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Quando a 'Páscoa' vira clique, a fé perde espessura sentimental e vira mecanicidade

“(...) “muitas vezes não se fala de valores para servi-los, mas para ser visto servindo-os. Aplicado às datas religiosas, isso ajuda a entender por que tantas mensagens soam corretas na forma e ocas na alma. Não porque toda pessoa seja cínica, mas porque o ambiente digital estimula a exibição do valor antes da vivência do valor.”

05/04/2026 às 10h25 Atualizada em 07/04/2026 às 11h28
Por: Mhario Lincoln Fonte: FACETUBES
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(Arte: mhl/ginaiFT).
(Arte: mhl/ginaiFT).

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes 

muitas vezes não se fala de valores para servi-los, mas para ser visto servindo-os. Aplicado às datas religiosas, isso ajuda a entender por que tantas mensagens soam corretas na forma e ocas na alma. Não porque toda pessoa seja cínica, mas porque o ambiente digital estimula a exibição do valor antes da vivência do valor.”

Há um ponto em que o “Feliz Páscoa” deixa de ser saudação de paz e esperança e passa a funcionar como moeda de circulação social. Não se trata de condenar toda mensagem enviada nas redes, nem de suspeitar de toda lembrança religiosa compartilhada entre amigos, parentes e conhecidos.

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Porém, o problema começa quando a data sagrada é tragada pela lógica do desempenho, do protocolo e da métrica algorítmica. Nesse instante, a celebração já não vale pelo que desperta na consciência, mas pelo que rende em visualização, reação, alcance e permanência no fluxo.

Por essa razão, a editoria-geral da Plataforma Nacional do Facetubes correu em busca de elementos que pudessem – dentro da mais pura realidade, sem achismos ou moralismo exacerbado - sedimentar comparativamente essas tais “mensagens de datas específicas”, (do ambiente digital), com a fantasia que há por trás delas. É chocante. Mas essa é a realidade atual.

 

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Na verdade, a literatura séria sobre religião digital ajuda a compreender esse desvio sem cair em simplificações. Pesquisadoras como Heidi Campbell (autor do livro famosíssimo, “autor da obra “O Herói de Mil Faces”) e Hope Cheong (pesquisadora na Arizona State University, especializada em tecnologias de comunicação, cultura e religião) vêm mostrando, há anos, que a experiência religiosa online não desaparece na internet, mas se reorganiza segundo a linguagem das plataformas, misturando devoção, presença pública, construção de autoridade, circulação simbólica e até práticas de autopromoção.

Mesmo assim, cabe aqui uma pergunta decisiva que foi feita na reunião de pauta para a elaboração dessa matéria: quantas dessas mensagens enviadas aos montes são realmente interiores e verdadeiras? Sem machucar intenções ou corações, a resposta que encontramos é muito forte, mas é honesta, à luz das fontes, mesmo que exija muita prudência.

Isso porque não há, até aqui, um estudo robusto e confiável que estabeleça um percentual capaz de medir quantas mensagens pascais em massa são sinceras no íntimo e quantas são apenas costume, reflexo automático, obrigação social ou tentativa de ganhar engajamento.

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Mas o que apareceu nas pesquisas é razão para acreditar que mais de 70% das mensagens enviadas (em grupos de WhatsApp) raramente são puras. Em geral, elas vêm misturadas com desejos sociais, necessidades de validação, buscas de reconhecimento e sinalização moral.

Essa mistura explica por que a mecanicidade cresceu tanto. O que mais chamou a atenção nas pesquisas realizadas pela equipe do Facetubes foi entender que a pessoa (que manda a mensagem) pode até sentir algum afeto real ao enviar uma figurinha religiosa ou uma mensagem pronta, mas também pode estar obedecendo ao ritmo do grupo, à obrigação implícita de “marcar presença” ou à vontade de não desaparecer do radar alheio.

 

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Por outro lado, ainda há, ainda, um conceito especialmente útil para entender o fenômeno contemporâneo. Chama-se moral grandstanding, algo próximo de ostentação moral. Pesquisas de Justin Grubbs (líder digital experiente com histórico comprovado na entrega de projetos complexos para clientes nos setores de e-commerce) e colaboradores indicam que parte do discurso moral público pode ser motivada pela busca de status e reconhecimento social, e que esse traço se relaciona a mais conflito, mais teatralização e maior ênfase na aparência pública da virtude.

Em linguagem simples, muitas vezes não se fala de valores para serví-los, mas para ser visto, servindo-os. Aplicado às datas religiosas, isso ajuda a entender por que tantas mensagens soam corretas na forma e ocas na alma. Não porque toda pessoa seja cínica, mas porque o ambiente digital estimula a exibição do valor antes da vivência do valor.

Sites específicos. (01)

 

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E aqui, pasmem, o ponto chave que as pessoas entram até mesmo sem ter a mínima ideia: existe por trás dessas “supermensagens com datas específicas”, uma organização profissional e estratégica em torno dessas datas. O mercado de comunicação digital trabalha há anos com calendários sazonais, datas comemorativas e “social media holidays” justamente para potencializar alcance orgânico, aproveitamento emocional e visibilidade de marcas. Isso significa que há, sim, grupos específicos — agências, equipes de marketing, criadores de conteúdo, perfis institucionais e consultorias — que planejam mensagens para datas sensíveis com o objetivo declarado de obter maior engajamento.

No caso do universo religioso, esse planejamento também aparece em organizações, líderes e perfis confessionais que usam a força simbólica da data para manter presença, audiência e relevância.

Foto (01): Hoje existem sites que faturam milhares de dólares com mensagens pré-fabricadas para todas as datas comemorativas.

O que essa mecanicidade representa hoje para os usuários das redes. Representa, antes de tudo, uma inflação do gesto simbólico. Quanto mais mensagens iguais, prontas e disparadas sem lastro pessoal circulam, menos cada uma tem forçade verdade. O excesso corrói a singularidade. O que deveria ser lembrança torna-se ruído. O que deveria ser afeto vira protocolo. E isso leva ao ponto de vista psicológico e social: a um padrão de fadiga informacional.

 

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Esse excesso de mensagens sazonais é uma pressão constante nas pessoas que as recebem e leva a exaustão emocional, ansiedade, sobrecarga mental e retração. O sujeito já não medita a Páscoa. Apenas a repassa. E repassar, nesse contexto, tornou-se mais fácil do que viver.

No fundo, a questão não é apenas tecnológica. É moral, cultural e espiritual. A mecanicidade de expelir mensagens aleatórias em datas específicas revela uma sociedade que passou a confundir manifestação com sentimento, visibilidade com presença e emissão com verdade.

Talvez o sinal mais triste de nosso tempo seja este. Nunca foi tão fácil desejar paz a tantos. E nunca foi tão difícil provar, com a própria ação, que se acredita nela.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes 

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Joizacawpy Há 2 meses São Luís Um texto interessante e necessário. Toda data comemorativa e em especial as religiosas, carregam em sua essência um valor humano em profundidade. Desse modo creio eu ser importante revermos algumas posturas e resignificar atitudes de forma a dar vida verdadeira às nossas ações e felicitações.
Carlos GermanoHá 2 meses RioExcelente matéria. Faz vc refletir.
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