
*Mhario Lincoln c/Fotos de Eneas Gomez
Tudo começa pela capa. Não só pela simplicidade, mas pela força expressiva que ela representa, se olhada com olhos de quem realmente conhece Francisco Simeão Rodrigues Neto. Na verdade, a capa do livro autobiográfico “Quem muda, permanece”, foi elaborada por Marco André Medeiros e supervisionada pelo jornalista e editor Eduardo Sganzerla; ambos acertam ao transformar simplicidade em presença, a começar pela fotografia em preto e branco, num enquadramento sóbrio, frontal e sereno, que transmite experiência, firmeza e humanidade antes mesmo da leitura começar. Contudo, é o título, a grande solução gráfica da peça: “QUEM MUDA, PERMANECE”, sugerindo, ao mesmo tempo, transformação e permanência, movimento e legado. Ou seja, uma capa limpa, distinta e coerente com o espírito autobiográfico do livro.
Sim, uma autobiografia escrita por Francisco Simeão, que pela disposição humanizada dessa obra literária, entra numa raríssima lista de autobiografias de empresários que se impõem mais pelo retrato humano do que pela cartilha de negócios. Entre elas, no Exterior, a de Shoe Dog, escrita por Phil Knight. Nessa, o fundador da Nike expõe menos ações como executivo consagrado e mais como homem cercado de lealdades, riscos e fracassos, deixando claro que a empresa nasceu da vontade, improviso e vínculos pessoais.
Vale destacar, no Brasil, por sua vez (e essa é minha opinião pessoal), a essência de empreender, de Miguel Krigsner, porque o criador de O Boticário desloca o foco do feito empresarial para a formação do indivíduo, para a memória dos começos, para o peso das relações e para a ideia de que crescer, antes de ser - ‘expandir um negócio’ -, é aprender a lidar com gente, tempo e responsabilidade.
Em Quem muda, permanece, lançado neste 15.04.2026, na Livraria da Vila, no Shopping Pátio Batel, em Curitiba-PR, Chico Simeão organiza a própria trajetória sem posar de herói pronto. O livro tem, sim, o itinerário empresarial de alguém que atravessou comércio, banco, fertilizantes, Maranhão, galpões logísticos, pneus e construção civil. Mas a parte mais consistente da narrativa está em outro lugar, ou seja, na forma como ele retorna, repetidas vezes, às pessoas que o moldaram, o sustentaram e caminharam com ele. É isso que dá espessura humana ao volume e impede que a autobiografia vire apenas inventário de vitórias.
As melhores páginas do começo são justamente as que antecedem qualquer ideia de sucesso. O menino que se sentia “livre como o vento” na Fazenda Boa Sorte, aparece antes do empresário, e isso muda o eixo da leitura. O pai, Waldomiro Simeão Rodrigues, surge como figura de destemor e disciplina moral, sobretudo quando ensina que mentira abre caminho para todo desvio. A mãe, D. Beta, aparece como cabeça organizadora da casa e dos pequenos negócios, mulher de conselho, firmeza e sacrifício. O livro acerta quando mostra que a origem de Chico Simeão não está numa fórmula de coisa fácil, mas numa educação dura, afetiva e profundamente familiar.
Também merece atenção o modo como a autobiografia entrega a palavra aos que conviveram com ele sem cerimônia. Nesses depoimentos, o retrato fica menos oficial e mais verdadeiro. A irmã Elizabeth Rodrigues Casimiro o chama de “paizão”, diz que ele sempre pensou na família e nos amigos e lembra que era “arteiro, mas responsável”. (E foi dela, de Beth, que saiu o rim, em recentíssimo transplante que o irmão Chico se submeteu e que lhe deu sustentação e continuidade de vida).
É por isso que dentro da obra, todos os depoimentos são de extrema importância, porque mostram o Chico, sendo Chico, não o Sr. Francisco Simeão – que em determinado momento foi ‘apelidado’ de “Chico Rico”. E um desses depoimentos, é do filho Fernando Rodrigues: “um gênio disfarçado de homem comum”.
Ora, não posso deixar de fazer essa analogia com a história de ‘Dom Quixote de La Mancha’, cuja ideia de “um gênio disfarçado de homem comum”, carrega a rara potência de reinventar o real, de se insurgir contra a mesmice do mundo, de devolver grandeza àquilo que a vida prática havia rebaixado e, por muitas vezes, antes de pensar em dividendos, pensar em garantir sobrevivência do outro. Seu “gênio” não está na razão calculadora, e sim na capacidade de dar dignidade ao impossível e de provar que, às vezes, é o homem aparentemente comum quem abriga a visão mais alta sobre coragem, honra e sentido da existência.
É por isso que o capítulo “Memórias guardadas pelo tempo” me tocou profundamente ao se impor como o coração sentimental do livro. Nesse capítulo, Chico Simeão deixa de falar como quem enumera etapas e passa a falar como quem agradece a vida recebida. Assim, Mara Bonetto não é tratada apenas como esposa, mas como centro de equilíbrio da casa, mãe dos três filhos e companheira que participou, com coragem, dos anos mais ásperos. Quando ele escreve que Mara foi “presente de Deus” e reconhece que ela segurou sozinha a rotina doméstica enquanto ele trabalhava, o livro ganha uma densidade emocional que nenhuma planilha de negócios alcançaria. A memória, ali, não serve para exibir. Serve para reparar, agradecer e comover.
Vale dizer que as grandes obras por trás desse empreendedor orgulha a todos nós, porque nos leva a ratificar, até agora, todos os empreendimentos, sob a supervisão direta dele e de seu sócio histórico Luiz Bonacin Filho, “um irmão, um amigo”, como ele mesmo afirma. São projetos que se tornam realidade e mudam a história de onde estão implantados.
E por que isso? Porque, repito, investimentos altíssimos só encontram legitimidade plena quando deixam de ser monumentos ao capital e passam a funcionar como instrumentos de alcance coletivo, porque o verdadeiro valor de uma grande obra não está apenas na cifra que a ergue, mas na rede de bem que ela produz ao redor — empregos, moradia digna, mobilidade, educação, saúde, oportunidade, circulação de renda e sensação concreta de futuro para quem antes vivia à margem dele.
Por isso, o livro registra a passagem pelo projeto agropastoril e madeireiro no Oeste do Maranhão, a liderança em fornecedores de dormentes, a construção de grandes estruturas de armazenagem, a BS Colway e, mais recentemente, o Ecoparque Bairros Integrados (a menina dos olhos – atual - de Chico e Bonacin). Uma potência que por si só, se fecharia em copas e deixaria a história contar o resto.
À propósito, Carlos Marassi - um dos apoiadores dos projetos de Chico&Bonacin - disse: "No lançamento do livro, ficou claro que Simeão é um ícone entre os empresários e políticos. Todos gostam verdadeiramente dele". Mesmo assim, o autor não se fecha no “eu”. Ao agradecer publicamente ao sócio Luiz Bonacin Filho, a quem atribui parte decisiva da trajetória de sucesso, Chico revela algo raro no gênero autobiográfico: a disposição de dividir mérito. Ao defini-lo como companheiro e conselheiro nas horas boas e difíceis, ele humaniza a parceria e a retira do lugar burocrático da sociedade empresarial.
Destarte, “Quem muda, permanece” deve ser lido com outros olhos, que não uma obra puramente econômica. Mas como celebração de uma carreira e mais como testemunho de um homem que saiu cedo para o trabalho, recomeçou algumas vezes, protegeu os seus e nunca conseguiu falar de si sem falar dos outros. A meu ver, é essa a grande mensagem desse livro.
Francisco Simeão aparece nela, autobiograficamente, não apenas como empreendedor de grande escala, mas como filho marcado por princípios, irmão de amparo contínuo, marido agradecido, cunhado das horas mais difíceis, pai admirado e amigo capaz de repartir caminhada. E talvez seja justamente por isso que sua autobiografia permaneça. Porque, antes de contar o que construiu, ela deixa ver por quem construiu.
Em tempo: o livro, com tiragem de 5.000 exemplares, tem a renda das vendas destinada à Associação de Amigos do HC (Hospital de Clínicas). Essa arrecadação contribuirá para a construção do HCzinho, que vai atender crianças pelo SUS.
*Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes e presidente da Academia Poética Brasileira.
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