
Nuances Sensoriais
( Socorro Guterres )
Sempre que escrevo algum texto ou alguma poesia (como diria o mestre Carlos Drummond de Andrade) há sempre uma pausa, ou uma fuga, para o raciocínio lógico dar margem ao prazer. Assim, nada melhor para brindar esse momento do que uma xícara de café com sua fragrância especial e energia revigorante a aclarar as ideias. A frutinha em suas gradações de cores do verde ao vermelho, cuja semente (grão) proporciona essa bebida, tem uma história muito interessante e é considerada no contexto histórico brasileiro como nosso ouro negro.
O consumo da fruta do cafeeiro teria surgido pelos idos do século IX, com a peculiar saga de um pastor das regiões altas da Etiópia que após notar suas cabras com um comportamento alterado (mais espertas) ao comerem as folhas e frutos de um arbusto diferente, experimentou ele também desses frutos e sentiu mais vivacidade. Posteriormente, por volta do século XV, mercadores do Iêmen e do Egito levaram mudas dessa planta para seus povos e disseminaram esse consumo que aquecia o corpo e a mente. A origem do nome atribuído ao fruto é arábica, num significado de vinho e o fluxo dessa mercadoria tornou-se muito valioso, estendendo-se para a europa, tendo como porta de entrada a Itália, onde se tornou hábito as casas de café, nas quais confraternizavam escritores, artistas e intelectuais.
A chegada do café no Brasil ocorreu pelo norte, mais precisamente em Belém, levado clandestinamente pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta, que trouxe as mudas após uma missão diplomática e comercial na Guiana Francesa, supostamente como um presente da esposa do governador local. O cultivo iniciado no Pará expandiu-se para o sudeste do Brasil, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, nos quais o solo rico, o clima ameno e as elevações adequadas se mostravam propícios ao plantio. Então, iniciamos outra história, a das grandes fazendas e do ciclo cafeeiro empreendido pelos "Barões do Café", cujos títulos em grande parte eram comprados ou financiados na época do Brasil Império.
Assim, adentremos uma dessas belas construções apalecetadas, imponente em sua fachada de 36 janelas dos muitos cômodos, mas nenhum banheiro, já que para essa finalidade eram destinadas as cadeiras higiênicas ou os urinós de porcelana, considerados itens de luxo. O sino do pátio central, marcador do tempo e organizador da rotina de trabalho, badala as 6h do ano de 1856, horário do café da manhã e início dos trabalhos. Os escravos, porém, iniciavam sua rotina uma ou duas horas antes e apesar de pilarem e torrarem o café só tinham direito de consumir os subprodutos dele. Em meio a beleza do cafezal e a grandiosidade da casa da fazenda, o retrato amargo da desumanidade mancha essa memória. As janelas são importantes ao Barão, pois descortinam as terras e possibilitam vigiar a rotina de muitos dos 80 escravos que lhe proporcionam créditos nos investimentos. E se algum fugir, o espaço de castigos o espera impiedosamente, afinal ele é só uma ferramenta de trabalho.
Mas voltemos às 6h , confirmadas no relógio de carrilhão interno ricamente ornado. Um ou outro mascate, albergado no quartinho de hóspede durante à noite, já pode ser liberto dessa quase cela, já que durante a dormida, por segurança é trancafiado por fora. Portanto, depois de alimentado poderá seguir viagem para levar novidades a outros fazendeiros.
As paineiras balançam seus ramos, os tucanos e araras grasnam ao amanhecer e as crianças negras nos porões do casarão, de chão de barro batido, comem com as mãos em grandes gamelas comunitárias suas porções matinais. Dentro da sala de jantar suntuosa o dono da fazenda degusta seu café na elegante xícara bigodeira, para evitar molhar os pelos engomados em parafina. O casarão de dois pavimentos é acessado por imponente escadaria e o caminho a essa casa-sede é margeado por imensas palmeiras imperiais, decoração legada por Dom João VI. Logo à entrada, um belo gomil, ou seja, a bacia e a jarra com água para lavar as mãos, assentado em mesa de madeira de lei e pés no formato de patas de leão, mostra pujança e acolhimento aos eventuais visitantes ilustres. E a mesa principal, com suas delicadas donzelas de cristal ainda trazem os restos de velas que iluminaram a noite. As mucamas, escravas de dentro da casa grande, se movimentam no serviço do desjejum: café com leite, pão, broas de milho ou mandioca e frutas da estação. Ao escravizado é destinado angu ou mingau de fubá, eventualmente com algum resto de carne de porco, pois a gordura e o açúcar são combustível para a longa jornada diária.
Outro gole de café e o passar do tempo me distancia dessa visão do passado. Virada de século e as propriedades do ciclo cafeeiro que vivenciaram o apogeu econômico, também experienciaram a decadência, vinda sobretudo com a liberdade dos escravos na abolição assinada pela Princesa Isabel, bem como com o empobrecimento das terras no cultivo da monocultura. Em 1936 Manuel Bandeira retratou no poema Trem de Ferro o contexto da cafeicultura, ao evocar na repetição dos versos "café com pão", o cotidiano brasileiro, bem como, de certa forma, o escoamento desse produto que se destacava na produção nacional. Neste presente 2026 o café ainda se mantém como forte presença na mesa das nossas famílias, no agronegócio e na balança econômica, tendo como data oficial comemorativa o dia 24 de maio. O gosto saboroso, entre acidez e dulçor, é metaforicamente poesia liquida constante, no aroma que desperta reminiscências e instiga novas histórias.
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