
Maria do Rocio, convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.
O moço não enxergava sequer a calçada sob os seus pés. Nem quem seguia ao seu lado… ou os desníveis que o faziam tropeçar. Não distinguia, tampouco, o sim do não.
Nunca ousara prender-se aos olhos dela por mais de dois segundos. É certo que, se demorasse ali, estaria perdido na sedutora escuridão envolta por riachos cheios de motivos.
Por isso, afastava-se. A moça entendia: amores navegam em águas profundas. Assim, já não esperava que ele conhecesse a sua ternura, capaz de saciar a alma de uma multidão. Antes, temia que o pobre se afogasse, pois só sabia nadar em poças rasas.
Custou caro para que, acima de tudo, fosse atenta ao amor por si. O tempo parou, sem hora marcada. Dias sutis nascem de repentinos gestos de Deus.
Avançaram as sombras, seguidas de uma bondade infinita, em que o carinho se fez força bruta. Ela resistiu. Foi atrás dos muros sombrios, entre mudas de afetos imperfeitos, que compreendeu: era a única protagonista dos cuidados com a própria vida – mente, corpo, espírito, coração.
Não atravessara distâncias sem fim para naufragar no vazio do desvalor. Havia nela a permanência, a nobreza das pedras raras, algo que os anos apenas lapidavam, matéria de brilho contido. Seu sorriso não se apagaria. Nem a sua paz.
Solitária, procurou-se no espelho. O reflexo de seus luzeiros castanhos a guiava. Fugiria e, como um grão de areia, esconder-se-ia dentro de uma concha, no fundo do oceano.
No tempo certo saberá: sempre foi pérola.
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