
Linda Barros, professora e escritora, Membro da Academia Poética Brasileira e ATHEART e Mestranda em Letras.
Importante como a literatura, apesar dos pesares, não sai do seu curso, não perde o rumo, nem sai da direção que deve seguir, haja vista que, estamos vivendo um dos períodos mais latentes no mundo globalizado, em que tantas tecnologias estão ao nosso dispor, e assuntos tão variados são discutidos (sejam no meio físico ou digital). Ainda assim, o valor literário não se perdeu no meio desse “oceano”. A literatura, mesmo com todos esses percalços subliminares do tempo, está sempre se inovando, se diversificando e trazendo novas estéticas, mas ainda assim, não perde seu valor cultural embutido em temas do cotidiano.
Arlete Nogueira da Cruz Machado é uma dessas autoras cujos textos estão sempre latentes e vivos na memória de seus leitores. Uma de suas obras mais importantes, Litania da Velha, escrita na metade da década de 70 (1976), é exemplo claro de todo esse embargo temporal. A obra faz uma viagem do passado a um hipotético futuro, levando marcas e pegadas, que só se apagarão quando não mais existirem resquícios da memória no tempo, como está descrito nesses versos:
O tempo consome o silêncio e mastiga vagaroso a feroz injustiça.
O campo se perde embebido em jenipapos para a manhã sufocada.
Mastigando o tempo e a vida, Arlete Nogueira desponta no meio das massas. Timidamente consegue galgar seu próprio caminho. Com ela, a magia das letras nasce, floresce e ecoa na multidão, ainda que, quase imperceptível e ao mesmo tempo de grande visibilidade, traça sua própria linha do tempo e como num balançar do vento, nos apresenta os mais doces versos,
Ah, se eu soubesse antes
o que sei agora da vida,
no tempo propício
eu te acumularia de afagos
e doces gestos de gratidão.
Ainda sobre em Litania da Velha, a protagonista, a Velha, é uma representação da própria cidade de São Luís personificada. Cidade e pessoa se identificam marcadas pela metamorfose do desgaste do tempo representado metaforicamente pelo salitre.
A antiga cidade é uma ilha que se desfaz em salitre
As antigas alcovas se abrem em cloacas na incontinência dos restos.
A autora é dona de uma singeleza nas palavras, que o leitor é levado a um verdadeiro e sublime sentimento de euforia ao desvendar cada palavra que sai de cada verso de Arlete. Ela com sua calmaria, nos embala até nos versos mais fortes e porque não dizer mais obscuros.
Arlete Nogueira da Cruz nasceu na estação ferroviária de Cantanhede, no interior do Maranhão. Licenciada em filosofia pela Universidade Federal do Maranhão, cursou o mestrado em Filosofia Contemporânea na PUC/RJ, defendendo dissertação sobre Walter Benjamin. É professora aposentada da UFMA e exerceu, por mais de duas décadas, vários cargos na área da cultura, procurando desenvolver importante trabalho em favor das artes no Maranhão.
Com esse histórico pessoal, não podia ser diferente, pois Arlete Nogueira carrega a leveza no semblante e a força no corpo frágil de uma verdadeira artista das palavras, sua narrativa é voraz no que tange a temas do cotidiano, como dizem os versos do poema CONVICÇÃO
Aqui, onde uma mulher se curva
e se inventa
é onde de uma dor imensa e turva
se alimenta
Aqui, quando tonta e avulsa
se procura
é onde viva a luta lenta pulsa
e transfigura
Aqui, onde o que é e será retorna
Ao berço
é onde busca âncora, estrela, bigorna
e terço.
Um texto muito atual, com uma problemática mais atual que nunca: o papel da mulher na sociedade contemporânea, em que além da invisibilidade sofrida por longos anos, ainda têm a violência recorrente com ela, além dos alarmantes casos de feminicídio, em que a mulher é ceifada apenas por ser mulher.
A autora é uma ensaísta com atuação importante na vida cultural maranhense nas décadas de 60, 70 e 80. Seu primeiro livro, A parede, foi lançado em 1961, quando tinha menos de 20 anos, a obra foi descoberta por Josué Montello, numa viagem que fez a São Luís, em 1959. Essa obra é vista como um marco na carreira de Arlete Nogueira, foi tão importante em sua criatividade, que continuou repercutindo em todas as obras que publicou posteriormente.
Tanto Litania da Velha quanto A parede, são obras minimalistas que seguem as experiências de releituras e desconstruções de escritores como Xavier de Maistre (A vida em torno do meu quarto), Kafka (Metamorfose) e Samuel Beckett (Molloy) sobre a viagem humana num plano do ser acuado e emparedado.
Arlete é ainda autora de A parede (romance, edições: 1961, 1993, 1998); Cartas da paixão – ensaios filosóficos, (edições: 1969, 1998); Compasso binário, romance (edições: 1972, 1998); Canção das horas úmidas, poesia (1975); Litania da Velha, poema (edições: 1995, 1997, 1999, 2002); Contos inocentes (edições: 2000, 2001) e Trabalho Manual (1998), Sal e sol (2006). A escritora foi esposa do também inesquecível escritor Nauro Machado falecido em 2015 e mãe do cineasta Federico Machado
Sua mais recente obra, Colheita: antologia poética, traz seleção de poemas, alguns deles já conhecido do público leitor, outros inéditos, mas com o mesmo brilho e carisma da autora de A Litania da Velha e que certamente terá o mesmo valor literário para a história da literatura brasileira.
Toda nossa riqueza cultural perpassa por caminhos que às vezes são desconhecidos para a grande maioria das pessoas, no entanto, temos que começar a nos fazer mostrar e, a literatura com seus grandes autores é o caminho a seguir, pois através deles, é possível nos reconhecermos, seja através de uma parede, seja através das ruas e becos, ou mesmo através da voz de uma personagem.
A maioria das pessoas se sentem plantadas nas raízes de outrora, esquecendo que o presente é agora e que deveria ter seu holofote de luz brilhante iluminando toda uma cidade, e assim, todo o arcabouço cultural não seria ofuscada pelo cinzento e pungente descaso do esquecimento.
Ah, se eu soubesse antes
o que sei agora da vida.
não só comtemplaria tua beleza
(com aura de coisa eterna),
mas também a expansão
desse teu ser
girando em torno de nós:
sentinela da noite
E pastora do dia,
espargindo dons,
ó benéfica luz das nossas horas!
(Versos do poema Uma Lua de Novembro, do livro 'Colheita', antologia poética). Só para lembrar que esse poema, a escritora faz uma homenagem ao centenário de nascimento de sua mãe D. Enói Simão Nogueira da Cruz, em 2008.
Sendo assim, neste dia 08 de maio em que Arlete Nogueira da Cruz Machado chega a seus 90 anos com lucidez inabalável, o presente quem ganha são seus leitores e admiradores, já que ela continua sendo um dos nomes mais emblemáticos da literatura maranhense, ainda que seja pouca estudada no meio acadêmico, é autora de grande valor intelectual e cultural, em que, em sua sublinhar trajetória literária, enriquece ainda mais nossa história e nossa riqueza intelectual no presente e no futuro e que merece destaque hoje e sempre, para que não seja só mais uma autora desconhecida e esquecida por seus conterrâneos.
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