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SEGUNDA POÉTICA: dois mais dois são mil emoções, verdades, catarses e transformações

Poetas convidadas: Soraya Fialho Felix Garcia (S. Luís do Maranhão) & Maria Cristina Zimmermann Tramontin (Santo Antonio da Platina- Paraná).

16/03/2026 às 16h40 Atualizada em 16/03/2026 às 17h55
Por: Mhario Lincoln Fonte: SEGUNDA POÉTICA: Soraya/Zimmermann
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Arte: Ginai/MHL
Arte: Ginai/MHL
Soraya F.Felix

Soraya Fialho Felix ergue, neste poema, uma cena de rara delicadeza onírica, em que amor, lembrança e desejo se entrelaçam até quase apagarem a fronteira entre o real e o sonhado.

Há aqui uma intuição filosófica muito humana: o ser amado nem sempre aparece como presença concreta, mas como imagem interior, moldada pela carência, pela ternura e pela memória. O outro dorme, mas quem desperta para a verdade é a própria voz poética. E essa verdade é sutil e dolorosa — muitas vezes, sonhamos para não sucumbir ao vazio.

Sente-se que a construção de Soraya é extremamente sensorial e imagética. Ela pinta o amado com carmim, ouro, perfume e asas, como se o poema fosse também uma tela viva, onde o afeto tenta eternizar o instante. A repetição de "mas tu não acordaste" funciona como refrão de frustração e encanto, dando musicalidade e aprofundando a atmosfera de feitiço amoroso. Seu lirismo se sustenta justamente nessa fusão entre infância, devoção e arte, como se amar fosse recriar o mundo com as mãos trêmulas da imaginação. Eis a obra lírica, abaixo:

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Poeme-me

Soraya Fialho Felix

Era noite alta.

A lua já fazia a curva de sua partida.

Senti o vento forte

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vindo da janela

e me joguei nos braços desse vento.

Fiquei leve.

Brinquei em suaves redemoinhos,

entre nuvens calmas e frias

da mais bela noite que vivi.

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Foi então que, lentamente, desci

e te vi.

Dormias.

Como és lindo dormindo.

Deitado sobre uma relva molhada,

rasteira e fina.

Sentei-me ao teu lado,

parecias um anjo.

Como eras belo dormindo.

Passei meus cabelos

suavemente em teu rosto,

mas tu não acordaste.

Vi em minhas mãos

uma paleta e um pincel com todas as cores

e, como as crianças que juntos fomos,

pintei teus lábios

de vermelho carmim.

Mas tu não acordaste.

Beijei tua boca.

Ficamos dois anjos pintados,

com lábios cor de doces cerejas.

Ri baixinho,

olhando-te como uma criança

que admira sua arte.

Mas tu não acordaste.

Pintei um traço em teus olhos

e lembrei de teus cílios molhados

mergulhando nas águas azuis

da nossa infância.

Como és lindo dormindo.

Depois, contornei tuas costas

com tinta dourada

e desenhei duas asas.

Agora eras meu anjo.

Mas tu não acordaste.

Desenhei em teu coração

o meu coração

e nele escrevi meu nome.

Eras tão belo dormindo.

Em minha mão

segurava um frasco de perfume.

No rótulo, escrito: “Poeme-me”.

Fostes tu?

Perfumei todo o teu corpo.

Mas tu não acordaste.

Escrevi com o pincel

em tua mão:

Poeme-me.

Vem comigo, meu anjo,

vamos deixar as nuvens nos levarem,

contigo cantando os poemas

que fizeste para mim.

Mas tu não acordaste.

Em um susto súbito,

fui levada pelo vento.

Acordei

e não te vi.

Foi quando, chorando, entendi:

quem dormia e sonhava

era eu,

e não eras tu.

No ar,

um cheiro forte de perfume.

Como eras lindo dormindo.

*****

  

M.C. Tramotin

Neste breve e belo poema, Maria Cristina Zimmermann Tramontin transforma o vento em metáfora daquilo que já não está plenamente ao alcance das mãos, mas continua vivo na sensibilidade, na lembrança e na alma. O "toque do vento" não é apenas físico; é quase espiritual. Ele chega como vestígio, como presença sutil de algo ou alguém que marcou profundamente a existência.

Há nisso uma emoção muito delicada — a de perceber que certos afetos não desaparecem, apenas mudam de forma. O que antes era presença concreta torna-se sopro, memória, eco. E justamente por isso o poema comove: ele fala da permanência invisível das coisas que realmente importam.

Filosoficamente, os versos tocam numa questão essencial da experiência humana: a luta entre o tempo, que tudo desgasta, e o sentimento, que insiste em preservar o eterno. Quando a poeta diz que "o para sempre tardou a chegar" e que "o tempo se desmancha", ela parece reconhecer a fragilidade da vida, mas recusa a ideia de que o essencial possa ser destruído. Há um núcleo íntimo — "esse pedacinho de vida" — onde o eterno resiste. É uma visão profundamente sensível e quase metafísica: o amor, a memória e a saudade podem ser maiores que a erosão dos dias. O poema, assim, emociona porque sugere que nem tudo se perde; aquilo que toca o coração com verdade permanece, ainda que só como vento. Eis a obra lírica, abaixo:

O toque do vento

Maria Cristina Zimmermann Tramontin

E, de repente um vento me toca,

trazendo vestígios como se

realmente estivesse a tocar.

E, de repente o para sempre tardou

a chegar, e o tempo se desmancha,

deixando o para sempre no fundo

do coração. Ah! Porque nesse

pedacinho de vida,

não se destrói o eterno.

 

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Soraya Fialho FelixHá 3 meses São LuísObrigada Mhario pela bela apresentação que fizestes do "Poeme-me". Fiquei lisonjeada vindo de você um grande poeta, compositor, jornalista de um talento inquestionável. "Poeme-me"confesso, que é o meu poema preferido. Para mim, é uma honra vê- lo postado no Facetube.
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