
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Há casos em que um detalhe aparentemente mínimo ilumina um clássico inteiro. O resíduo “Cantagalo” que sobrevive em Dom Casmurro pertence a essa categoria. Antes do romance chegar ao público, Machado de Assis publicou, em 1896, no periódico República, o excerto “Um agregado”, texto hoje reconhecido pela crítica como uma antevisão decisiva do livro que viria a sair poucos anos depois.
Não se trata de curiosidade lateral, mas de pista concreta do modo como Machado reescrevia, deslocava cenários, aparava excessos e refinava a ambiguidade que faria de Dom Casmurro uma das narrativas mais inquietantes da língua portuguesa. Quando se coteja essa versão preliminar com a redação definitiva, aparecem mudanças que são tudo, menos decorativas. Na forma anterior, a família de Bentinho vivia na Rua do Resende, e não na célebre Rua de Matacavalos; além disso, a origem do deslocamento para o Rio estava em Cantagalo, e não em Itaguaí.
A hipótese de que a expressão “sua homeopatia de Cantagalo”, no capítulo 31, seja um vestígio dessa camada anterior do texto ganhou força justamente porque, na versão consagrada do romance, José Dias é apresentado como ligado a Itaguaí, enquanto “Cantagalo” surge ali como uma lembrança sem amarração explícita.
O que durante décadas pareceu um detalhe solto passa, então, a ser lido como marca material do processo de composição machadiano. O dado mais interessante é que esse pequeno “erro” não apequena Machado; ao contrário, humaniza sua oficina e engrandece sua arte.
Estudos recentes mostram que o excerto de 1896 alimenta, com alterações, trechos que depois se distribuiriam por capítulos centrais do romance, o que confirma que Dom Casmurro não nasceu de um só jato, mas de um trabalho rigoroso de redisposição narrativa.
Em outras palavras, o que ficou como lapso vale hoje como documento de criação. É uma fresta por onde se vê o escritor operando a passagem do rascunho vivo para a máquina literária quase perfeita do volume final. Também a própria data de nascimento do romance merece precisão. A bibliografia registra a edição com data de 1899, mas fontes editoriais e históricas observam que houve atraso de impressão e que os exemplares começaram a circular no Brasil apenas no começo de 1900; a tradição editorial fixou o 14 de março de 1900 como marco de lançamento.
Por outro lado, Machado é tão fantástico que a força de suas obras, no exterior tem crescido não apenas por causa do velho enigma de Capitu, mas porque sua escrita passou a ser relida com mais aparato crítico, mais traduções e maior atenção ao contexto histórico, social e formal.
Em 2020, uma nova tradução inglesa de Memórias Póstumas de Brás Cubas saiu pela Penguin Classics, com apresentação de Dave Eggers e repercussão na imprensa cultural anglófona; no mesmo período, pesquisas apoiadas pela FAPESP passaram a mapear de forma sistemática a tradução, a edição e a circulação transnacional da obra machadiana, enquanto estudos lembram que sua entrada no inglês foi tardia, só ocorrendo em 1952.
Nesse contexto, uma edição como Dom Casmurro Anotado (de onde a equipe da Plataforma pesquisou para elaborar este texto), ganha importância real.
Não apenas porque preserva o texto, mas porque devolve ao leitor o entorno perdido da obra, oferece aparato explicativo amplo e reincorpora materiais complementares que ajudam a enxergar o romance em movimento.
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