
A Segunda Poética da Plataforma Nacional do Facetubes firmou-se, com naturalidade e brilho, como um rito literário das segundas-feiras. Tornou-se ponto de encontro para leitores que buscam, na poesia, não apenas o encanto das palavras, mas também a celebração de uma tradição que se renova. Nesse espaço, a literatura encontra seu público com a mesma força com que a alvorada encontra o dia: inevitável, esperada, necessária.
Por essa razão, desfilam aqui vozes de todas as estaturas poéticas — desde aqueles que dão seus primeiros passos na arte do verso, até autores cuja obra já se inscreveu no patrimônio cultural brasileiro. Hoje, a página se reveste de solenidade especial ao prestar homenagem a membros da Academia Maranhense de Letras, cujas contribuições ultrapassam o campo lírico e se projetam na seara da sensibilidade e da criação literária universal. É o reconhecimento de que a poesia, quando cultivada com rigor e alma, transforma-se em legado. E que espaços como este, sob a curadoria atenta do jornalista e poeta Mhario Lincoln, editor-sênior desta Plataforma, cumpram o papel de manter viva a chama que ilumina a palavra escrita.
Convidados de hoje
Salgado Maranhão
Lourival Serejo
Joaquim Haickel
José Sarney
José Ewerton Neto
Rossini Corrêa
José Sarney
O Milagre
O milagre é viver
na graça de sopapos e ladeiras.
Dias de glórias e clarins,
noites de suicídios.
Dias de paz, saúde e esperanças,
noites de guerra e desamor.
A tudo rendi graças,
no vau dos dias.
Navegar, navegar, naveguei
sem encontrar mares.
Cheguei a uma praia limpa,
branca, de ondas leves.
Um anjo perguntou pela minha paz.
Respondi com um sorriso.
Ele agradeceu, enxugando com areia
as lágrimas que não me deixavam mentir.
Nostalgia de um pescador
Lourival Serejo
A vida inteira passei pescando
no afã de ver minha rede cheia de peixes.
As madrugadas me seduziam
e logo me abandonavam na solidão do lago.
Colecionei alvoradas de todas as cores
as quais ficaram esquecidas na memória.
Perdi os fios das recordações
que apodreceram com o tempo
como os fios de uma tarrafa.
Hoje o lago me chama
e não respondo.
As madrugadas não significam mais nada para mim:
sou apenas lembranças.
O VERBO
Salgado Maranhão
Passos da manhã
trazem-me o dia
a desovar enganos.
(O amor me busca
como um predador.)
No entanto
o verbo freme. Ateia
fogo aos abismos
reincide ao pó
e ao efêmero.
No entanto arrasto
o canto à borda
dos incêndios.
Ó caminhos que afundam
minhas rasuras!
O que é do tempo
é da terra
o que é da terra
é do ter.
Ó escudos de selva
e trilho!
Do que me atrevo
sobrevivo.
ÓRFÃO
José Ewerton Neto
Seja de prece
o teu rosto
e tua longas mãos
como um rosário
e eu poderia te enforcar
com um terço
e, depois, secar as minhas culpas
na tua alma de santa.
A Costela de Adão
Joaquim Haickel
Um dia desses…
pra ser mais preciso
numa noite dessas
depois de intenso amor
ela parou e perguntou a ele:
Qual a parte de teu corpo
em que parte dele
tu mais te excitas?
Ele ainda ofegante
dando tempo apenas ao pulmão
respondeu prontamente
“A parte de meu corpo onde mais me excito!?…
Você!
Cada vez que faço você se contorcer
cada vez que você acusa o golpe
cada vez que você retesa as coxas
as pernas em volta de mim…
nessa hora é a hora em que eu mais me excito.
Essa é a parte de meu corpo que mais se excita.
Você!”
ELEGIA DOS VISIONÁRIOS
Rossini Corrêa
Avança — Dom Quixote —
avança: não tem fim
a luz, fatal archote
a reinventar o jardim
azul do Éden: avança
e, depois da Andaluzia,
mesmo Sancho Pança,
em sua febril fantasia,
a ti convidará: 'vamos!,
que a viagem infinita
é o pão que amassamos,
e a nuvem, na marmita,
nos alimenta com sonho,
nos reinventa, com vinho
e nos liberta do tristonho
e crepuscular caminho.
E Quixote, todo ancho,
colherá um verde lírio
e responderá: 'bom Sancho,
somos filhos do delírio,
a nossa missão é agora
e sempre. A cruz, a rosa
e o pavilhão da aurora
anunciam a uva licorosa.
Vamos... Vamos colhê-la
ali, na rua de toda a terra,
na esplendorosa estrela
que só o nunca descerra.
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