
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln
(...) a pergunta decisiva deste 8 de Março é menos sentimental do que estrutural: o Brasil já admite a excelência feminina, mas já aprendeu a repartir com ela o poder? Enquanto essa resposta for apenas parcial ou lírica, nem tudo será poesia e romance na vida das mulheres brasileiras”.
O 8 de Março, reconhecido pela ONU, como o Dia Internacional da Mulher, não deveria ser comemorado somente com gestos florais, postagem de ocasião ou verniz cerimonial. Isso porque, a data também faz sentido quando medida na distância entre presença e poder.
O Brasil já aprendeu a conviver com mulheres nas universidades, nos livros, nos consultórios, nos tribunais e nos escritórios. O que ainda não aprendeu, por completo, é a entregá-las, na mesma proporção, a presidência, a relatoria, a cadeira vitalícia, a chefia e o comando.
Essa cobrança não nasceu ontem. Em 1791, Olympe de Gouges reagiu à Revolução Francesa exigindo que os direitos proclamados para o homem alcançassem também a cidadã. Em 1792, Mary Wollstonecraft desmontou a tese da inferioridade natural feminina e apontou a educação como eixo da igualdade.
Depois vieram as sufragistas e, no Brasil, Bertha Lutz e tantas outras, lutaram muito até que o voto feminino fosse enfim assegurado em 1932. O percurso histórico é claro. A mulher não pediu ornamento. Pediu lugar, instrução, voto, voz e consequência.
No campo literário e cultural, o paradoxo brasileiro continua eloquente. As mulheres leem mais, compram mais livros e sustentam uma fatia decisiva do consumo cultural, mas o país ainda não oferece uma série pública, mensal e nacional, que permita comparar com rigor, ao longo dos últimos dez anos, quantos lançamentos saem por autoras e quantos por autores.
O que os dados disponíveis permitem afirmar – com pesquisa em fontes realistas - é outra coisa. O velho centro editorial foi historicamente masculino, enquanto a presença feminina cresce com força no público leitor, no consumo; contudo, muito mais pela autopublicação. Em outras palavras: a mulher já é força de sustentação do livro no Brasil, mas a estatística pública ainda a enxerga de forma incompleta. Sim, de forma incompleta. E como pode?
As academias de letras revelam esse atraso de modo quase simbólico. Mesmo que a editoria do Facetubes não tenha encontrado números sobre a quantidade feminina em sodalícios, sabe-se de antemão que os percentuais estão muito abaixo dos 50/50.
Mas o retrato verificável da Academia Brasileira de Letras já basta para expor a lentidão histórica: a ABL tem 40 cadeiras e, na data da eleição de Ana Maria Gonçalves, em julho de 2025, havia apenas cinco mulheres no quadro atual, algo próximo de uma mulher para cada sete homens. A própria eleição dela foi histórica por uma razão desconfortável: foi somente a 13ª mulher escolhida em toda a trajetória da instituição.
Enquanto isso, existe, com nitidez, um número respeitável de mulheres aptas a assumiram as academias. É simplesmente irrefutável! Veja: as mulheres leem mais do que os homens e, entre consumidores de livros, também aparecem em maioria.
Portanto, tal fato relevante, deveria reordenar catálogos, prêmios, convites para feiras, curadorias, bancas de premiação e conselhos editoriais. Quem sustenta o mercado não pode continuar sub-representado nos postos que decidem o próprio mercado.
Por outro lado, a mulher carece, e muito, de representações em órgãos decisórios. Nos sindicatos e entidades de classe, a mesma lógica se repete. Estudo recente sobre centrais e confederações mostrou que os cargos máximos ainda permanecem majoritariamente masculinos, apesar da larga presença feminina no mundo do trabalho.
É por isso que este “8 de Março” precisa ser lido menos como cerimônia lírica e mais como balanço de comando. O Brasil avançou em escolarização, profissionalização e presença pública, mas o centro de decisões ainda responde devagar. O que fazer, então?
Primeiro, disputar a arquitetura do poder e não apenas o trabalho invisível que mantém o poder funcionando. Isso significa mais candidaturas competitivas, mais chapas, mais presidências, mais conselhos editoriais, mais direção de hospitais, mais bancas, mais cadeiras acadêmicas, mais comissões estratégicas, mais lideranças sindicais e mais decisões nos orçamentos que definem prioridade.
Segundo, obrigar as instituições a se explicarem em público sobre metas de paridade, critérios transparentes de promoção, mentoria formal, acompanhamento anual, listas abertas de nomeações e políticas que não tratem liderança feminina como exceção decorativa. Igualdade real não nasce de gentileza. Nasce de regra, permanência e método.
Para reforçar essa ideia de forma realista, a editoria do Facetubes pesquisou alguns livros que foram fundamentais para mudar alguns pensamentos globais acerca da força da mulher. E para que essa ideia se torne real ainda mais, não é necessário solfejar apenas. Mas sim, cantar em voz firme e isso só se dá através da leitura e do aprendizado.
Portanto, quem quiser compreender esse debate em chave brasileira pode começar por quatro livros incontornáveis. Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, de Nísia Floresta, obra pioneira na defesa da educação e dos direitos femininos no país. Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, que transformou experiência e escrita em força histórica. Feminismo em Comum, de Marcia Tiburi, que traz a discussão para o terreno político do presente. E Explosão feminista, de Heloisa Buarque de Hollanda, que ajuda a entender como cultura, universidade, arte e ativismo se cruzaram na última década.
Ao fim, a pergunta decisiva deste “8 de Março” é menos sentimental do que estrutural: o Brasil já admite a excelência feminina, mas já aprendeu a repartir com ela o poder. Enquanto essa resposta for apenas parcial, nem tudo será poesia e romance na vida das mulheres brasileiras.
Referências
1. ONU e marco histórico do 8 de Março; reconhecimento formal no âmbito das Nações Unidas; raízes intelectuais da igualdade moderna em Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges; voto feminino no Brasil em 1932 e papel de Bertha Lutz na tradição sufragista brasileira.
2. Leitura e consumo de livros no Brasil: mulheres leitoras em proporção superior à dos homens na Retratos da Leitura 2024 e também em 2019; presença feminina majoritária entre consumidores de livros e entre compradores frequentes no Panorama do Consumo de Livros 2025.
3. Mercado editorial e autoria feminina: ausência de série pública mensal nacional com recorte por sexo dos autores; como aproximação, estudo clássico sobre romances publicados por grandes editoras mostra predominância masculina no centro editorial, e análise do PublishNews com dados do Clube de Autores aponta 44% de publicações femininas na autopublicação em 2022, alta de 10% sobre 2021.
4. Academia Brasileira de Letras: a ABL é composta por 40 membros efetivos e perpétuos; em julho de 2025, Ana Maria Gonçalves tornou-se a 13ª mulher eleita e a quinta do quadro atual de acadêmicos.
5. Parlamento brasileiro: representação feminina atual na Câmara dos Deputados e no Senado Federal em patamares abaixo de um quinto das cadeiras.
6. Justiça e Direito: participação feminina de 36,8% na magistratura brasileira em 2024; Perfil ADV, da OAB/FGV, apontando advocacia majoritariamente feminina, com 50% de mulheres e 49% de homens.
7. Medicina e engenharia: Demografia Médica 2025 indicando mulheres como maioria entre médicos no Brasil, com 50,9%; sistema Confea/Crea com cerca de 20% de profissionais mulheres e debate institucional sobre liderança feminina, inclusive com dado de 19% das profissionais registradas em cargos de liderança.
8. Sindicatos e coaching: estudo de 2025 sobre centrais e confederações sindicais apontando média de 24% de mulheres nos cargos de liderança com poder decisório singular nas vinte confederações analisadas; ICF Global Coaching Study mostrando 72% de mulheres entre coach practitioners.
9. Frases citadas no texto: declaração de Cármen Lúcia sobre o direito de falar; formulação institucional do CNJ sobre igualdade ainda restrita à lei; manifestação da OAB sobre sociedade mais igualitária e país mais solidário.
10. Livros citados ao final: Nísia Floresta e a obra pioneira Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens; Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo; Marcia Tiburi e Feminismo em Comum; Heloisa Buarque de Hollanda e Explosão feminista.
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