
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Entre os estudos maranhenses dedicados a Ferreira Gullar, o livro Pedra Angullar, de José Neres, ocupa um lugar de leitura atenta e afetiva, sem perder o sentido crítico. Os catálogos das livrarias registram a obra como livro de crítica literária. Mas, é mais que isso! Porque a força da interpretação de Neres está em perceber que o Poema Sujo (vale explicitar, por exemplo), não cabe numa definição estreita.
Isso porque Poema Sujo – o master gullariano - não é apenas poema de exílio. Não é apenas memória da infância. Não é apenas denúncia política. É tudo isso em movimento. O poeta volta a São Luís pela linguagem, reencontra cheiros, ruas, vozes, cenas domésticas, vergonha social, erotismo, pobreza, medo, afeto e país.
É assim que Neres entendeu. Aliás, Gullar não escreveu tudo isso para organizar a lembrança. Ele escreveu para fazer a lembrança falar com sua própria desordem. Esse ponto é decisivo para que o leitor aprenda a ler, simplesmente, o Poema Sujo, sem, automaticamente, tentar limpá-lo. Mas José Neres, com perspicácia, fez exatamente isso. Deixou-o original. Ele respeitou sua matéria bruta e notou que a “sujeira” do título deixa de ser escândalo e passa a ser método.
Um detalhe que Neres também entendeu: Gullar sempre escreveu a vida sem verniz, com o corpo inteiro da memória. Inclusive em Poema Sujo é explícito isso. A cidade aparece com seus sons, suas marcas, suas perdas e seus restos. A infância não surge como refúgio fácil, mas como território em que o adulto exilado procura entender o que ainda lhe pertence.
Destarte, Neres acerta quando lê Gullar como poeta de muitas vozes, pois sua leitura acaba dialogando com uma tradição crítica sólida. Porém, alguns outros críticos têm opiniões diferentes. Um deles, contudo, o Alcides Villaça observou que, em Gullar, uma coisa está em outra, e que sua técnica está em convergir história pessoal e história coletiva. Exatamente é essa, também, a percepção que Neres repassa nesse livro Pedra Angullar. Ele lê o poeta maranhense por dentro do poema, não por fora dele.
Ao fim, José Neres devolve Ferreira Gullar ao seu lugar de origem sem reduzir o poeta ao localismo. São Luís aparece como raiz, mas também como chave para o Brasil. O mérito da leitura está justamente aí. Neres percebe que Poema Sujo começa numa cidade e termina numa experiência humana mais ampla. A memória individual se abre em memória coletiva. A dor privada encontra a história. O verso carrega a infância, mas também carrega o país.
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Em tempo - O Instituto Moreira Salles registra que Poema Sujo foi escrito em Buenos Aires, entre maio e outubro de 1975, e chegou ao Brasil em fita cassete trazida por Vinicius de Moraes, já que seria arriscado transportar o poema em papel em meio às ditaduras latino-americanas. Esse dado dá ao poema uma dimensão de urgência. Gullar não escrevia apenas sobre o passado. Ele escrevia sob ameaça, tentando salvar, pela palavra, aquilo que a violência política podia interromper.
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