EUGES LIMA
Historiador, professor, bibliófilo, palestrante e membro do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS), Portugal. Membro efetivo e ex-presidente do IHGM.
Em 21 de fevereiro de 1857, o jornal Publicador Maranhense anunciava, para a tarde do dia seguinte, domingo de Carnaval, a realização de um “Grande Passeio Carnavalesco”, que seria percorrido em carros e a cavalo, sob a organização da então denominada Sociedade Carnavalesca.
O ponto de concentração, a partir das quatorze horas, foi o Teatro São Luiz, atual Teatro Artur Azevedo, localizado na Rua do Sol. O passeio teria início às dezesseis horas, seguindo um circuito que percorria importantes vias da cidade: Rua do Sol, Rua de Nazaré, Rua da Palma, Rua de Santana, Rua do Passeio, Rua Grande, Largo do Carmo, Rua da Paz, Quartel do 5.º Batalhão de Infantaria (atual Biblioteca Pública Benedito Leite e Praça do Panteon) e Rua dos Remédios (atual Rua Rio Branco), retornando pelo mesmo trajeto até o ponto inicial. Esse era, portanto, o circuito carnavalesco da São Luís em meados do século XIX.
É a partir da segunda metade do século XIX que surgem, em São Luís, as chamadas Sociedades Carnavalescas, configurando-se como uma alternativa de apropriação do Carnaval pela elite ludovicense. Tal movimento se apresentava em clara oposição ao entrudo e ao Carnaval popular de rua, praticados por libertos, escravizados, ex-escravizados e pelas camadas populares da cidade.
A origem do Carnaval no Brasil colonial está ligada ao entrudo, manifestação marcada por brincadeiras e folguedos que ocupavam as principais ruas das cidades. Os foliões, frequentemente mascarados ou fantasiados, utilizavam bisnagas e limões de cera recheados de líquidos diversos e águas de cheiro, lançados uns contra os outros em meio a grande algazarra. Essas práticas ocorriam durante os quarenta dias que antecediam a Páscoa.
Em um domingo gordo de Carnaval, no dia 12 de fevereiro de 1899, o periódico satírico O Abelhudo, uma espécie de folha crítica dos costumes e da política ludovicense, assim se manifestava:
“Hoje é [...] o grande dia destinado à folia, à ratice, à patuscada; é o inolvidável dia do célebre e burlesco ‘você me conhece?’; o impagável dia em que devemos esquecer tudo quanto há de grave, triste e sério neste mundo de misérias e nos lembrar somente das brejeirices, das momices, dos cantos alegres, das danças patuscas, de tudo, em suma, quanto possa divertir a humanidade.”
Além do entrudo e do Carnaval de rua, já se fazia presente, na São Luís do final do século XIX, um outro modelo de Carnaval, de perfil marcadamente elitista, inspirado nos carnavais veneziano e parisiense. Nele se destacavam os préstitos, como os Arautos de Momo, os bailes de máscaras, o corso, o Zé-Pereira, as batalhas de flores e as sociedades carnavalescas, a exemplo da Mephistopheles.
Essas sociedades eram responsáveis pela organização dos bailes, corsos, préstitos, batalhas de flores e demais diversões carnavalescas, tanto em salões e clubes quanto nas ruas da cidade. Estabelecia-se, assim, um novo padrão de Carnaval, pautado por regras, planejamento, disciplina e ideais de urbanidade.
As tradicionais bisnagas com líquidos malcheirosos e os limões de cera, característicos do entrudo, já não eram tolerados nesse novo modelo. Nesse sentido, registrava o Publicador Maranhense em 1857:
“A Sociedade Carnavalesca roga ao respeitável público que, por obséquio, não lhes lancem água e pó, pois só se destinam a brincarem com confeitos e flores.”
Observa-se, portanto, a progressiva apropriação do Carnaval pelas elites, marcada pela construção do chamado Carnaval “civilizado”, que se colocava em oposição à desordem, à permissividade e à espontaneidade do entrudo. Mesmo quando ocupava ruas, largos e praças, esse novo Carnaval o fazia sob critérios rígidos de organização, horários e normas de civilidade.
Nesse processo, o entrudo passou a ser cada vez mais malvisto pelas classes abastadas e, gradativamente, marginalizado e criminalizado pelas autoridades policiais e administrativas. Desse modo, redefinia-se o sentido do Carnaval em São Luís — e também em outras grandes cidades brasileiras — na virada do século XIX para o XX, refletindo as tensões sociais, culturais e simbólicas próprias de uma sociedade em transformação.
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