregando um imenso coração.
****
SHARLENE SERRA
Adultecemos
Um dia,
brincávamos de futuro,
sem pressa de chegar.
O chão era céu,
e o tempo, um amigo que não sabia contar.
Depois,
veio a pressa
as certezas nas incertezas,
Guardamos os sonhos
em pastas,
arquivamos os sorrisos nas gavetas.
Adultecemos.
sim! Adultecemos!
E sem perceber,
crescemos por fora
e diminuímos por dentro.
Mas às vezes,
em um riso distraído,
e o abraço de vento,
a criança em nós desperta
e lembra
que viver
também é brincar
de existir.
****
ÉLLE MARQUES
Perdão
Perdoei
Teu silêncio
Tua recusa
Tua partida
Meu ego afundou
Escondi a saudade
como lembrança
dos dias em que os
Sinos tocavam
embalando meus sonhos
MARCONI CALDAS
Para Gabriela
Vai meu beijo
Vai meu sonho
Tudo en mim
Em busca dela.
Vai meu sorriso
De antanho
Vai minhas lágrimas
Tristonho
Menino, em busca dela.
Vai meu estandarte ao vento
De vendavais que já tive
Da salvação de nós todos
Que esse ritual revive.
Vai no céu minha gaivota.
Vai na nuvem neu anseio
Vai no espanto que creio.
Graciosa primavera...
Fica uma porta fechada
Do ontem que nunca tive.
Fica meu sonho intrincado
Fica neu prédio sombrio
Com sua janela aberta:
Salve, Salve. Eu lhes digo.
Agora é dia de festa
Agora é sóidia dela.
Somos todos semi-deuses
Se nos chegou GABRIELA.
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