
Editoria de Economia e Estatística da Plataforma Nacional do Facetubes
Em agosto de 2025, Paraty voltou a funcionar como espelho. Não apenas da literatura brasileira, mas daquilo que o país escolhe enxergar e do que prefere manter fora de quadro. Na 23ª Flip, durante a mesa “O Brasil no Espelho”, a historiadora Ynaê Lopes dos Santos e o jornalista Tiago Rogero chamaram atenção para um dado que salta aos olhos antes mesmo de virar estatística: a “predominância de uma plateia quase exclusivamente branca”.
A frase que mais incomodou, justamente por parecer simples, foi também a mais concreta. Ynaê afirmou que a “estrutura impede que pessoas negras tenham acesso a viagens e hospedagens” para estar ali. A crítica desloca o debate do símbolo para a logística: quem consegue pagar deslocamento, pousada, alimentação, dias sem trabalhar, filas, tempo e a própria sensação de não pertencimento. E desmonta a explicação fácil de que “não foi porque não quiseram”; muitas vezes, é porque não dá.
O contraste fica ainda mais duro quando se olha o país fora da tenda. No Censo 2022, pretos e pardos somam 55,5% da população brasileira. Se maioria demográfica não se reconhece na plateia, há um problema de acesso, não de “interesse”. E o acesso é racializado também pela renda: em 2022, pessoas brancas tiveram rendimento médio habitual de R$ 3.273, enquanto pretos e pardos receberam R$ 1.994 (diferença de 61,4%). Paraty, com seus preços de alta temporada e pouca oferta barata no miolo do evento, vira filtro invisível.
O funil começa antes, na própria vitrine do mercado editorial. Uma pesquisa acadêmica de Gabriela da Costa Silva (UnB) encontrou apenas 154 autores negros em um universo de 2.650 autores nos catálogos de 15 editoras analisadas, entre 2011 e 2021, o que corresponde a 6% do total. Esse tipo de dado ajuda a entender por que, mesmo quando há mesas lotadas e autores negros em evidência, a circulação “natural” dos nomes e dos livros ainda depende de exceções, selos específicos e esforço extra de mediação.
As feiras, por sua vez, têm escala suficiente para virar política pública disfarçada de festa. A Bienal do Livro Rio 2025 recebeu 740 mil pessoas, vendeu cerca de 6,8 milhões de livros e reuniu mais de 700 editoras, segundo balanço divulgado pela organização. Isso significa que o “quem está no público” não é detalhe: é a medida real de quem está sendo alcançado quando o livro vira experiência de massa. Na cobertura da Revista Pernambuco, o cotidiano da Bienal aparece com filas, sessões de autógrafos e uma programação que inclui “Narrativas negras”, com lançamentos como o de Eliana Alves Cruz e o quadrinista Marcelo D’Salete. Há presença, há obra, há pauta — mas a pergunta que a Flip recolocou é outra: essa presença altera a composição social de quem consome e ocupa o espaço?
Na Flip, o tamanho do público também não é pequeno para uma cidade do porte de Paraty: cerca de 34 mil pessoas participaram da edição que homenageou Leminski, segundo balanço noticiado pela Agência Brasil. Ao mesmo tempo, a própria estrutura do evento mostra como a cidade se espalha em “camadas”: além da programação oficial, o PublishNews registrou uma planilha com mais de 620 eventos e destacou uma programação paralela com “mais de 600” encontros. A existência dessa imensa periferia do evento é uma pista: onde há gratuidade, circulação de coletivos, ocupações e curadorias comunitárias, costuma haver também outro público possível.
O problema, então, não se resolve apenas com “convidar mais autores negros” — embora isso seja indispensável. Ele exige uma engenharia de acesso: transporte subsidiado a partir de periferias e cidades próximas, parcerias com redes públicas de ensino, hospedagens solidárias, programação de bairro com infraestrutura equivalente, credenciais e filas pensadas para quem trabalha, comunicação direcionada e contínua (não só na semana do evento), e medição transparente de público por recortes sociais. Sem medir, a sensação vira destino; com dados, o diagnóstico vira cobrança.
E se perguntasse: quantos livros de autores negros foram lançados nas principais feiras em 2025, infelizmente não teria resposta porque não há, nas fontes públicas consolidadas, um levantamento nacional único que some lançamentos por raça/identidade autoral em todos os grandes eventos — o que, por si, já é parte do apagão informacional. O que existe são registros fragmentados e exemplos verificáveis: Ynaê lançou “Irmãs do Atlântico” na própria Flip; na Bienal do Rio, houve lançamentos com protagonismo negro e parcerias com editoras especializadas, como a Malê no projeto citado na cobertura local. Para transformar isso em série histórica e comparação entre feiras, seria necessário que curadorias, organizadores e entidades do livro padronizassem relatórios e disponibilizassem bases abertas.
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