
Hatsuo Fukuda chega à Plataforma Nacional do Facetubes como um reforço raro: jurista de carreira sólida — Procurador do Estado do Paraná, formado pela UFPR, com experiência em gestão pública — e, ao mesmo tempo, cronista de fôlego, acostumado a pensar o país para além dos autos. Seu olhar, treinado na responsabilidade judicial, na hermenêutica e nos dilemas da democracia, ganha no texto, na imaginação moral, no pulso social e na linguagem de quem escreve para ser compreendido. No blog "Dialeticos.com", ele exercita, com maestria, esse ponto de encontro entre técnica e vida, e é justamente esse cruzamento que amplia a relevância da sua chegada: o leitor passa a ter, aqui, um colaborador que domina o Direito público sem perder o ouvido para o cotidiano.
Portanto, neste texto de estreia, (abaixo), Fukuda começa por uma confissão íntima — ter viajado primeiro pelos livros — e transforma memória em chave crítica para falar das “grandes viagens” humanas: as marítimas, as históricas, as interiores. Ao eleger Patrick O’Brian como porto de partida, ele entrega uma leitura que valoriza pesquisa, documento, verossimilhança e o prazer narrativo, sem reduzir aventura a escapismo. O resultado é uma crônica-ensaio que combina erudição acessível e vigor de opinião: defende que boa literatura atravessa épocas, desmonta rótulos fáceis e mostra como a História, quando bem contada, revela o mundo de hoje. Para o Facetubes, a colaboração é uma oportunidade editorial evidente para oferecer ao público um novo destaque literário do Paraná, com trajetória profissional brilhante, capaz de iluminar cultura, sociedade e memória com a mesma firmeza com que atua no serviço público. Seja bem-vindo. (Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes — Mhario Lincoln, jornalista e editor-sênior).
Hatsuo Fukuda*
VIAJANTES
Um dos grandes prazeres da vida, sem dúvida, é viajar. Eu, infelizmente, na infância e adolescência só me foi permitido viajar na Biblioteca Pública, na seção infantil, primeiro, e, depois, a grande conquista: a seção infanto-juvenil. Em ambas fui um contumaz viajante, seja nas dezenas de histórias de Júlio Verne, ou Conan Doyle, ou da fabulosa coleção Terramarear, onde se velejava pelos Sete Mares em aventuras sem fim.
Assim, não é de se estranhar que, adulto, tenha me apaixonado pelas leituras de Patrick O’Brian, escritor inglês, que tem um fã-clube imenso mundo afora (algo como seis milhões de exemplares vendidos), em grande parte graças à saga dos heróis Jack Aubrey e Stephen Maturin, um, marujo intrépido, capitão da Real Marinha Britânica, outro, um médico de origem irlandesa e catalã, que percorrem os mares lutando pelo Império Britânico durante o período das Guerras Napoleônicas.
Os leitores da saga Aubrey-Maturin (21 volumes), sabem que as fabulosas aventuras ali descritas são, na maioria, histórias reais, por mais aventureiras e inverossímeis que pareçam, fruto de pesquisas de O’Brian em diários pessoais, diários marítimos, cartas e documentos da época. Como suas fontes históricas, O’Brian escrevia a mão, como se pode ver no 21.º livro da saga, inacabado e editado em edição fac-símile. O herói Jack Aubrey, em boa parte das histórias, se espelha na vida do nosso conhecido Almirante Cochrane, personagem que no Brasil (assim como no Peru e Chile), foi decisivo nas lutas pela independência. No último volume, Aubrey, após derrotar as forças espanholas no Peru e Chile, seguia para o Brasil (como Cochrane), onde, provavelmente se uniria às forças imperiais. Infelizmente, a morte de O’Brian nos privou de sua visão aventureira da história da independência do Brasil. Quem quiser ter uma idéia do rumo da história pode ler a narrativa de Cochrane no Brasil, “Narrative of Services in the Liberation of Chili, Peru and Brazil, from Spanish and Portuguese Domination”.
Mas falava do escritor O’Brian. Um leitor desavisado diria que é um escritor de aventuras para leitores velhos que se recusam a crescer. O que não é verdade, assim como seria absurdo dizer que Jane Austen escreveu romances para moças virgens casadoiras. A propósito, um dos volumes da saga Aubrey/Maturin é uma bela homenagem à Austen, retratando com a maestria austeniana a vida rural da Inglaterra no final do século XVIII e começo do século XIX. O pequeno detalhe eletrizante – subjacente ao texto – é que a idílica vida daquela pequena nobreza rural é retratada por um homem que percorreu a revolução psicanalítica, a filosofia existencial, a revolução feminista e sexual do século XX. E viu o nascimento e ocaso das revoluções sociais. E ultrapassou a todas estas revoluções, com o realismo dos velhos guerreiros aposentados da pérfida Albion (O’Brian, assim como John Le Carré e Ian Fleming, foi da Inteligência Britânica).
Bons livros não necessariamente dão bons filmes. Não é o caso de O’Brian. A saga Aubrey/Maturin, filmada por Peter Weir, que no Brasil recebeu o título de “Mestre dos Mares: o lado mais distante do mundo”, estrelando Russel Crowe no papel de Jack Aubrey, e Paul Bettany como Stephen Maturin, é um filmaço. Quando foi lançado recebeu dez indicações para o Oscar (incluindo filme e diretor). Seria melhor assisti-lo no cinema, em tela grande e som adequado – que ressaltariam os dois Oscar que afinal acabou recebendo, fotografia e som -, mas mesmo em tela menor não perde sua espetaculosidade. Eu, leitor contumaz de O’Brian, não consigo mais imaginar Aubrey e Maturin senão nas imagens de Crowe e Bettany.
Mas há os que não aderem incondicionalmente aos heróis Aubrey e Maturin. Suas acuradas e minuciosamente descritas manobras navais entediam alguns. Para estes, sua biografia de Picasso, além de poder ser lida como um romance, nos dá uma visão vívida do mundo e da época em que este viveu, além dos detalhes que fazem a delícia dos artistas e conhecedores das artes. Também a biografia de Sir Joseph Banks, naturalista que presidiu a Royal Society naquela época, nos mostra que os conhecimentos médicos que Maturin demonstra na série estão totalmente antenados com a ciência da época. The Road to Samarcand é uma saborosa história infanto-juvenil, na linha Indiana Jones. Uma delícia para velhos que se recusam a crescer. Finalmente, os romances Testimonies e The Catalans, publicados originalmente em 1952 e 1953, demonstram o escritor perfeito e acabado que era, antes da merecida fama e sucesso que fez anos depois. Destes romances, o mínimo que se pode dizer, é que se trata de literatura à altura dos grandes escritores da língua inglesa, na tradição de Jane Austen. James Joyce não faria melhor. Para nós, a vantagem é que O’Brian não partilhava a megalomania joyceana de destruir a literatura que conhecemos; queria simplesmente nos contar histórias de viajantes. Nos mares ou na vida.
A saga Aubrey-Maturin teve 5 volumes lançados no Brasil. Suponho que estejam disponíveis na Estante Virtual. Os demais 16, em inglês, podem ser adquiridos na Amazon Books. O Almirante Cochrane, em sua “Narrative of Services in the Liberation of Chili, Peru and Brazil, from Spanish and Portuguese Domination”, traça um escandaloso retrato das autoridades governamentais da época. Repugnante, mas nenhuma novidade. O meu exemplar comprei na Amazon. O filme de Peter Weir, “Mestre dos Mares, o lado mais distante do mundo” pode ser adquirido nas melhores casas do ramo.
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CONVIDADO
Hatsuo Fukuda é um jurista, Procurador do Estado do Paraná, formado pela UFPR, com atuação na área de direito público, discutindo temas como responsabilidade judicial e hermenêutica, sendo também conhecido por seus artigos e escritos em seu blog "dialeticos.com", onde aborda temas jurídicos e sociais, atuando também como cronista.
Principais características e atuação.
1 - Procurador do Estado: Exerce a função de Procurador do Estado do Paraná, com promoção na carreira.
Formação: Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Áreas de Interesse: Concentra-se em temas como responsabilidade judicial, discricionariedade judicial, democracia e hermenêutica jurídica.
2 - Escritor e Cronista: Escreve artigos e crônicas jurídicas e sociais em seu blog, o dialeticos.com.
Atuação Pública: Já atuou como Diretor Geral da Secretaria de Justiça, Trabalho e Direitos Humanos do Paraná, participando de iniciativas na área socioeducativa.
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