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Mais um texto da acadêmica Socorro Guterres: “Memento mori (por Tolstói)”

Socorro Guterres é da Academia Poética Brasileira/Seccional RGN

22/04/2026 às 15h05
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
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(arte: mhl/ginaiFT)
(arte: mhl/ginaiFT)

Socorro Guterres, da Academia Poética Brasileira/RGN.
       
 Tolstói legou extraordinários romances  sobre a existência humana, como o épico Guerra e Paz (1869)  e o trágico Anna Karênina (1877); tanto que Virgínia Woolf o considerava "o maior de todos os  romancistas", por sua narrativa extremamente convincente. Contudo, é em uma pequena novela de 12 capítulos curtos e aproximadamente 80 páginas que o autor russo expõe uma grande reflexão sobre a superficialidade da vida ante a  iminência da morte, na representação de Ivan Ilitch, figura central da narrativa, que morre aos 45 anos de idade. LeonTolstói escreveu essa novela numa época de transição pessoal e  desilusão social, detalhando com precisão os sentimentos dos personagens, bem como a inevitabilidade da morte.


    Publicada em 1886, A Morte de Ivan Ilitch  nos dá uma medida do homem comum e da condição humana. A trama se passa num ambiente de ostentação da burguesia russa. Ivan Ilitch é um juiz de instrução que procura manter uma imagem de respeitabilidade frente às convenções sociais, e ao mesmo tempo distancia-se em relação às pessoas ao seu redor, sendo retratado como um "escravo da lei" em sua dedicação mecanicista e formalista  na aplicação do Direito. A história inicia-se com o narrador onisciente relatando uma conversa prosaica que se passa entre os colegas de trabalho de Ivan Ilitch, membros e promotores públicos do Tribunal de Justiça,  ao serem notificados de sua morte, os quais num misto de farsa social, ironia e certo alívio especulam as prováveis transferências e promoções que resultarão desse óbito, num sentimento complacente de que, afinal, "foi ele quem morreu, e não eu". Essa hipocrisia geral estende-se também à viúva de Ivan Ilitch, Praskovya,  preocupada com as questões financeiras advindas da viuvez. Na verdade, dentre os gestos teatrais de familiares e amigos que acompanharam a degeneração física de Ivan Ilitch há alguém  que genuinamente se compadece dele e encara a morte como algo natural, trazendo-lhe algum conforto:  um jovem criado camponês, Gerasim, é o único personagem autêntico, numa simbolização da pureza e simplicidade, valores muito prezados por Tolstói,  que apesar de nascido em família aristocrática, divergia do mundo real que o rodeava.

Desse modo, há no relato ficcional primeiramente uma perspectiva de Ivan Ilitch fornecida pelas pessoas que conviviam com ele e só depois o enredo expõe os próprios pensamentos do personagem principal, o que podemos de certo modo associar às Memórias Póstumas de Brás Cubas , do nosso imortal Machado de Assis, cujo protagonista explana da campa, com ironia e sarcasmo, sua própria história. Brás Cubas nega a dor, porém Ivan Ilitch prestes ao desenlace a evidencia, tornando-a um sentimento não apenas físico, mas também metafísico. 

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    "E se toda a minha vida estiver errada?", pergunta-se Ivan Ilitch. No desenrolar da trama, o personagem desperta para a realidade e faz uma autobiografia revendo sua infância,  a formação intelectual, o casamento por conveniência, os filhos gerados nessa união e as atribuições do cargo que exercia como juiz instrutor do regime czarista; percebendo assim, à beira da morte, que tudo aquilo por que lutou era irrelevante.  Apesar de toda a angústia, ele busca um sentido mais profundo para a vida. Não há na narrativa a causa específica do falecimento, sabe-se apenas que talvez tenha se  desencadeado por um acidente banal na decoração da casa nova que o alto cargo de juiz lhe proporcionou. No capítulo IX há a  notável metáfora do saco negro,  quando o personagem toma uma dose de ópio para amenizar a dor, conforme discorre o narrador:

       Pareceu que ele e sua dor estavam sendo empurrados para _um_ saco preto estreito e profundo , mas embora fossem empurrados cada vez mais para dentro , não conseguiam alcançar o fundo . E essa sensação , terrível o suficiente por si , vinha acompanhada de sofrimento .  Ele estava com medo , mas queria cair dentro do saco . Resistia , mas também cooperava . E , de repente , rompia o saco , caía e recuperava a consciência ". (Tolstói, 2024).


    No final, Ivan Ilitch  percebe que no fundo desse buraco negro havia luz e que sua vida ainda poderia ser retificada, no alcance da compaixão. Então, se dá conta de uma "alegria", pois a morte não existia mais.  Essa novela influenciou escritores em culturas e períodos diversos, como Franz Kafka, James Joyce e a já citada Virgínia Woolf, no que diz respeito ao estilo introspectivo e a densidade psicológica. É abordando a morte que Leon Tolstói fala sobre a vida, permitindo uma iluminação sobre o que seria o "bem viver".  A_ Morte_ de Ivan Ilitch ,  considerada por Vladimir Nabokov, poeta e escritor russo-americano, como uma obra-prima absoluta, continua a instigar leitores ao redor do mundo, induzindo-os a  refletirem sobre suas próprias escolhas e prioridades. E soa, sobretudo, como um memento mori , mostrando com severidade a finitude e a brevidade do tempo.

 

Referência:
Tolstói, Leon. A Morte de Ivan Ilitch . Série Ouro. Barueri: Editora Garnier, 2024.

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JaimeHá 2 meses BSB/DFArtigo refinado e reflexivo.
Ranilson Albino de BarrosHá 2 meses Natal / RN Já li alguns autores russos, mas agora senti-me impulsionado a revisitá-los e aprofundar-me no universo da literatura russa. Gratidão por essa maravilhosa partilha de saberes!
Keila MartaHá 2 meses São LuísOs grandes escritores russos tem muito a nos ensinar, acredito que se quisermos ser grandes na literatura e arte em geral precisamos aprofundar sobre a cultura russa, um povo que era tão inferior em níveis de conhecimento formal, bebe de outras fontes e renasce com uma literatura tão bonita e transgressora, são apresentadas as questões humanas numa dimensão que poucos conseguem chegar e entender. Parabéns a confreira pela tão excelente matéria! Sucesso...
Sandra xavier Há 2 meses Natal.rnLi e gostei muito,tem uma mensagem suave,mas bem profunda.Uma sensibilidade que toca a gente.
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