
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Ignácio de Loyola Brandão esteve em São Luís para participar do projeto Conversações de Além-Mar. Tirou um tempo em sua agenda cheia para atender ao convite do canal Hipertexto, onde reafirmou a ligação afetiva que mantém com a cidade de São Luís-MA. Mas, vale aplaudir, antes de tudo, o poeta e filósofo Rogério Rocha, titular do canal, que, com per4guntas muito bem feitas, conseguiu ouvir de Loyola preceitos, ideias e teses incríveis, como, por exemplo, quando ele fala sobre o ponto central de sua trajetória literária: a escrita como forma de registrar o país em seus momentos de tensão.
Por isso, ao lembrar a geração de escritores surgida nos anos 1970, Loyola situou sua obra no contexto da ditadura, da censura e da circulação clandestina de informações que não chegavam ao público pelos meios oficiais. Mais que isso: ao comentar o romance Zero, Brandão mostrou que a fragmentação formal do livro não nasceu de um experimentalismo gratuito, mas da tentativa de traduzir um tempo em que a própria vida era vivida aos pedaços, sob violência contínua, repressão e insegurança.
Ele relatou que muito do material do romance veio de vivências jornalísticas, de notícias censuradas e de cartas que denunciavam torturas e arbitrariedades, o que ajudou a dar ao livro uma força documental rara dentro da ficção brasileira.
A entrevista também destacou a permanência de sua obra no debate público. O escritor observou que livros como Zero, Não Verás País Nenhum e Desta Terra Nada Vai Sobrar seguem atuais porque o país continua produzindo crises, distorções institucionais e situações que parecem ultrapassar a própria imaginação distópica. Nesse ponto, o escritor aproximou literatura e realidade, sugerindo que o Brasil permanece sob permanente instabilidade, agora refletida também em seu novo romance, Risco de Queda, inspirado ao mesmo tempo na experiência concreta da velhice e na percepção de um país politicamente vulnerável.
Na parte final da conversa, Ignácio de Loyola Brandão ampliou o retrato de si mesmo ao falar da crônica, da música e do diálogo com o palco e o audiovisual. Lembrou sua longa convivência com o jornalismo, o caráter instantâneo da crônica e a transformação de memórias pessoais em projetos como Solidão no Fundo da Agulha, levado a teatros e outros espaços de apresentação. O resultado da entrevista é o de um autor que continua pensando o Brasil a partir da experiência direta, da memória e da linguagem, sem separar criação literária, observação do cotidiano e responsabilidade histórica. Além do que, um entrevistador de altíssimo nível, filósofo, grande poeta e pensador do século XXI, Rogério Rocha.
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