
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta, crítico literário e jornalista.
Foto: a autora, poeta Tereza Brtaúna Moreira Lima e a Medalha de Reconhecimento da Plataforma do Facetubes. Esta análise poética recebeu mais de 2 mil acessos, nesta semana de publicação.
Há poemas que pedem comentário; “Mordida” exige escuta. Registros públicos apresentam Tereza Braúna Moreira Lima como escritora e psicanalista, e a própria circulação de sua obra confirma esse encontro entre clínica da alma e artesania verbal: Psicanálise e artifício poético foi noticiado como livro em que ela reúne poesia e experiência analítica, e segue catalogado como obra de poesia. Isso importa porque “Mordida” confirma, com rigor admirável, essa dupla competência: não é apenas um poema que sente, mas um poema que pensa o sentir, sem perder calor, sem perder música, sem perder carne.
Poeticamente, o texto se sustenta sobre uma engenharia clássica de excelente efeito. A anáfora de “Da vida quero o gosto” funciona como refrão de vontade e destino; a antítese “amargo ou deleitoso” dá ao poema sua respiração dialética; e a sucessão de imagens corporais — carne, poros, olhar, face, choro — impede que a emoção se dissolva em abstração. O título, “Mordida”, já anuncia o programa inteiro: viver, aqui, não é contemplar de longe, mas aceitar o real como fruto áspero, polpa incerta, marca que fere e alimenta. Tereza acerta em cheio ao transformar sensação em figura: “clarabóias abertas nos poros” é imagem de alta voltagem poética, porque abre o corpo para o mundo sem o reduzir a matéria bruta. É linguagem de autora madura, que sabe que a intensidade só convence quando encontra forma.
Filosoficamente, o poema pertence à linhagem das escritas que recusam a velha separação entre corpo e existência. Quando a voz lírica quer o gosto da vida “no sentir amargo ou deleitoso”, afirma que a verdade do viver não chega por conceito puro, mas pela carne que percebe, sofre, deseja e registra. Essa leitura conversa de modo muito fecundo com Merleau-Ponty, para quem o corpo é nosso modo de estar-no-mundo, e com a filosofia contemporânea da consciência corporal, que entende a experiência do corpo como fluxo contínuo de informações internas e externas, ainda que muitas vezes marginal à atenção. Em “Mordida”, o corpo não é cenário da alma; é o próprio lugar onde o mundo acontece.
Na opinião do crítico e jornalista Mhario Lincoln, ouvido pela editoria, "(...) o verso de Tereza é decisivo. A experiência só se cumpre, para esse eu lírico, quando algo marca muito - no caso dessa poesia -. Porque não se pede uma vida lisa; pede-se uma vida gravada. Eis por que o poema acolhe tanto o abraço quanto a perda irreparável: ambos pertencem à economia profunda da marca", completa. As palavras de Lincoln levam diretamente à literatura clínica e teórica sobre body memory e mostram que experiências corporais passadas, explícitas ou implícitas, podem permanecer atuantes e influenciar estados afetivos e comportamento; e a psicanálise, por sua vez, insiste em que aquilo que não encontra simbolização tende a reaparecer por outras vias.
Desta forma, complementa Mhario Lincoln, olhando por esse prisma da psiquiatria lírica, "o mérito superior do poema está em não se afundar na mudez da ferida: a lírica temperada com experiências profissionais de Tereza, nomeia com exímia autenticidade, a dor, o deserto, o refrigério, o choro. Em termos freudianos e kristevianos, isso o aproxima menos da melancolia paralisada do que do trabalho de luto, no qual a perda, embora irremediável, encontra linguagem e, por isso, algum contorno suportável", arremata MHL.
Há ainda uma delicadeza filosófica de alto quilate no “encontro do olhar”. O outro não surge ali como simples ornamento amoroso, mas como presença que altera o ser. Nisso, o poema toca uma intuição cara a Levinas: o rosto do outro nos alcança antes mesmo da reflexão e rompe nossa pretensão de autossuficiência. Ao mesmo tempo, a aceitação do “amargo” e do “deleitoso” aproxima “Mordida” daquela tradição afirmativa da existência em que dor e prazer pertencem à mesma inteireza do destino humano; não por culto da dor, mas por recusa da anestesia. O poema não romantiza o sofrimento, nem o enfeita com lições fáceis. Seu gesto é mais nobre: afirma que viver plenamente implica consentir na densidade do real. Por isso, o refrão final não soa como euforia ingênua, mas como coragem ontológica.
Em suma, Tereza Braúna Moreira Lima escreve aqui um poema de alta eficiência estética e notável densidade humana. O leitor comum o recebe como uma confissão vigorosa e inteligível. O poeta reconhece a disciplina da repetição, o bom governo das imagens e a justeza do fecho. O psicanalista percebe a trama fina entre corpo, desejo, perda, esperança e inscrição. “Mordida” é poesia que não pede licença para existir porque ela entra pela sensibilidade, permanece na inteligência e deixa, como queria a autora, a sua tatuagem na carne da leitura.
O POEMA
MORDIDA
Da vida quero o gosto
no sentir amargo ou deleitoso
contanto que na carne
feito tatuagem fique impressa essa imagem
Clarabóias abertas nos poros a escoar o sabor úmido de um abraço
No encontro do olhar a troca indelével de um esperançar imensurável
Do choro na face a tradução intangível de uma perda irreparável
Refúgio do corpo no deserto ou refrigério
quimera que palmilha amenizando a permanência dessa carne que palpita
na dor ou no amor
Da vida quero o gosto!
No sentir amargo ou deleitoso
dos poros em clarabóias
do olhar esperançoso
ou da face em choro pela perda irreparável
Da vida quero o gosto!
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta, crítico literário e jornalista.
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