
*Mhario Lincoln c/editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Gloria Menezes ao responder sobre seu casamento de quase 60 anos com Tarcísio Meira: "Sei lá, ele ainda me fascina, ainda me encanta...." (Tarcísio Meira e Glória Menezes viveram por 59 anos até a morte dele, em 2021).
“Não é o amor que precisa ser real. Mas o encantamento”. Esta é uma frase de combate. Combate a uma época que exige compreensão e muito afeto; e não, um contrato de "ficar junto". Exige uma perícia sentimental. A força dessa bela verso da poeta Nauza Luza Martins que integra a música "Amor é encantamento" (vide abaixo), está em dizer que o amor, antes de ser posse, é atmosfera; antes de ser prova, é irradiação; antes de ser cálculo, é sentido. O que sustenta dois seres, muitas vezes, não é a aritmética dos fatos, mas a qualidade do assombro que um provoca no outro. Nessa leitura, a frase não enfraquece o amor. Confesso que foi uma das análises mais coerentes, mais fortes e mais autêntica que li nos últimos tempos, repito: “Não é o amor que precisa ser real. Mas o encantamento”. quem interpretar esse verso de forma mais profunda com inteligência e coragem, verá que Nauza Luza tem toda razão.
Aliás, não só Nauza, mas muitos pensadores do século XIX e século XX já observavam essa lucubração que sustenta o amor verdadeiro, antes de tudo, como uma 'perturbação glamourosa e luminosa'. Sim! O amor precisa desse tempero porque é também uma espécie de magia, que mexe com tudo e bagunça todas as convicções clássicas sobre o quye se ensina e se poetisa sobre o amor, por aí.”. Sim! O amor aparece como força que desorganiza o 'eu antigo' para instaurar outro estado de sensibilidade. Para ratificar isso, vem Platão. No Fedro, por exemplo, ele trata o 'eros' (parte desse encantamento), como uma “loucura divina”, isto é, um abalo, vertigem e fascínio.
Outro nome muito próximo do pensamento de Nauza Luza é Stendhal. Em "Do Amor", ele o chamou de “cristalização” o processo pelo qual o amante reveste o ser amado de perfeições, mostrando que o amor nasce também da imaginação encantada, e não só da observação objetiva. Já no campo da psicologia, Helen Fisher e Arthur Aron ajudam a explicar o trecho sobre as reações do corpo: estudos sobre amor romântico inicial apontam euforia intensa e ativação de sistemas de recompensa e motivação, o que torna plausível essa sensação de desordem física e emocional, ou seja: encantamento puro e simplesmente.
Vou mais longe: o verso é ainda mais contundente porque vivemos sob a pressão da transparência total, da vigilância afetiva, do amor convertido em desempenho, em resposta instantânea, em prova pública de fidelidade e presença. Nesse ambiente, o encantamento parece suspeito, como se tudo o que não fosse imediatamente verificável fosse falso.
Mas esse raciocínio empobrece a experiência humana. Simone de Beauvoir, por sua vez, criticou os mitos românticos que transformavam o amor em submissão e distorção, mas sua saída não era a secura emocional; era um amor ético, livre e consciente, entre iguais.
Mas, entendida com rigor, romântico, a frase de Nauza Luza entra nesse debate para lembrar que o problema não é o amor em si, e sim, o uso social deformado do encanto. Isso porque, quando esse "encanto" é usado como arma de vaidade ou troca comercial, banalizando a beleza, tudo tente a ruir. O 'encanto saudável', por outro lado, não escraviza; ele ilumina. O que desfigura o amor não é a imaginação, mas a dominação.
Assim, a frase - “Não é o amor que precisa ser real. Mas o encantamento”, que compõe a peça literária ("Amor é encantamento"), que transformei em música - vide abaixo - é admirável porque compreende uma verdade antiga da linguagem lírica. então pegunto: será que poesia nunca trabalhou com o amor como inventário do real? então, chamo para a mesma mesa o poeta Manuel António Pina que, em seu belo "Amor Como Em Casa", demonstrou esse encantamento ao escrever, logo no primeiro verso: "Regresso devagar ao teu sorriso, como quem volta a casa".
E isso é encantamento. É esse encantamento que leva ao amor, leva ao respeito, leva dizer não às tentadoras manipulações da vida adulta. É fulgor, espera, ausência, memória, imagem, promessa: assim, o encantamento é, sim, a real e inesgotável forma superior desse amar eterno.
Parabéns, confreira.
VÍDEO-BÔNUS
Direção-Geral, edição e produção: Mhario Lincoln
Mhario Lincoln, crítico, jornalista e poeta c/ editoria da Plataforma Nacional do Facetubes
Mín. 13° Máx. 20°