
*Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
“Ler bem não serve apenas para acumular referências. Serve para aprender a pensar melhor. E quem pensa melhor escreve melhor. Não por milagre, mas por amadurecimento”. (MHL).
Lendo o texto do presidente da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, advogado, poeta e escritor Luís Augusto Guterres, deparei-me com uma importante frase de André Malraux, escritor francês que diz: “A cultura não se herda, ela se conquista”. Ora, tal pensamento vem ratificar inteiramente que há um engano antigo, e muito repetido, na conversa sobre talento e dons.
Quantas vezes não é ouvido ou escrito em entrevistas com poetas (e artistas), algo como – “sou (...) desde criancinha...”. Ótimo! Mas tais dons infantis, claro, se não aperfeiçoados ao longo da vida, ficarão, em algum momento, inúteis.
Muita gente ainda acredita que o dom basta. Como se a centelha inicial resolvesse, sozinha, o trabalho inteiro da inteligência. Não resolve. O dom pode abrir a porta, mas não atravessa a casa.
Sem leitura, sem escuta, sem disciplina e sem confronto com o que os outros já fizeram de grande, ele enfraquece. Fica bonito por fora e raso por dentro. Olinto Simões toca nesse ponto com precisão quando lembra que cultura não cai no colo, nem se transfere por herança invisível. Ela exige esforço, método e permanência.
Isso vale para a poesia e vale para qualquer campo de atuação humana. O bom médico lê. O bom advogado lê. O bom jornalista lê. O bom professor lê. O bom músico ouve, estuda e compara. O bom poeta, por sua vez, não pode se contentar com a rima fácil, com a imagem repetida, com a emoção ainda bruta.
Sentir muito não basta. É preciso saber transformar o sentimento em linguagem. E linguagem, ao contrário do que imaginam os apressados, não floresce apenas da sinceridade. Floresce também do convívio com formas, cadências, silêncios, cortes, tradições e invenções.
É exatamente por causa disso que a filosofia sempre suspeitou da improvisação como método de grandeza. Aristóteles já via na prática reiterada o fundamento da excelência. Ninguém se torna pleno apenas por inclinação natural. Torna-se por exercício. A leitura entra aí como musculação do espírito.
Ela alarga o vocabulário, corrige o raciocínio, afina a percepção e ensina a reconhecer o peso de uma palavra e o limite de uma ideia. Ler bem não serve apenas para acumular referências. Serve para aprender a pensar melhor. E quem pensa melhor escreve melhor. Não por milagre, mas por amadurecimento.
Na poesia, isso aparece de modo quase cruel. Há versos que nascem com boa intenção e morrem na própria superfície. Repetem imagens gastas, giram em torno do mesmo repertório afetivo, confundem desabafo com construção. Quando Olinto Simões, pensador do século XX, nascido no Rio de Janeiro, ironiza as quadras que apenas rimam “lua” com “tua”, “amor” com “flor”, ele não desmerece o impulso de escrever.
Ele adverte para a limitação de quem escreve olhando só para dentro de si, sem abrir janelas para o mundo, para a linguagem e para a tradição literária. “O problema não está em começar simples. Está em permanecer simples por desleixo intelectual”.
Até o cordel, tantas vezes mal compreendido por quem pouco o conhece, desmente essa preguiça mental. O cordel não é espontaneísmo. É algo fantástico que exige técnica, ouvido, memória coletiva, ritmo, construção e inteligência popular em forma elevada. Mesmo quando o cordelista não passou pelos corredores acadêmicos, passou pelas escolas profundas da escuta, da oralidade, da repetição criativa e da observação do mundo.
Há ali uma cultura viva, adquirida no convívio, no labor e na forma. Isso também é leitura, ainda que a página não seja a única professora.
Por isso, a frase de Malraux, retomada pelo escritor Luís Augusto Guterres, presidente da Academia Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), continua firme. A cultura não se herda. Conquista-se. E conquista supõe luta. O dom, sem experiência, enferruja.
A sensibilidade, sem leitura, repete-se. A boa intenção, sem apuro, cansa. Já a prática contínua de ler, pensar, ouvir e reescrever fortalece não apenas o texto, mas a própria pessoa que escreve. Ao fim, talvez seja esse o ponto central: não basta ter algo no peito. É preciso dar consistência ao que arde. E a leitura, em qualquer ofício, continua sendo uma das formas mais sérias de transformar impulso em obra.
Mhario Lincoln, poeta e jornalista. É presidente da Academia POética Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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