Quinta, 11 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

Poesia infantil mudou de roupa, não de alma. Mas continua precisando de maiores chances

Dos anos 1970 à atualidade, Brasil e Europa trocaram o didatismo pela invenção, e o mercado ainda vê valor no gênero, embora sob novos desafios

18/03/2026 às 16h45 Atualizada em 18/03/2026 às 17h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura Infantil da Plataforma Nacional do Facetubes
Compartilhe:
Arte: mhl/GinaiFT
Arte: mhl/GinaiFT

Editoria de Literatura Infantil da Plataforma Nacional do Facetubes 

A Editoria de Literatura Infantil da Plataforma Nacional do Facetubes pesquisando sobre obras da carochinha, deu de cara com um texto do escritor Natinho Costa Fenix, especialista (UFMA), em Perspectivas Críticas da Literatura Contemporânea, que, pelo seu amplo trabalho sobre obras infanto-juvenis, é bastante aplaudido. Além do que, conhece profundamente os 10 livros infanto-juvenis que Josué Montello (mais conhecido por seus romances), deixou. Entre essas produções, descobriu-se um outro filão, quase esquecido: o da poesia infatil.

Então, de posse dessas informações, a Plataforma procurou analisar, na mesma linha, esse outro lado. As poesias infantis. O que foi descoberto, impressiona: desde a década de 1970 até os dias atuais tem-se revelado uma mudança decisiva no modo como a infância passou a ser compreendida pela literatura.

Continua após a publicidade
Capa. (Divulgação).

A criança deixou de ser tratada apenas como destinatária de lições morais ou cívicas e passou a ser reconhecida como leitora de ritmo, imagem, surpresa e linguagem. Essa virada, perceptível no Brasil e em diferentes linhas editoriais da Europa, não alterou a essência do gênero, mas transformou profundamente sua forma, sua circulação e seu lugar no mercado.

No Brasil, - in lírica - a ruptura mais nítida ocorreu quando a poesia infantil começou a se afastar do tom utilitário que por muito tempo a acompanhou. A entrada em cena de obras como “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles, e “A arca de Noé”, de Vinicius de Moraes, ajudou a consolidar uma nova sensibilidade. O poema deixou de falar “para ensinar” e passou a falar “para encantar”.

A GALINHA-D’ANGOLA
Vinicius de Moraes
Coitada
Da galinha-
-D’angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não para
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:
— “Tou fraca! Tou fraca!”

A linguagem se fez mais leve, mais musical, mais próxima do imaginário da criança. Em vez de uma infância disciplinada pelo verso, surgiu uma infância convidada a brincar com ele.

 

Já na Europa, o movimento caminhou em direção semelhante, ainda que com particularidades de cada local. Em vários centros editoriais, sobretudo a partir da circulação de autores como Gianni Rodari, (jornalista, escritor e poeta italiano, especializado em livros de literatura infantil), fortaleceu-se uma concepção de literatura para crianças fundada na liberdade inventiva, na imaginação e no prazer estético.

Continua após a publicidade

E o que mudou? Ao longo dos anos 1970, muitos livros deixaram para trás a rigidez temática e a função doutrinária para valorizar humor, lirismo, oralidade, nonsense e experimentação visual. O poema infantil começou a ser lido não como ferramenta auxiliar da escola, mas como obra literária em sua inteireza.

A principal diferença entre a poesia infantil de ontem e a de hoje está menos no assunto e mais no mote da obra. Nos anos 1970, o avanço consistiu em romper com o peso pedagógico de décadas anteriores. Hoje, a mudança se amplia. O poema não vive apenas na palavra impressa.

Ele passa pelo desenho da página, pela ilustração, pelo projeto gráfico, pela sonoridade da leitura em voz alta, pelo diálogo com o corpo, com a performance e com os suportes digitais. A poesia infantil do hoje tornou-se mais visual, mais multifacetada e mais aberta a temas como diversidade, meio ambiente, ancestralidade, afetos urbanos e identidades plurais.

Capa. (Divulgação).

Nesse percurso brasileiro, alguns nomes permanecem incontornáveis. Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, José Paulo Paes, Elias José, Sérgio Capparelli e Roseana Murray ajudaram a construir um repertório que segue vivo na memória literária do país. Ao redor desse núcleo, também ganharam relevância autores como Tatiana Belinky, (que compõe poemas Limeriques, ou seja, “Limerique” é um tipo de poema com cinco versos que serve para fazer estripulias e pôr graça bem gozada na vida da gente. É poesia com puríssimo humor). Escreveu ela:

 "Tudo é humano e diferente./ Todos são gente, cada um à sua maneira./ A diversidade é legal. Se tudo fosse igual, seria chato".

Outros também podem ser mencionados como Ricardo Azevedo, Ronald Claver e Leo Cunha, (“...em dias de chuva/As bruxas voam de rodo”), além de poetas que, mesmo não sendo exclusivamente dedicados ao público infantil, dialogaram intensamente com a infância, como Mário Quintana, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros (abaixo).

Continua após a publicidade

"(...) O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó".
(MdeB).

São vozes que ajudaram a sedimentar a ideia de que a poesia para crianças não é um gênero menor, mas uma das formas mais delicadas e exigentes da criação literária.

Capa. (Divulgação).

Entre os nomes que hoje se destacam, a observação dos prêmios e da crítica recente mostra um cenário de permanência com renovação. Obras como Origem, de Anna Cunha, “Diário das águas”, de Gabriela Romeu, “Flores da batalha”, de Sérgio Vaz, e “Bento vento tempo”, de Stênio Gardel e Nelson Cruz, indicam que o gênero continua ativo, embora mais seletivo e menos guiado pelo volume comercial imediato.

Vale destacar “Bento vento tempo”, que é uma narrativa sensível e belamente ilustrada sobre um menino, seu avô e a grande aventura que vivem juntos. No currículo, Prêmio Jabuti 2025 na categoria Ilustração, Prêmio FNLIJ Odylo Costa Filho 2025 - Melhor livro de poesia e Prêmio FNLIJ 2025 - Revelação Escritor. Também chama atenção a permanência de autores acompanhados pela crítica com constância, como Leo Cunha, além da valorização de formas breves e densas, como o haicai e os poemas imagéticos voltados à infância.

Há, porém, um ponto sensível. A escola, que tantas vezes salva o poema do desaparecimento comercial, pode também empobrecê-lo quando o transforma em simples exercício de interpretação mecânica. A poesia infantil raramente prospera pela lógica do impulso puro de mercado.

Seu êxito, por outro lado, depende, em grande medida, “(...) da formação de leitores. Por isso, seu destino editorial está ligado menos à pressa das tendências e mais à capacidade de preservar o encantamento”, disse o editor-sênior da Plataforma, jornalista e poeta Mhario Lincoln, autor de "Meus Balões": Eu encho balões/ no largo do paraíso./ Encho-os com gratidão, amor, carinho, juizo./ Mas não os vendo./ Não os faço doar, pois/ solto-os para colorir,/ no firmamento,/ o meu depois."   

 

E ele tem razão: se o Brasil deseja dar um verdadeiro upgrade nesse setor, o caminho passa por uma requalificação do olhar. Alguns caminhos podem ser seguidos. E não é tão difícil.

1-   Formar mediadores que saibam apresentar a poesia sem desmontá-la, ampliar o investimento em livros verbo-visuais de alto padrão;

2-   abrir espaço consistente para vozes regionais, afro-brasileiras, indígenas e periféricas, incorporar a poesia aos circuitos de áudio, vídeo e performance com exigência estética; e

3-   fortalecer prêmios, coleções e compras públicas voltadas especificamente ao poema infantil.

Em outras palavras, não se trata de forçar popularidade artificial, mas de devolver à poesia seu lugar de experiência sensível, formadora e memorável. Talvez a síntese mais justa seja esta: a poesia infantil de ontem lutou para deixar de ensinar obediência. A de hoje luta para preservar o espanto. A alma continua a mesma. Porém, o que mudou mesmo foi a roupa, o suporte, a velocidade do mundo e a complexidade do leitor contemporâneo. Quem sabe a frase de José Paulo Paes - poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta brasileiro - continue atualíssima, atravessando gerações? Ele disse: “Poesia é a arte de brincar com palavras.”

Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Judith Há 3 meses São Luís - MABelo texto Poeta Mhario, a poesia permite a criatividade das crianças o que as leva a renovarem seu caminhar.
Marlene AnjosHá 3 meses CURITIBALinda matéria! Parabéns!
Sharlene SerraHá 3 meses BrasíliaComo escritora vejo nessa análise um convite à responsabilidade e à esperança. A literatura infantojuvenil não é algo menor, nem simples: ela exige responsabilidade, delicadeza, escuta e respeito à inteligência sensível da infância. Quando oferecemos histórias e poemas às crianças, não estamos apenas ensinando palavras estamos abrindo portas para a imaginação, para o pensamento crítico e para a construção de afetos e mesmo a literatura infantojuvenil, se ressignificando a alma continua a mesma
Selma MarquesHá 3 meses Sao Luis MANecessária e atual essa rica e belíssima abordagem. Mesclou lirismo, poesia e realidade. Aplausos!
Tadeu CarvalhoHá 3 meses São Paulo SPMagnífico texto.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
15°
Parcialmente nublado

Mín. 13° Máx. 20°

15° Sensação
1.38km/h Vento
96% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sex 19° 11°
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Atualizado às 19h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -1,64%
Euro
R$ 5,91 -1,23%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,94%
Bitcoin
R$ 343,084,06 +3,16%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias