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Novo livro de Wanda Cunha, “Retalhos”, costura dor, memória e liberdade feminina

Wanda Cristina da Cunha e Silva nasceu em São Luís, em 1959, filha do escritor e jornalista Carlos Cunha e da professora Plácida Jacimira Cabral da Cunha, e iniciou cedo sua trajetória literária, com formação em Comunicação Social e Letras.

26/04/2026 às 10h27 Atualizada em 26/04/2026 às 10h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln (autor).
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(Wanda Cunha e Mhario Lincoln), arte: mhl/GinaiFT
(Wanda Cunha e Mhario Lincoln), arte: mhl/GinaiFT

Por Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes

Wanda Cunha entra no romance com uma obra de risco. Retalhos, publicado pela Editora Litteralux neste 2026, não se limita a contar a história de uma mulher diante da morte brutal do marido. O livro parte de um crime, atravessa o luto, mergulha no candomblé, visita mitologias africanas, egípcias, bíblicas e mesopotâmicas, cruza a escravidão, a Inconfidência, Palmares e a hipótese da vida aprisionada numa máquina. É romance de mulher, de corpo, de fé, de violência e de reconstrução. O sumário já anuncia essa arquitetura fragmentária ao organizar a narrativa em núcleos como “A doação de memória”, “A escritora vira escrava”, “Janna foi Dandara”, “Makeda e Sulamita”, Enheduana e Inanna”, “Mundos: matriarcal versus patriarcal” e “A vez da fênix”.

Na verdade, vou também correr o risco – a priori – e classificar a obra, a partir da grande ideia de algo parecido com o que vou chamar de ‘crônicas com enredo e continuidade’ porque descreve textos curtos (como crônicas), mas que formam uma narrativa contínua, com personagens recorrentes e desenvolvimento da trama — algo entre a crônica tradicional e o romance seriado. Aliás, - sempre a priori – me chamou muito a atenção esse generativa, fato que inevitavelmente me trouxe para   a mesma mesa Machado de Assis.

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Mutatis Mutandi, Machado escrevia crônicas semanais, mas muitas vezes criava personagens recorrentes e miniarcos narrativos, se  aproximando de uma continuidade ficcional. Isso aparece em análises acadêmicas sobre o gênero crônica, que destacam sua flexibilidade e mistura com elementos ficcionais, ou om a cadência única de romances capitulares, de difícil envergadura e consistência, fato que atribui a obra de Wanda Cunha merecidas palmas.

Contudo, a força do livro igualmente está no seu título, haja  vista...

“Tudo ali é retalho: o corpo morto, a memória ferida, a mulher atravessada pela história, a literatura brasileira tentando recompor o que a violência destruiu”.

 O romance começa com uma imagem dura. Jorge, marido de Janna, aparece esquartejado dentro da própria empresa de informática, com a cabeça no cesto de lixo. A cena não é apenas policial. É o primeiro gesto simbólico da obra. O corpo masculino retalhado abre caminho para a investigação de corpos femininos também retalhados pela traição, pelo estupro, pela escravidão, pelo apagamento histórico e pela disputa entre fé e ciência. Janna, professora de História das Literaturas, escritora e ativista cultural, recebe a notícia da morte dentro de um terreiro.

 

A dor conjugal, então, não vem sozinha. Ela chega acompanhada por Xangô, Iemanjá, Ísis, Osíris e Set. A tragédia doméstica se desloca para uma cena maior, onde a morte do marido passa a dialogar com mitos antigos de desmembramento, recomposição e maternidade. O mote profundo de Retalhos é este: uma mulher tenta recompor o amor, mas descobre que antes precisa recompor a si mesma.

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A busca por Jorge transforma-se numa travessia por outras mulheres. Janna procura o marido morto, mas encontra Ísis, Iemanjá, Joana, Maria Firmina, Dandara, Chica, Madalena, Makeda, Sulamita, Enheduana, Inanna, Hannah Arendt, Anastácia, Luíza Mahin, Aqualtune, Zeferina, Maria Felipa, Catarina Mina e Maria Aragão. A cada encontro, o romance afirma que a memória feminina não é linha reta. É costura. É cicatriz. É arquivo espiritual e político.

A obra dialoga com força com Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. A comparação não é externa ao livro. Wanda Cunha coloca Janna diante da obra de Firmina e faz da leitura de Úrsula uma passagem decisiva da narrativa. No romance de Wanda, Janna lê a autora maranhense como pioneira, invisibilizada por ser mulher e negra, e reconhece em Úrsula não apenas um livro abolicionista, mas uma denúncia da mulher como “a outra oprimida do outro”.

A aproximação é justa. Úrsula, publicado em 1859 é reconhecido como romance precursor da temática abolicionista na literatura brasileira e como uma das obras inaugurais da autoria feminina no romance nacional. Fui pesquisar além da ponte do Estreito dos Mosquitos e achei na Biblioteca José de Alencar, da UFRJ, vários textos destacando seu pioneirismo como primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil, primeiro romance da literatura afro-brasileira e precursor da temática abolicionista.

 

Então – sem comparar, mas já comparando - a diferença –comparação hipotética e despretensiosa - é de procedimento. Maria Firmina escreveu contra a escravidão por dentro do século XIX, com os instrumentos narrativos de seu tempo. Wanda Cunha escreve no século XXI, depois das teorias feministas, depois da redescoberta de Firmina, depois da discussão racial contemporânea, depois da tecnologia e da hipótese de uma memória transferida para máquinas. Úrsula abre a ferida. Retalhos põe o dedo nela, volta ao porão do navio, entra na senzala, sobe a Serra da Barriga, visita o hospital, atravessa a biblioteca e pergunta se a humanidade aprendeu alguma coisa.

Por isso, os cenários são decisivos. O terreiro é o primeiro espaço de revelação. A empresa de informática é o espaço do crime e da modernidade corrompida. A biblioteca é a porta de acesso ao tempo. O navio negreiro é o lugar da degradação absoluta. A senzala é o corpo social do estupro. Palmares é o território da liberdade sitiada. Diamantina, com Chica, abre a tensão entre poder, corpo e reputação. O hospital devolve a narrativa à fronteira entre delírio, diagnóstico e vida espiritual. A máquina, por fim, é o túmulo sem-terra, o lugar onde a memória sobrevive, mas a alma parece perder o direito de morrer.

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Entre as situações mais agravantes, nenhuma supera a sequência em que Janna vira escrava. A personagem é arrancada da condição de escritora e leitora para ser transformada em mercadoria humana. O romance expõe o porão, a sujeira, o assédio, o estupro, a venda em praça pública, a perda do nome, a ameaça constante da casa-grande e o medo do corpo feminino reduzido a uso.

Há uma violência física evidente, mas a agressão maior está na operação simbólica. A mulher que lia, escrevia e interpretava o mundo passa a ser tratada como coisa. É nesse rebaixamento que Wanda Cunha atinge um dos pontos mais duros do livro.

Dandara surge como resposta. Quando Janna acorda com o semblante da guerreira de Palmares, o romance desloca a pergunta do sofrimento para a resistência. A questão deixa de ser apenas o que fizeram com as mulheres e passa a ser o que elas fizeram diante do horror. Dandara, no livro, não é sombra de Zumbi. É consciência política, corpo de luta, voz que se recusa a aceitar a versão fácil da história.

O que    deixou emocionado foi entender que Wanda ao citar essas grandes mulheres, se deixa funcionar como uma genealogia, onde Maria Firmina é a matriz literária; Dandara é a matriz da liberdade; Chica, a tensão entre poder e estigma; Maria Madalena, a mulher lida pela tradição sob suspeita, ainda que o romance lhe devolva densidade espiritual. Makeda, a Rainha de Sabá, representa soberania, conhecimento e desejo sem submissão; Sulamita traz a força do amor e do corpo feminino na tradição bíblica; e Enheduana, apresentada como sacerdotisa, filósofa, poeta e primeira escritora do mundo, amplia o alcance do romance para antes do próprio Ocidente literário.

Nesse ponto, Wanda Cunha se afasta do romance convencional e se aproxima de uma ficção de montagem, mais propriamente como me referi às primeiras linhas. Mas tudo isso para ratificar Retalhos como uma obra densa que não pede suavidade, nem tapinhas nas costas, nem mensagens de palminhas nem coraçãozinhos. Retalhos é um grito. Um grito forte de uma autora que precisa também de um ‘respiro’, como escreveu Bruna Lombardi:

"Expor a loucura, desnudá-la, compartilhá-la com todos (...). Talvez, alguns queiram um respiro. Um grande respiro. Uma tomada de ar. Apenas isso". Bruna Lombardi - Diário do Grande Sertão. (Essa citação abre o capítulo V, do livro Ina a Violação do Sagrado, de MHL).

 

Quem o leu com profundidade resgatou muito mais que uma história capitulada. Entendeu que esse excesso deliberado de referências, mudança de planos, travessia entre tempos, mundos paralelos, sonho, doença, mediunidade, memória computacional e história literária está lá, exatamente para sair da mesmice, do quadradinho perfeitinho e, desta forma, desafiar o leitor que espera(va) uma narrativa linear. E é justamente aí que o livro firma sua identidade. A forma retalhada não é defeito. É método. Wanda escreve como tenta coser com a agulha da história, os pedaços de uma civilização quebrada.

E, destarte, querem o segredo desse best-seller? A qualidade, experiência vivencial da autora e, maravilhosamente, pelo cenário onde ela escreveu esse livro: Wanda Cristina da Cunha e Silva nasceu em São Luís, em 1959, filha do escritor e jornalista Carlos Cunha e da professora Plácida Jacimira Cabral da Cunha, e iniciou cedo sua trajetória literária, com formação em Comunicação Social e Letras. Em entrevista recente a nossa Plataforma Nacional do Facetubes, ela afirmou que, aos 12 anos, ao publicar sua primeira peça no Jornal Pequeno, nascia “a Wanda Cristina escritora”, e recordou o pai como professor, biblioteca ambulante e presença formadora em sua vida intelectual.

Portanto, essa herança pesa no bom sentido porque – a meu ver – Wanda nunca escreveu para repetir o pai, mas para continuar uma linhagem de palavra, oralidade, literatura, guerras e gritos. Aliás - me orgulho de ter nascido também no Maranhão - nosso Estado flui no fundo cultural da obra, especialmente quando o romance chama Maria Firmina dos Reis, Patativa, Maria Aragão e a memória popular de São Luís. Mesmo assim, o livro atravessa fronteiras da hermenêutica peridural para discutir a mulher, a raça, a morte, a fé e a tecnologia como problemas universais.

Leio e finalizo com aprendizado mais que renovado: Retalhos é um romance (ou crônicas com enredo e continuidade’, sem desmerecer o gênero e ainda mais difícil de concatenar ideias e roteiro), sobre a impossibilidade de enterrar totalmente o passado. Jorge morre, mas permanece. Janna sofre, mas se multiplica. Joana adoece, mas abre outra porta. As mulheres históricas entram no livro não como decoração erudita, mas como testemunhas. Eis o miraculum phoiniks; isto é, quando resta a escrita, nenhum corpo está inteiramente vencido.

Parabéns, Wanda! (Demorou sair a resenha. Mas estou simplesmente evoluído com essa leitura). Semper Prorsum!

Mhario Lincoln é presidente da AcademiaPoétia Brasileira e editor-sênior da  Plataforma Naional  do Faetubes.

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Luciana Nojosa da CunhaHá 3 semanas São José de Ribamar/MARetalhos é um trabalho tão completo e inteiro que desperta em nós essa essência tão nossa através dos tempos e da construção da mulher como um ser extraordinário. Wanda Cunha faz isso muito bem. Parabéns pelo belo texto! Sou suspeita em falar, pois sou fã dessa escritora maravilhosa desde criança e tenho como troféu ser sua sobrinha.
Nicolau FahdHá 1 mês Sao Luís-MaTive o privilégio de ser um dos primeiros leitores de Retalhos, antes mesmo de sua publicação, graças a trocas poéticas mantidas com a autora, nossas intermináveis conversas e a uma amizade que já passa de três décadas. Agora, com a publicaçãodo romance, vejo o coroamento da escritora, que transita oficialmente por todas as formas literárias. Parabéns, Wanda Cunha!
Alice AbreuHá 2 meses Matoes maAssisti à entrevista sobre o livro na Mirante e achei interessante. Agora com essa resenha do Mhário Lincoln, fiquei super interessada. Quero adquirir o livro. Sou de Matões do Norte no Maranhão. Como faço para adquirir o livro?
Rossana Cristina Há 2 meses São Luís maRETALHOS é exatamente o que Mhario falou, uma obra densa e importante para a literatura brasileira. Parabéns, Mhario Lincoln, pela sua bela resenha. Você é um estudioso de nossa literatura e merece todos os nossos aplausos.
Wanessa CunhaHá 2 meses Sao luis MaEsse novo livro de Wanda Cunha é uma surpresa. Ela saiu da literatura minimalista (trova) e foi para o romance. Versátil demais!! Sou apaixonada e feliz, porque é minha mãe, uma mulher que abraçou a literatura como se abraçasse sua vida. Mhário, que análise linda você fez do livro dela. Você é um crítico literário fenomenal.
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