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O destino do tocador de trompete da Rua Grande, centro da cidade de São Luís-Ma

Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

07/03/2026 às 19h51
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln (autor)
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(Foto original google).
(Foto original google).
*Mhario Lincoln c/editoria-geral da Plataforma Nacional do Facetubes.
Há figuras que a cidade não registra em placa, nem em bronze, nem em fotografia oficial, mas que permanecem no ouvido coletivo como se fossem sino antigo.
Em São Luís, por muito tempo, existiu um deficiente visual que ganhava o pão tocando seu trompete em plena Rua Grande. Ele não via vitrines, nem letreiros, nem o azul do céu sobre as fachadas. Ainda assim, parecia enxergar o essencial, porque o som que tirava daquele metal tinha a nitidez de quem sabe onde dói e onde consola.
Até pensei, na época, em fazer uma entrevista com ele e publicar no jornal onde trabalhava, o “J.Pequeno”. Mas, precisava de algo mais do que só aquela imagem pálida sob o sol escaldante, no meio da Rua Grande (centro comercial da cidade). Alguma coisa, então, acabou me ajudando a encontrar o fio da meada.
Certa ocasião, lá pelas madrugadas, na minha velha São Luís, depois da meu trabalho no "Jornal Pequeno", eu costumava seguir para os abrigos da Praça João Lisboa. Ia tomar cerveja casco escuro, estupidamente gelada, para lavar da garganta, a poeira das notícias de morte e o cansaço de fechar páginas que mostravam o último degrau da insensatez humana.
 
Foi num desses horários - a madrugada em que a cidade parece mais verdadeira, porque se despe do teatro - que ouvi a história, não contada por acadêmicos nem por cronistas de gabinete, mas por um personagem da noite, desses que rondavam o abrigo da João Lisboa e conheciam o mapa humano de São Luís pelo faro e pelo silêncio.
Na época, estavam comigo Ribamar Bogea, João Batista do Lago e Cunha Santos Filho. A conversa tinha o peso leve da amizade e o cheiro das coisas simples. Foi então que aquele homem, com a gravidade de quem fala de um morto que ainda anda por aí, contou. E eu não sei se gravei tudo. Sei que alguma coisa ficou.
Pois bem! Puxando pela memória, ele disse que o músico nasceu cego no interior. Ninguém lhe apresentou a leitura das notas, ninguém lhe ensinou a ver a pauta. Ele aprendeu a tocar de ouvido, como quem aprende a sobreviver pelo vento.
Ainda jovem, fez bicos em vários conjuntos musicais no interior onde morava.
Até que um dia alguém o trouxe para São Luís, com promessas de emprego. Promessa, nessa terra, às vezes é só um nome bonito para o abandono. Não deu certo. E o que se esperar de um homem que chega sem proteção, sem família por perto, sem uma rua que o reconheça? Desesperado e com fome, lá foi ele para a região da Praia Grande, onde o comércio era abundante, onde o burburinho parecia sempre ter futuro. Ali fez um bico aqui, outro ali, até descobrir que a cidade, como o mar, tanto pode embalar quanto pode engolir. Mas, antes de continuar, sabe quem contou essa história para nós três?
Outra figuraça ludovicense: Rei dos Homens, na verdade, seu nome de batismo era Washington Godinho de Oliveira recebido ao vir ao mundo, no dia 17 de março de 1930. Ele nasceu onde está edificada a Escola Técnica Federal do Maranhão. Na época aquela área conhecida como "Sítio do Brigadeiro".
Claro não posso deixar de falar que ele era corpulento, com 1,85m de altura. Mas totalmente inofensivo, a ponto de passar quase duas horas contando para gente a história do músico do trompete, da Rua Grande.
Mas onde eu estava mesmo? Sim: Rei dos Homens contou que lá mesmo pela Praia Grande, o músico encontrou Maria Tereza. E nessa parte da história ele disse (mais ou menos): Maria Tereza não foi apenas uma mulher. Foi uma estação de descanso para um homem cansado de ser empurrado de canto em canto. (Eu poetizei um pouco).
Disse mais que, com ela, por algum tempo, a vida deixou de ser só contagem de moedas de pequeno valor e passou a ser também uma espécie de casa, mesmo que pequena, mesmo que frágil. Do encontro nasceram filhos, e com os filhos veio aquela mistura de luz e peso que só quem já amou entende.
Contudo, o amor, quando não encontra abrigo, se transforma em vento forte. Houve separação. Houve o desmantelo de uma vida que já era difícil. Os filhos, ainda pequenos, foram parar nas ruas como se a cidade os tivesse adotado pela crueldade, e não pelo cuidado. E o homem, que já atravessava o mundo sem visão, começou a atravessar também sem chão.
 
Então ele voltou para a Rua Grande. Voltou para tocar trompete como quem reza sem saber as palavras certas. Tocava para viver a esmola dos transeuntes, e reviver também um pouco de si mesmo. Quem passava via um homem, um instrumento, e uma sacolinha pendurada no pescoço, para moedas. Mas ali havia mais.
Havia um pai que contava o próprio destino, havia um filho do interior que aprendera a amar no meio da promessa quebrada, havia um cidadão que a cidade usava como paisagem.
Diziam que após a sepaação, só a filha mais nova ficou com ele. Tinha uns 16 anos, quando o pior de tudo aconteceu, não bastasse já todo o drama que vivera até ali.
Abro um parêntese para dizer qu quando o Rei dos Homens chegou nessa parte, ele franziu a testa, esbugalhou os olhos e disse zangado: “foi aí que entrou o aproveitador. Aquele miserável que se eu encontrar ele, vou tirar as tripas”. (Nas palavras dele).
E continuou enquanto eu abria a terceira cerveja e distribuía aos amigos, em cima do balcão de azulejos.
Com raiva continuou: “Esse homem se aproximou, conquistou a menina filha do deficiente, e, por tabela, mudou para a choupana deles”, completou bufando o contador de histórias.
A verdade é que esse “aproveitador”, aos poucos, foi tomando quase setenta por cento do dinheiro que ele ganhava na rua. E o músico, cego, começou a ser roubado duas vezes. Roubado no bolso e roubado no direito de proteger a própria filha. Aqui, a história desaba num silêncio que não cabe em música.
O deficiente morreu sem ver a gravidez da filha. E a filha, mal começando a vida adulta, acabou morrendo de parto. E o filho morreu dias depois, no Hospital da Cruz Vermelha, na Rua do Passeio.
 
Quando ouvi isso, naquela madrugada, a cerveja perdeu a graça e a praça João Lisboa pareceu mais fria. Então vi que aquelas páginas que eu escrevia para o “Jornal Pequeno”, nessas reportagens que eu fazia ao lado do jornalista policial Eloi Cutrim, não eram apenas sobre “presuntos – gíria para assassinados, atropelados, mortos, indigentes....”, mas, a mais pura realidade que a cidade vivia, longe das máscaras de uma sociedade muito distante da verdade do cotidiano ludovicense.
Talvez a maior cegueira não seja a daquele músico. Talvez seja a nossa, quando conseguimos atravessar uma tragédia sem nem reduzir o passo...
Jornalista Mhario Lincoln / Plataforma Nacional do Facetubes - Literatura, Arte e Música 
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Agildo Ribeiro LimaHá 3 meses Codó-MAUm repertório infindo. São Luís é mágica.
Antonio Guimarães de OliveiraHá 3 meses São LuísMemórias de nossa cidade, caro presidente Mhário Lincoln! Obrigado!
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