Editoria de Pesquisa e Extensão do Facetubes
Em Poetas, filósofos e xamãs, Neiza Teixeira investiga a 'Palavra' como origem da linguagem, forma de conhecimento, matéria poética e prática de cura. José Emílio-Nelson define o livro como uma escrita sobre “a palavra que canta, que reflete e que cura”. Essa formulação estabelece o eixo da obra: a palavra deixa de ser apenas instrumento de comunicação e passa a constituir um acontecimento capaz de produzir pensamento, memória e transformação.
A organização em três partes sustenta esse percurso. A primeira aproxima poesia, loucura, inspiração e tempo, retomando a noção grega de Kairós e o vínculo platônico entre criação e estado de alteração. A segunda concentra-se na relação entre filosofia e linguagem. A terceira conduz a palavra ao campo do canto, da dança, da oração e das práticas dos xamãs. A estrutura reúne territórios separados pela tradição acadêmica e procura uma raiz comum entre o poeta, o filósofo e o curador: todos dependem da palavra para interpretar, reorganizar ou intervir na experiência humana.
José Emílio-Nelson observa a presença de Heidegger, Nietzsche e Derrida como base do pensamento desenvolvido por Neiza Teixeira. Heidegger orienta a reflexão sobre a linguagem como lugar da existência. Nietzsche aparece na relação entre poesia, música, corpo e ruptura. Derrida conduz a discussão sobre escrita, fala e suplemento. Rousseau, Hölderlin, Jacques Derrida e outros autores ampliam o debate sobre a passagem da palavra oral para a palavra escrita. O livro não apresenta a linguagem como um sistema fechado. Apresenta-a como um processo no qual sentido, ausência, memória e presença permanecem em movimento.
Vale dizer que a proposta de Neiza Teixeira também questiona a divisão rígida entre filosofia e poesia. A filosofia pergunta o que a palavra significa. A poesia mostra o que a palavra realiza. O xamanismo acrescenta a dimensão ritual, na qual a palavra atua sobre o corpo, a consciência e a comunidade. Isso é caracterizado por Theo Machado Fellows quando insere a obra no debate sobre o predomínio das imagens na vida contemporânea. Segundo sua leitura, a palavra passou a ocupar muitas vezes a função de legenda, embalagem ou apoio para discursos produzidos por imagens em movimento, filtros e sistemas digitais.
Assim, é nítida a presença de Heidegger, Nietzsche, Derrida, Hölderlin, Rilke, Ezra Pound, Artaud e outros nomes. Isso sustenta o repertório da obra e exige equilíbrio. A autoridade dessas referências pode ocupar o espaço da voz autoral. Neiza Teixeira alcança maior consistência quando transforma essas influências em experiência própria, especialmente nas passagens memorialísticas, nos registros de criação e nas relações entre linguagem, doença, cura, infância e consciência. Enfim, a Palavra constitui uma forma de resistência contra a redução da linguagem à informação imediata.
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