
Soraya Fialho Felix ergue, neste poema, uma cena de rara delicadeza onírica, em que amor, lembrança e desejo se entrelaçam até quase apagarem a fronteira entre o real e o sonhado.
Há aqui uma intuição filosófica muito humana: o ser amado nem sempre aparece como presença concreta, mas como imagem interior, moldada pela carência, pela ternura e pela memória. O outro dorme, mas quem desperta para a verdade é a própria voz poética. E essa verdade é sutil e dolorosa — muitas vezes, sonhamos para não sucumbir ao vazio.
Sente-se que a construção de Soraya é extremamente sensorial e imagética. Ela pinta o amado com carmim, ouro, perfume e asas, como se o poema fosse também uma tela viva, onde o afeto tenta eternizar o instante. A repetição de "mas tu não acordaste" funciona como refrão de frustração e encanto, dando musicalidade e aprofundando a atmosfera de feitiço amoroso. Seu lirismo se sustenta justamente nessa fusão entre infância, devoção e arte, como se amar fosse recriar o mundo com as mãos trêmulas da imaginação. Eis a obra lírica, abaixo:
Poeme-me
Soraya Fialho Felix
Era noite alta.
A lua já fazia a curva de sua partida.
Senti o vento forte
vindo da janela
e me joguei nos braços desse vento.
Fiquei leve.
Brinquei em suaves redemoinhos,
entre nuvens calmas e frias
da mais bela noite que vivi.
Foi então que, lentamente, desci
e te vi.
Dormias.
Como és lindo dormindo.
Deitado sobre uma relva molhada,
rasteira e fina.
Sentei-me ao teu lado,
parecias um anjo.
Como eras belo dormindo.
Passei meus cabelos
suavemente em teu rosto,
mas tu não acordaste.
Vi em minhas mãos
uma paleta e um pincel com todas as cores
e, como as crianças que juntos fomos,
pintei teus lábios
de vermelho carmim.
Mas tu não acordaste.
Beijei tua boca.
Ficamos dois anjos pintados,
com lábios cor de doces cerejas.
Ri baixinho,
olhando-te como uma criança
que admira sua arte.
Mas tu não acordaste.
Pintei um traço em teus olhos
e lembrei de teus cílios molhados
mergulhando nas águas azuis
da nossa infância.
Como és lindo dormindo.
Depois, contornei tuas costas
com tinta dourada
e desenhei duas asas.
Agora eras meu anjo.
Mas tu não acordaste.
Desenhei em teu coração
o meu coração
e nele escrevi meu nome.
Eras tão belo dormindo.
Em minha mão
segurava um frasco de perfume.
No rótulo, escrito: “Poeme-me”.
Fostes tu?
Perfumei todo o teu corpo.
Mas tu não acordaste.
Escrevi com o pincel
em tua mão:
Poeme-me.
Vem comigo, meu anjo,
vamos deixar as nuvens nos levarem,
contigo cantando os poemas
que fizeste para mim.
Mas tu não acordaste.
Em um susto súbito,
fui levada pelo vento.
Acordei
e não te vi.
Foi quando, chorando, entendi:
quem dormia e sonhava
era eu,
e não eras tu.
No ar,
um cheiro forte de perfume.
Como eras lindo dormindo.
*****
Neste breve e belo poema, Maria Cristina Zimmermann Tramontin transforma o vento em metáfora daquilo que já não está plenamente ao alcance das mãos, mas continua vivo na sensibilidade, na lembrança e na alma. O "toque do vento" não é apenas físico; é quase espiritual. Ele chega como vestígio, como presença sutil de algo ou alguém que marcou profundamente a existência.
Há nisso uma emoção muito delicada — a de perceber que certos afetos não desaparecem, apenas mudam de forma. O que antes era presença concreta torna-se sopro, memória, eco. E justamente por isso o poema comove: ele fala da permanência invisível das coisas que realmente importam.
Filosoficamente, os versos tocam numa questão essencial da experiência humana: a luta entre o tempo, que tudo desgasta, e o sentimento, que insiste em preservar o eterno. Quando a poeta diz que "o para sempre tardou a chegar" e que "o tempo se desmancha", ela parece reconhecer a fragilidade da vida, mas recusa a ideia de que o essencial possa ser destruído. Há um núcleo íntimo — "esse pedacinho de vida" — onde o eterno resiste. É uma visão profundamente sensível e quase metafísica: o amor, a memória e a saudade podem ser maiores que a erosão dos dias. O poema, assim, emociona porque sugere que nem tudo se perde; aquilo que toca o coração com verdade permanece, ainda que só como vento. Eis a obra lírica, abaixo:
O toque do vento
Maria Cristina Zimmermann Tramontin
E, de repente um vento me toca,
trazendo vestígios como se
realmente estivesse a tocar.
E, de repente o para sempre tardou
a chegar, e o tempo se desmancha,
deixando o para sempre no fundo
do coração. Ah! Porque nesse
pedacinho de vida,
não se destrói o eterno.
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