
Editoria de Economia da Plataforma Nacional do Facetubes
A livraria que quiser crescer terá de funcionar menos como depósito de mercadoria e mais como espaço de curadoria, encontro e circulação entre o físico e o digital.
Em recente entrevista, o dado citado por Alexandre Martins Fontes, da editora Martins Fontes, e presidente da Associação Nacional de Livrarias, (ANL), merece atenção porque ajuda a corrigir uma leitura apressada do mercado editorial. Em 2025, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou ao menos um livro nos 12 meses anteriores à pesquisa, avanço de dois pontos percentuais sobre 2024.
Na prática, isso representou cerca de 3 milhões de novos consumidores. O número indica que o livro continua presente na vida econômica e cultural do país, mesmo em meio à disputa com telas, plataformas e outras formas de consumo.
Há ainda outro aspecto importante nesse movimento. O crescimento foi puxado sobretudo pelos jovens de 18 a 34 anos, e a própria Câmara Brasileira do Livro relaciona esse avanço ao peso das redes sociais, dos criadores de conteúdo e das comunidades virtuais na aproximação entre leitores e obras.
O estudo também registra o protagonismo das mulheres pretas e pardas, que já representam 30% do total de consumidores de livros. Isso mostra que a expansão do mercado não se explica apenas por renda, mas também por circulação de recomendações, identificação social e novas formas de descoberta da leitura.
Mas esse crescimento no consumo não elimina o problema central. A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Ou seja, há mais compradores, mas isso não significa automaticamente uma base leitora sólida. O mercado reage, porém o hábito de leitura segue fragilizado e desigual.
É exatamente nesse ponto que as livrarias voltaram ao centro da discussão. O debate não passa apenas por vender exemplares, mas por criar vínculo contínuo com a leitura. A pesquisa Panorama do Consumo de Livros mostra que 39% da população prefere comprar livros impressos em lojas físicas.
Mais do que isso: se loja física e loja on-line praticarem o mesmo preço, 49% dos consumidores afirmam que comprariam presencialmente. O dado é revelador porque desmonta a ideia de que a livraria perdeu sentido. Ela segue valorizada como experiência de busca, convivência, orientação e contato material com o livro.
O impresso também continua sendo a base do consumo. Segundo o mesmo levantamento, 56% dos consumidores compraram apenas livros físicos nos últimos 12 meses, enquanto 14% adquiriram apenas digitais e 30% transitaram entre os dois formatos.
Ao mesmo tempo, o conteúdo digital avançou no faturamento das editoras: em 2024, a alta nominal foi de 21,6%, com crescimento real de 16%. O cenário, portanto, não é de substituição simples, mas de convivência entre formatos. A livraria que quiser crescer terá de funcionar menos como depósito de mercadoria e mais como espaço de curadoria, encontro e circulação entre o físico e o digital.
Também convém evitar qualquer euforia fora de medida. Em 2024, as editoras registraram crescimento nominal de 3,7% nas vendas ao mercado, com faturamento de R$ 4,2 bilhões. Descontada a inflação, porém, houve recuo real de 1,1%. O setor, portanto, dá sinais de recuperação, mas ainda opera sob pressão.
A expansão de consumidores é um dado relevante, só que ainda não basta para resolver gargalos antigos do mercado brasileiro, como concentração de renda, dificuldade de acesso, formação irregular de leitores e dependência de políticas públicas consistentes.
Fortalecer as livrarias, nesse quadro, não é apenas defender um canal de venda. É sustentar um ponto de mediação cultural num país em que o consumo do livro cresce ao mesmo tempo em que o hábito de leitura recua. Quando uma livraria funciona bem, ela não apenas entrega um produto.
Ela ajuda a manter vivo um ecossistema que envolve editoras, autores, escolas, bibliotecas, influenciadores, famílias e leitores. O novo momento do livro no Brasil é promissor, mas só terá continuidade se o país transformar compra ocasional em prática de leitura e presença cultural duradoura.
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Fontes
Câmara Brasileira do Livro (CBL) – Panorama do Consumo de Livros e comunicado “Consumo de livros cresce no Brasil e alcança mais 3 milhões de novos compradores em 2025”.
Instituto Pró-Livro (IPL) – Retratos da Leitura no Brasil 2024.
Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) – Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro – ano-base 2024.
Câmara Brasileira do Livro (CBL) – Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro – ano-base 2024.
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