
Seção da Plataforma Nacional do Facetubes revela autores, forma leitores e já inspira projeto editorial em livro
Hoje, a SEGUNDA POÉTICA consolidou-se como uma das vitrines mais consistentes da poesia contemporânea no Brasil, com leitura espalhada por diversos estados e crescente reconhecimento entre autores, leitores e agentes culturais. Mais do que divulgar poemas, a seção passou a revelar vozes, apresentar novos nomes ao país e reafirmar a permanência da palavra poética em tempo de dispersão. O convite já feito à Plataforma Nacional do Facetubes para o lançamento de um livro com as publicações da SEGUNDA POÉTICA confirma a dimensão alcançada por esse trabalho editorial.
Ao apresentar, por exemplo, a força da escrita de Maria Isabela ao público brasileiro, a seção não apenas cumpre o papel de difusão, mas participa ativamente da formação de novos referenciais da poesia nacional, elevando, a cada edição, a presença da literatura nos quatro cantos do país. As resenhas são do editor-sênior, jornalista profissional (MTb1015-MA), Mhario Lincoln.
Apresento-lhes:
SINGELO POEMINHA HENDECASSÍLABO PARA UMA ESTRELA DAS MADRUGADAS E MANHÃS
EDMILSON SANCHES
Aquela estrela está de caso comigo.
No mínimo estamos meio assim-assim
-porque todas as vezes que olho para ela
não é que ela está piscando para mim?
Sob a aparência leve e quase brincalhona, o poeminha de Edmilson Sanches encena uma velha questão filosófica com rara delicadeza: a tendência humana de humanizar o mundo para não atravessar sozinho a experiência de existir. Quando o insight lírico imagina que a estrela “está de caso” com ele e interpreta seu brilho como 'piscadela', não descreve apenas um céu noturno, mas a necessidade profunda de converter o acaso em sinal, a distância em intimidade e o silêncio do universo em resposta afetiva. Há nisso uma pequena metafísica do desejo, porque a consciência, diante da vastidão impessoal do cosmos, cria laços, insinua reciprocidades e transforma um ponto de luz em companhia. O humor, longe de diminuir o poema, amplia sua verdade, pois revela que muitas vezes o amor começa exatamente onde a imaginação salva o real de sua frieza.
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ATÉ QUANDO...?
*Carmen Dias
Até quando desmontar
as tralhas e seguir,
sabe Deus para onde,
outra vez ...
Até quando ...?
jardins e quintais,
deixar e partir,
em busca de um novo lar,
de um novo jardim
a plantar e a florir,
sabe Deus, em que lugar...
Quisera um porto seguro,
céu azul, mar em paz.
Quisera ...
descansar os sonhos,
cantando cantigas
de adormecer à beira
do a mar.
No poema de Carmen Dias, a pergunta “até quando?” não é apenas geográfica, mas ontológica, porque exprime o cansaço de uma existência obrigada a recomeçar sem nunca se fixar inteiramente no mundo. Desmontar “tralhas”, deixar “jardins e quintais” e partir outra vez transforma a vida numa travessia em que o ser humano parece condenado a buscar abrigo sem jamais possuir, de fato, um chão definitivo. O texto toca numa das dores centrais da condição humana, a instabilidade, essa sensação de que quase tudo é provisório, inclusive os afetos, os lugares e os sonhos. Por isso, a imagem final do “porto seguro”, do “céu azul” e do “mar em paz” não vale só como desejo de descanso físico, mas como anseio por permanência, conciliação e sentido. O poema, assim, com linguagem simples e emotiva, converte a mudança contínua numa meditação sobre o desabrigo da alma e sobre a esperança, sempre teimosa, de que um dia viver deixe de ser apenas 'partir...'.
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O Que a Vida me Diz?
Maria José da Silva
A vida me diz
Para nunca desistir:
Seguir sempre seu destino
Com esperança e sorrindo.
Não importa a distância...
A vida vai florecer.
Você vai conseguir
E um dia irás vencer.
O que a vida me diz?
Jamais esmorecer.
O mundo é imenso...
Mas, você vai aprender.
Aprender suportar
Sorrir para não chorar.
Um dia vai regozijar!
E seu destino encontrar.
O que a vida me diz?
Seja sincero e feliz.
Serás então vencedor,
Você tem seu valor.
No diálogo poético de Maria José da Silva, a vida surge quase como uma mestra interior, uma voz ética que ensina a suportar a travessia sem ceder ao desalento, o que aproxima o poema de uma visão filosófica fundada na resistência, na esperança e no aprendizado pelo sofrimento. Quando o texto afirma que é preciso “seguir”, “não desistir”, “sorrir para não chorar” e “aprender suportar”, ele traduz uma sabedoria antiga segundo a qual viver não significa escapar da dor, mas transformá-la em disciplina da alma. Há também uma confiança clara no devir, porque a vida é apresentada como processo, não como estado pronto, e o destino não aparece como fatalidade cega, mas como construção moral de quem persevera com sinceridade e conserva o próprio valor. Nesse sentido, o poema assume um tom quase estoico e pedagógico, ao sugerir que a grande vitória humana não está apenas em alcançar um fim exterior, mas em tornar-se, no percurso, alguém mais firme, mais consciente e mais digno de si.
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POEMA ESCOLHIDO
Patrícia Araújo teve seu poema escolhido entre vários perfis do Facebook.
Tríccia A.
Não queria falar, de novo,
sobre saudade, mas,
tua ausência me obriga a isso.
Então mergulho, primeiro os pés,
depois, sinto o corpo todo submergir
nesse líquido denso, de cor invisível.
(O vazio é assim, não reflete nada!)
Também não tem cheiro,
nem deixa vestígios,
posto que não tem chão,
porque não se alcança o fundo.
Saudade é esse silêncio gélido
e, se me agasalho, é no medo.
É o lugar onde nos sentamos
para ver o cerimonial
das melhores lembranças.
Uma prisão sem grades
e sem a menor chance de fuga.
Sentir saudade é um modo
de não mentir o sentimento,
de não trair o coração
que se encontra em desespero.
Ninguém volta desse mergulho
inteiro. É como despertar
de uma antiga insônia,
atordoado demais
para se encarar no espelho.
No poema de Tríccia A., a saudade deixa de ser simples lembrança afetiva e se converte numa experiência radical de submersão no vazio, como se a ausência tivesse densidade própria e arrastasse o sujeito para uma região onde já não há chão, reflexo nem saída. Achei o texto profundo, porque entende a saudade não apenas como falta de alguém, mas como prova de que o ser humano continua habitado por aquilo que perdeu. Quando a poeta diz que “sentir saudade é um modo de não mentir o sentimento”, ela toca num ponto ético decisivo, pois sofrer a ausência passa a ser uma forma de fidelidade interior, quase um dever do coração diante do que foi verdadeiro. A imagem do mergulho, da prisão sem grades e do retorno nunca inteiro mostra que recordar, às vezes, não consola, mas desfaz; ainda assim, é nesse desfazimento que o sujeito reconhece sua própria humanidade, porque amar de verdade implica aceitar que certas perdas não se superam sem deixar marcas. O poema, assim, transforma a saudade numa fenomenologia da ausência e numa meditação severa sobre a impossibilidade de sair ileso daquilo que um dia nos constituiu.
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A ESTREIA NACIONAL: poeta Maria Isabela
Medo
*Maria Isabela
O seu medo de se entregar por completo
é o receio que corrói o seu interior:
de que o passado se repita,
de que a intensidade seja momentânea
e de que eu quebre o seu coração no final.
E enquanto o seu medo te consome,
eu estou aqui, a quilômetros de distância,
suspirando de saudade
daquilo que ainda nem vivi ao seu lado.
Eu e você já sabemos
o nome do sentimento
que cresce em nossos corações
a cada dia que passa.
E, quando surgir dúvida
daquilo que sinto,
apenas veja
tudo aquilo que você me causa
sem ao menos me tocar.
No poema de Maria Isabela, o amor aparece não como abrigo imediato, mas como campo de tensão entre desejo e trauma, entre a promessa da entrega e o pavor de reviver antigas ruínas. Esse poema revela uma verdade dura a de que muitas vezes não é o desamor que impede o encontro, mas a memória ferida, esse passado que permanece agindo como juiz do presente e ensinando o coração a desconfiar até daquilo que o poderia salvar. Vale dizer que o verso “saudade daquilo que ainda nem vivi ao seu lado” é o centro mais fundo do poema, porque exprime uma forma rara de ausência a falta antecipada, o luto do que ainda não aconteceu, mas já pulsa como destino possível. A distância, nesse caso, não é apenas física; ela é existencial, feita de medo, hesitação e silêncio. E quando a voz lírica pede que o outro veja “tudo aquilo que você me causa sem ao menos me tocar”, o poema atinge sua força maior ao mostrar que certos afetos mais profundos não precisam do corpo para começar a incendiar a alma. Trata-se, assim, de uma meditação intensa sobre o amor interrompido antes mesmo de nascer por inteiro, e sobre a tragédia íntima de quem deseja ser amado, mas teme que amar seja, mais uma vez, o início da queda.
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Convidada especial/Rita Delamari
ESTRELA MAIOR
RITA DELAMARI
*a Carolina Maria de Jesus.
Sangue nas veias!
O que vem das senzalas,
o da negra luta, o que lhe deu
a raça e sede de justiça
O poder da palavra escrita
a voz potente da favela
a genialidade da mulher semianalfabeta
Escreveu sobre a pobreza
e da vida, as dificuldades
a fome e a falta de oportunidade
Uma mulher e os livros a catar
eram a sua viagem, a sua evolução...
Encontrava nos papéis,
a branca paz
a sua verdadeira liberdade
e a sua redenção
Com seu grito
construiu a sua morada...
Mãe solo que fazia do papel
o custo do seu viver
Precursora em ter o olhar
ao cotidiano periférico
olhando a si e à cidade
No livro, despejou
as condições dos moradores da favela.
Muito lida e logo esquecida
tanta força e verdade
que aos intelectuais
chamou a atenção.
Paradoxalmente
pelos mesmos do reduto
foi apagada da história
Mas, como apagar o sol?
Como esconder, no infinito céu, a Lua
e ofuscar o brilho das estrelas?
Sua luz jamais se apagará,
é intrínseco da natureza viva
Assim como você, Carolina.
Rita Delamari
Do livro Maré de Vênus (Ed. Donizela, 2025) - Parte I “A capa da heroína”, (pág. 30).
A poesia de Rita Delamari representa um gesto de resgate da memória e um poema histórico acerca de uma mulher negra, favelada, mãe solo e escritora que transformou a própria escassez em linguagem de denúncia. Ao evocar Carolina Maria de Jesus como força nascida “das senzalas” e da “negra luta”, o poema recoloca no centro da cultura brasileira uma voz que durante muito tempo foi lida com espanto, mas não acolhida com a permanência que merecia. Há, nesse contexto, uma crítica clara ao modo como o país consome a verdade dos marginalizados quando ela choca, mas depois a empurra para as bordas da história. Por isso, o poema não é apenas homenagem; é também acusação social, porque expõe o racismo estrutural, a desigualdade de classe e a seletividade da memória literária brasileira. Desta forma, a poeta Rita reconstrói Carolina como luz irredutível, alguém que fez do papel recolhido na rua não só sustento, mas libertação e consciência. Assim, sua poesia representa a defesa de uma literatura que nasce da periferia, da fome e da experiência concreta, mas que recusa qualquer lugar de inferioridade e se impõe como patrimônio vivo da dignidade humana.
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