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O mês de março poderia ser isso também: não apenas o mês da voz que reivindica...

*Mhario Lincoln é jornalista, poeta e editor-senior da Plataforma Nacional do Facetubes.

12/03/2026 às 11h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Plataforma Nacional do Facetubes/Mhario Lincoln
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(Foto: MHL/GinaiFT).
(Foto: MHL/GinaiFT).

*Mhario Lincoln


O mês de março poderia ser isso também: não apenas o mês da voz que reivindica...

*Mhario Lincoln

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Talvez uma grande mulher não precise ser lembrada apenas por aquilo que o mundo discute em praças, tribunas e manchetes. Talvez haja, antes disso tudo, um território mais antigo, mais silencioso e mais decisivo, onde ela reina sem coroa e sem alarde. 

Um território que não grita, mas sustenta. Que não pede licença, mas floresce. E esse território tem cheiro de roupa limpa no varal, de café passado cedo, de lágrima escondida no canto do rosto, de mãos que afagam febres, de oração sussurrada no escuro, de abraço que não resolve o mundo, mas impede a alma de desabar.

Quando penso na mulher, penso primeiro nesse milagre discreto de permanecer inteira mesmo quando se reparte em mil. Penso nessa criatura que, tantas vezes, aprendeu a sorrir com o coração cansado para que os seus não desaprendessem a esperança. Há (ainda) nessas, ontem, hoje e sempre, uma força que não nasceu da dureza, mas da ternura. 

Uma fibra que não se exibe como espada, porque prefere ser amparo. A mulher, em sua grandeza mais funda, não é apenas quem gera filhos. É quem gera repouso. Quem gera coragem. Quem gera sentido. Quem transforma a casa em abrigo e a vida em possibilidade.

E quem não se lembra daquela mulher nobre encostada na porta, esperando a volta de quem ama, em silêncio. Da voz chamando pelo nome inteiro quando o medo era maior que a febre. Do pano no ombro. Do conselho simples. Da bronca justa. Do olhar que adivinhava a tristeza antes mesmo que a tristeza dissesse seu nome. 

A gente cresce, envelhece, muda de cidade, troca de roupa, de sonhos, de endereço. Mas há um quarto dentro de nós onde a mãe continua arrumando a cama da infância, abrindo a janela da manhã e deixando entrar, de mansinho, uma luz que nenhuma ausência apaga.

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Há mulheres que foram solo firme. Outras, roseiras. Algumas tinham o perfume de sabonete misturado ao cheiro de chuva. Outras cheiravam a cozinha, a livros guardados, a quintal molhado, a roupa passada, a ovo no avental, a fé. 

E como é extraordinária a simplicidade desse amor. Porque ele não chega com gritos de guerra. Não chega vestido com uniformes de luta. Não exige monumentos. O amor de mãe quase sempre vem em coisas pequenas, e por isso mesmo eternas.

"O cheiro dela
ficava nas fronhas como se a paz
também pudesse dormir comigo.

A bondade dela
não fazia discurso,
seu amor não pedia resposta;
bastava que eu nela pensasse,
para me salvar da tristeza". MHL

Talvez por isso a mulher, em sua expressão mais comovente, seja também uma filosofia viva contra a brutalidade do mundo. Num tempo que confunde grandeza com barulho, ela continua provando que o essencial ainda mora no gesto pequeno, mas nobre. Na mão que parte o pão. No colo que não julga. Na delicadeza que resiste. Na saudade que, mesmo ferindo, continua sendo uma forma de gratidão. Porque só sentimos tanta falta daquilo que um dia nos amou de verdade.

Um amor que se manifesta no falar com Deus bem beixinho, no salmo repetido, no pedido feito pelo filho atrasado, pela filha entristecida, pelo marido adoecido, pela irmã distante, pelo neto dormindo. 

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Porque Deus, para muitas mulheres, nunca foi teoria. Foi presença. Foi sustento. Foi um diálogo secreto no meio da luta. E talvez seja por isso que o consolo divino se pareça tanto com o consolo da mulher-materna: ambos sabem tocar sem ferir, corrigir sem humilhar, permanecer sem invadir.

A mulher-guerreira-mãe ama as raízes porque sabe que sem raiz não há flor que aguente o vento. Ama o cheiro de chuva porque reconhece no céu molhado a mesma promessa que existe no coração depois do choro. Ama o abraço porque entende o que muitos esquecem: há dores que não pedem explicação, pedem encosto. Ama até a saudade, essa hóspede cruel e doce, porque a saudade é o preço mais alto que pagamos por termos vivido algo belo.

E então. Março poderia ser isso também. Não apenas o mês da voz que reivindica, mas o mês da alma que fecunda. O mês da mulher que ama sem espetáculo. Da mulher que protege sem anunciar o sacrifício. Da mulher que, quando mãe, torna-se geografia do cuidado; e, quando somente guerreira, continua sendo mãe de virtudes, de projetos, de delicadezas, de jardins invisíveis. Mãe da terra. Mãe da concórdia. Líder daquele pedaço de mundo que só não ruiu porque ela, em algum canto, permaneceu de pé.

No fim, talvez a humanidade ainda sobreviva menos por causa dos grandes impérios e mais por causa dessas mulheres que, em silêncio, impediram que o amor desaparecesse. 

Mulheres que fizeram da simplicidade uma forma de beleza e da bondade uma arquitetura secreta da paz. Mulheres cujo coração bate como quem embala o mundo no colo, mesmo quando o mundo não merece colo algum.

Mhario Lincoln, poeta e jornalista

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Maria Cristina Zimmermann Tramontin Há 3 meses Santo Antônio da PlatinaParabéns pelas palavras desse belo texto que retrata o amor eterno, que Deus abençoe.
Elizabeth CasimiroHá 3 meses Cambé ParanáMeu grande cunhado Mhario! Me aposso do direito de falar em nome de infinitas Mulhreres-Mães. Você estava com seu coração iluminado pelo amor de nossas Mães quando escreveu esse texto. Conseguiu colocar em palavras o sentimento de um filho que agradece à sua mãe a oportunidade de nascer,crescer e aprender a Amar, com 'A' maiúsculo. Nossas Mães agradecem a homenagem Abraço carinhoso, apertado e demorado como todo abraço deveria ser, para transmitir o que há de bom em nossos corações.
Jucimara VergopolamHá 3 meses União da Vitória/ParanáQue texto maravilhoso!!! Parabéns e obrigada Mhario Lincoln por tanta sensibilidade que nos afaga a alma!!!
Joizacawpy Há 3 meses São Luís Que linda e merecida homenagem. Hoje em dia o que fala mais alto são os holofotes, os 15 segundos de fama, o aparecer para ser importante. Mas o que vale no final de tudo? A verdade agregada dentro do coração de quem sabe amar verdadeiramente cujo troféu significa saber fazer o bem.
Alcides GraçaHá 3 meses Lisboa/PTQue texto grandioso, Mhario Lincoln. BRAVO! BRAVO! Sou de Capivari, mas vim para o Porto ficar com minha mãe que tem Alzheimer. Chorei muito lendo este texo. Muito. Obrigado, Mhario.
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