
O livro “Retrospectiva Poética”, de Neves Azevedo, se insere na linha daqueles que contam histórias líricas corajosas que revelam uma compreensão madura do sofrimento. Nessa simbiótica pluralidade de prosa e poesia, explicita-se, também, boa parte da fé com um significativo detalhe: essa fé não aparece como fuga da dor, mas como forma de atravessá-la sem perder o sentido.
“Oh! Mundo estúpido (...)/Oh! Luta bandida/Mulher aprende.../ Que na escalada da vida/ quando as rosas sãos esquecidas. /Existe uma vida.../Envolvida em outra vida.”
Além do mais, é claro que esse livro está cheio de agradecimentos sinceros e carinhosos, como esse a Nilzenir, “aquela pessoa que inspira confiança”. Bela razão para palavras tão abarcantes e cheia de fé:
“A cada dia de tua vida/Ainda que não percebeste/ Deus cuidava de ti.../(...) Acompanhou (...)/ tua dor/ Guardava cada gesto teu/ com laços cheios de amor (...)”.
Se o livro explicita dor? Sim. O seria do poeta que não conseguisse expressar sua dor nas páginas brancas de um sonho? Mesmo assim,. Neves Azevêdo demonstrou tanta maturidade em suas linhas de lirismo que a dor pode até tentando esmagar sua caminhada vitoriosa, mas – e mesmo assim – a ajudou a encontrar revelações primordiais para continuar caminhando. E claro, houve protesto, lamento, questionamentos. Contudo, isso não rompeu com seus objetivos. Essa é a diferença essencial. Mesmo que alguns dos versos demonstrem um sofrimento existencial sem falsidade, há outros versos que mostram sinais evidentes (e fortes) de permanência espiritual em meio ao colapso.
No caso do poema “Perseverança”, por exemplo, a autora começa com busca, medo, tropeço, erro de aliança e negação. A voz poética admite fraqueza, reconhece ter dado ouvidos equivocados, confessa orgulho ferido e assume o quanto falhou.
Quando diz “Pior que Pedro eu fui... Inúmeras vezes te neguei”, o poema entra num território de confissão religiosa muito forte. A lembrança de Pedro não serve para condenar o lyricus I, mas para mostrar que a queda não encerra a caminhada. A consciência da falha já é um passo de retorno.
Já o verso central é aquele em que a presença de Jesus deixa de ser externa e passa a ser interior “Estavas dentro de mim... Eu sei!”. Aí o poema muda de eixo. A busca não termina num encontro distante, mas na descoberta de uma presença que permaneceu mesmo durante a vacilação. Esse movimento dá ao texto uma dimensão vitoriosa. A vitória, aqui, não é a de quem nunca caiu. É a de quem, depois de cair, percebe que não esteve abandonado. A perseverança, portanto, não nasce da força pessoal, mas da reaproximação com a fonte da fé.
Por isso, esse poema – um dos mais fortes do livro - pode ser lido como um grande respiro depois da noite. Não um respiro de esquecimento, “mas de reconstrução”. (como escreveu Bruna Lombardi, em Diário do Grande Sertão. A dor continua sendo lembrada, porém já não governa tudo. O sofrimento, filtrado pela fé, deixa de ser somente ferida e passa a ser também passagem. Desta forma, “Perseverança” reencontra Deus dentro de si, após negar, tropeçar e sufocar a própria escuta. Fica, Neves Azevedo, a lição de Jó, em (Jó 13,15), onde a fé não apaga a dor, mas impede que a dor tenha a última palavra.
Por outro lado, é simplesmente notável a forma como o poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras, prefaciador José Neres, captou esse e outros insights dentro dessa obra, aparentemente um conto de histórias cronometradas por tempo e espaço, mas que, na verdade, são degraus e obstáculos superados a cada toque do sino da consciência orgânico-espiritual da autora.
E ele, com olhos de lince, sempre atento a mudanças de norte e sublimação do equinócio do enredo, escreveu o seguinte:
Prefácio
ABRINDO PORTAS E JANELAS
José Neres, Escritor e Professor de Literatura
“Descobri que janela não traz felicidade,
Parece até que contribui.../ Para a tristeza entrar”. (Neves Azevedo)
Nossa vida é uma imensa casa com inúmeras salas, quartos, copas, cozinhas, banheiros e quintais. Mas há também nessa construção diária que fazemos muitos corredores estreitos, diversos porões e centenas de depósitos cheios de coisas e fatos dos quais nem mesmo às vezes nos lembramos. Mas todos fazem parte de nossa vida.
Para proteger-nos dos olhares alheios e de nós mesmos, levantamos muros, cercas de arame farpado, colocamos grades e outros aparatos de segurança em cada ponto que não queremos que seja invadido ou devassado. Mas também, para deixar que nossa própria história fique um pouco arejada, abrimos portas, escancaramos janelas e convidamos algumas pessoas que julgamos especiais para uma cerimônia em um dos cômodos exclusivos para os amigos.
É um dos muitos cômodos que construímos ao longo de nossa jornada, há um que fica bem protegido e no qual resguardamos o que nos é mais precioso. É o cantinho das recordações, a que poeticamente chamamos de saudade. Falar ou escrever sobre nosso passado é como deixar as portas e as janelas de nossa intimidade escancaradas e sem proteção contra os olhos alheios. Quase sempre, abrir a porta da memória significa passar a habitar em nós mesmos, conviver com lembranças, boas e ruins e descobrir que o passado não morreu. Ele vive em nós. E colocar isso no papel é assinar uma autorização para que nossa história seja (re)visitada não só por nós mesmos, mas por todos os que nos cercam e até por quem nunca irá nos conhecer pessoalmente.
É essa indescritível sensação de invadir a privacidade alheia que sentimos quando começamos a folhear as páginas deste livro da poetisa Neves Azevedo. A cada página, ela permite que o leitor se aprofunde um pouco mais nas memórias que habitavam alguns recantos particulares de sua história. A escritora, mesclou ao longo do livro momentos de sua vida com fatos históricos/políticos/sociais de um Brasil que saiu das páginas de jornal e entrou para os livros de História, mas não antes de ser sentido na pele de cada cidadão que passou pela angústia de ter sua liberdade cerceada, seu suado dinheiro confiscado e sua esperança sepultada, em umas que traziam a tarja de uma democracia muito suspeita encoberta pelos Leões de uma ditadura que teimava em sobreviver.
Em Retrospectiva Poética: Histórias em Versos, a cada poema, a cada estrofe, a escritora vai trazendo à tona recordações de fatos que marcaram sua vida. São 44 anos cobertos por algumas páginas. Uma vida que se descortina logo nas primeiras palavras, quando a escritora diz que:
“Água corrente é trajetória de uma poética, sem
cenário. A popa pobre monetariamente, mas
riquíssima de sentimentos e desejos de viver!”
“Morando em uma casa de taipa com meus
avos, não tinha um quarto só pra mim e nem
janela”
Ao longo do livro, a autora vai aos poucos mostrando passagens de sua vida para os leitores. Não se trata de confissões, mas sim de desabafos de alguém que encontrou nas páginas em branco uma forma de mostrar seus sentimentos e um pouco dos momentos históricos por que passou. Dessa forma, em alguns trechos da obra, a memória individual se mescla à coletiva, o que faz com que várias gerações se encontrem nas páginas deste livro. Um bom exemplo disso é quando comenta o confisco do dinheiro das cadernetas de Poupança que assustou quem tinha seus investimentos guardados em bancos. Nesse momento, Neves Azevedo mostra que a poesia, a angústia de um momento pode sair da memória e se transformar em poema pouco tempo depois:
“O governo Collor de Melo confisca minha
poupança. Tinha cuidado de receber minha indenização rescisória.
Fiquei sem emprego e sem dinheiro.
Como dizia meu avô. Poupança é gado no
pasto que governo não confisca.
Pela primeira vez odiei um Presidente”
A simplicidade estética e estilística é, juntamente com os recursos mnemônicos, a marca maior deste livro em que o mundo interior e o exterior se confundem. É preciso coragem para deixar as portas e as janelas da vida abertas aos olhos de pessoas muitas vezes estranhas, muitas vezes íntimas demais. Claro que os corredores e os porões da vida não precisaram ser devassados, e a escritora soube cobrir com o tecido do silêncio o que não precisa ser exposto. Porém, coragem é o que não falta para essa lutadora que enfrentou diversas batalhas e tirou de cada uma delas a matéria para sedimentar seus caminhos com poesia.
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