
Editoria de Análise Crítica da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln
(...) minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre, mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria. Só horas depois é que veio a salvação. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim, e numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de oito anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa (...). Fragmentos da crônica "Restos de Carnaval", de Clarice Lispecto.
O que pensar numa terça-feira-gorda de Carnaval? O que poderia, por exemplo, escrever Clarice Lispector sobre o Carnaval brasileiro? Pois bem! Foi com essa premissa que tudo começou. Então foi-se em busca de um dos clássicos da crônica brasileira pertinente. “Restos de Carnaval”, uma aula de como se pode escrever sobre fatos ruidosos, com aquele toque íntimo de quem vive e sente a cuíca melosa do coração ou a água suja que lhe jogaram – como entrudo - na cara.
Então, vejamos: na época em que Clarice Lispector levou “Restos de Carnaval” ao espaço da crônica, ela deslocou o eixo do que se esperava do Carnaval na literatura, para o jornal. Em vez da celebração ruidosa, apareceu a ressaca íntima do sonho, a festa vista de dentro de uma infância pobre, com a mãe doente ao fundo e a rua funcionando como palco e tribunal. Isso teve um efeito quase silencioso, mas decisivo.
A crônica mostrou que o Carnaval, antes de ser cartão-postal nacional, é também um lugar de desigualdade, desejo e ferida, e que a verdadeira notícia daquele calendário não estava no desfile, mas no que sobra no coração quando a música passa.
O texto começa como quem pede licença para lembrar. Clarice trabalha com a recusa e a confissão, como se a memória tivesse pudor, e logo faz o leitor perceber que aquele Carnaval não é “da cidade”, é de uma menina que não se sente convidada para a alegria. A graça social do início está no detalhe cru, doméstico, quase humilhante. A fantasia vem do improviso, do papel, do que a casa permite. A rua, que deveria libertar, primeiro expõe. A criança entende cedo que existe um tipo de alegria que custa dinheiro, e que a pobreza não proíbe só o brinquedo.
Quando a narradora fala do medo das máscaras, a crônica abre uma janela que vai além do Carnaval. O pavor infantil não é apenas de papelão e tinta. É o temor do desconhecido que invade, do adulto que brinca com a própria identidade, do corpo que se torna outro. Aqui, Clarice faz o Carnaval tocar numa pergunta filosófica antiga, a tensão entre aparência e essência. A máscara, que em tese liberta, também assusta porque suspende as garantias. E é justamente nessa suspensão que nasce a epifania clariciana. A festa vira laboratório do eu, um breve experimento de ser diferente e, ao mesmo tempo, ser visto.
O ponto de virada é quando “houve um carnaval diferente dos outros”, e a menina passa de espectadora a personagem, ainda que por instantes. É um rito de passagem sem solenidade, mas com potência. O papel crepom, frágil, vira segunda pele. O confete e a serpentina, que para os outros são rotina, nela operam como consagração.
Há um instante em que o mundo, ao redor, parece concordar com a fantasia. Filosoficamente, é difícil não lembrar o peso do olhar do outro em Sartre. A identidade aparece não como uma coisa que a gente guarda, mas como algo que nos acontece quando alguém nos reconhece. A menina não se sente apenas fantasiada, ela se sente autorizada a existir dentro do coro.
Só que Clarice não entrega a cena como triunfo. Ela devolve o Carnaval ao seu nome verdadeiro, uma alegria que termina. A beleza do texto está em não romantizar. A mesma rua que dá a cor, devolve o cinza. A mesma fantasia que eleva, se desfaz. Por isso “restos” não é palavra de efeito, é conceito.
A crônica afirma que a experiência humana quase sempre vem em migalhas, e que são essas migalhas que sustentam a memória. Há algo de estoico nisso, no sentido mais nobre. A menina não controla a doença da mãe, não controla o dinheiro, não controla a estrutura social. O que ela consegue é colher um pequeno momento de intensidade e guardá-lo como força. É uma ética do possível.
Enfim, socialmente, “Restos de Carnaval” desmonta a ideia confortável do Carnaval como democracia automática. A festa suspende hierarquias por algumas horas, como já observaria Bakhtin ao pensar o “carnavalesco” como inversão temporária, mas Clarice mostra o limite dessa inversão.
A criança pobre entra na folia por empréstimo, por improviso, e mesmo assim paga o pedágio emocional de saber que está por um fio. A crônica vira, então, documento sensível do Brasil urbano, onde a alegria popular convive com privações muito concretas e onde a infância aprende cedo a negociar fantasia com realidade. Ou seja, tudo deixa doloridos (ou não) vestígios.
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