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“WALTER HUGO MÃE – O AI JESUS DA FLIP”, por Ceres Costa Fernandes

Ceres Costa Fernandes é convidada da Academia Poética Brasileira

01/04/2026 às 18h43 Atualizada em 01/04/2026 às 19h41
Por: Mhario Lincoln Fonte: Ceres Costa Fernandes (autora).
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Ceres Costa Fernandes/AML.
Ceres Costa Fernandes/AML.

Ceres Costa Fernandes, da Academia Maranhense de Letras

Das estrelas nacionais e internacionais que refulgiram na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2011, patroneada por Oswald de Andrade, uma saiu disparada na frente, em órbita própria nunca pensada por patrocinadores e todo o tipo de fauna amante das letras que compõem a organização e plateia dessa festa. E este não se chamava Antônio Cândido, o monstro sagrado da crítica nacional acima de qualquer julgamento, que ainda leva a palma de ter sido amigo e confidente de Oswald de Andrade, ou João Ubaldo, o baiano de Itaparica campeão de vendas de livros, cujas mesas, assim que abertas, esgotaram todos os ingressos, não sobrando unzinho só, nem no câmbio negro.

Ambos ovacionados e deificados, todavia, perderam o troféu Ai Jesus, que em 2003 pertenceu a ninguém menos que Chico Buarque – dodói de todas as mulheres maduras – para um escritor que não pontificava nas resenhas e entrevistas prévias dos jornais e das revistas especializadas, o angolano radicado em Portugal, romancista, poeta, artista plástico e vocalista, walter hugo mãe, grafado assim mesmo –  ele prefere –  unicamente em letras minúsculas, como todos os textos dos seus quatro romances, “para criar uma ligação mais direta à oralidade e uma espécie de humildade gráfica”, diz.       

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Apesar de ser o mais prestigiado autor jovem de língua portuguesa da atualidade e ter ganhado o Prêmio Literário José Saramago, em 2007, com o romance O Remorso de Baltazar Serapião, obra saudada pelo próprio Saramago como “um tsunami linguístico, semântico e sintático”, walter hugo mãe ainda era  pouco conhecido entre nós. Os editores apostaram menos que deviam no seu sucesso no Brasil: o seu quarto romance, lançado na FLIP, pela COSACNAIF, A Máquina de fazer espanhóis, ganhou uma modesta tiragem de três mil exemplares. Não contavam com seu carisma; foi o campeão de vendas da Festa. Não sei dos números, mas acho que vendeu todos os exemplares de A Máquina...e  mais os de O Remorso de Baltazar Serapião: sua conferência foi às doze horas, autografou a partir das quatorze horas e, quando saí da palestra da noite, perto das 21 horas, ainda estava ele a autografar. E muitos, como eu, compraram os livros e nem entraram nas filas de autógrafos.

 

Na mesa 6, que dividiu com a argentina  Pola Olaixarac, forte candidata a musa da FLIP, ele começa dizendo que escritor é aquele que procura substituir com a literatura aquilo que lhe falta. Conceito freudiano, e daí? Eu gosto.  Ao contrário de muitos que dizem consumir-se, afirma: “não tenho sofrimento ao escrever, tenho prazer em criar, há sempre um lado de tragicomédia.” [...] “me divirto com meus personagens, com quem vou passar muito tempo, são meus amigos”.  E termina a fala com a leitura de uma carta aos brasileiros. Voz mansa, modo de dizer assim com um quê de descuidado e jeito de quem está na festa alheia de favor, palavras seguindo em doce enxurrada, poucas pausas, confissões encabuladas de amar o Brasil e os brasileiros. Pronto. Houve até quem enxugasse os cantos dos olhos e o autor também marejou os seus, depois de aplaudido de pé por palmas que não queriam cessar. Lá estava eu e toda a plateia conquistadas. A Pola?  De repente, ex-musa e completamente ofuscada por ele.

Noite. Chego ao hotel. Na minha cabeça ressoam as muitas conferências do dia e estou com os pés cansados das pedras cabeça-de-negro que calçam quase todas as ruas de Paraty. Faz nove graus, temperatura glacial para uma nordestina. Meto-me debaixo das cobertas e pego o livro O Remorso de Baltazar Serapião. Logo, estou enleada pelo universo inusitado e alegórico do romance, walter hugo mãe   escreve como fala. A oralidade domina toda a obra, que embora pareça fluir-lhe espontânea, técnicas narrativas e descritivas estão presentes. Enormes parágrafos, ausência de maiúsculas e de quase todos os sinais gráficos, exceto a vírgula e raros pontos, despreocupação com a sintaxe que segue apenas o ritmo da fala das personagens, constroem um texto de largos espaços de pura prosa poética.    

A falta dos marcos tradicionais e a torrente linguística não extraviam os caminhos do discurso nem nos fazem confundir os interlocutores do diálogo.  Na linguagem branda, subjaz a violência brutal que perfaz todas as relações de poder ou de sentimento do romance. As mulheres narradas são  figuras negativas e malditas. Todo o mal se origina sempre da palavra da mulher, que só é positiva calada e quando se assume como animal, animal de trabalho ou de prazer.  Cabe aos homens dar-lhes o ensino. Talvez por isso a fêmea-símbolo das coisas boas seja a vaca sarga que permeia toda a narrativa como um fio condutor.  Se a linguagem recorre por vezes a construções arcaicas como o tempo em que se insere, época vagamente medieval, sem lugar definido, a estrutura narrativa é moderna.

E mais não digo. Digo, apenas, usando o neologismo de Millor Fernandes: walter hugo mãe é imperdível.

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Luiz Ewandro LatteraHá 2 meses São Paulo USPO que me impressiona na linguagem de Ceres Costa Fernandes é a agilidade da narrativa. Não há curvas nem becos. Há uma avenida sem carros, onde o pensamento se casa com o vento nobre de uma encicoplédia de memória e história que se funde ao sentimento abissal dela, que sozinha, me faz navegar pelo mundo que pensa, entende e age. Gratíssimo!!!!!!
Alaíde de Macedo CostasHá 2 meses Lisboa PT (Mestranda brasileira).Boa noite Ceres. Na última palestra, ouvi dele que a sua verdadeira pátria é a língua portuguesa. Por ter nascido em Angola em um período de transição colonial e crescido em Portugal, ele não vê a língua como algo estático ou geográfico, mas como um organismo vivo. Para ele, o português é uma ferramenta de reconstrução da identidade. Ele utiliza a linguagem para "curar" as feridas da colonização. Muito interessante seu texto.
Prof. Juvenal Arbírio LusitanoHá 2 meses Rio de Janeiro RJPermita-me dizer, cara senhora. Valter Mãe embora tenha nascido em Angola e seja radicado em Portugal, possui uma conexão visceral com o Brasil. Para o mundo lusófono, ele serve como uma ponte, celebrando a língua portuguesa em suas diversas nuances. Sua obra é frequentemente citada como herdeira da profundidade de José Saramago, que o chamou de "tsunami literário". Sua escrita é profundamente empática. Ele foca na dignidade dos "pequenos", dos idosos, dos trabalhadores e das crianças.
Julianno GolveiaHá 2 meses Porto-PTParabéns, senhora. Estamos a ler com atenção e carinho.
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