
MELIPONAS: ABELHAS NATIVAS SEM FERRÂO
Joema Carvalho
Se existem seres elementais na natureza, um deles são as abelhas nativas. Sua existência é mágica e a sua importância, imprescindível à nossa existência. Não é à toa que foram consideradas o ser vivo mais importante do planeta, em 2009, no “Royal Geographical Society de Londres”.
O Brasil é o país com maior ocorrência de abelhas sem ferrão, também conhecidas como meliponíneos. Segundo dados divulgados pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro em julho de 2023, o total de espécies em território nacional gira em torno de 300, sendo que 100 delas estão ameaçadas de extinção. Visto que esses insetos realizam a polinização de diversas plantas utilizadas na nossa alimentação, o fato é preocupante.
As abelhas são as responsáveis pela manutenção da base da cadeia alimentar nos ecossistemas silvestres. Elas respondem pela polinização de mais de 50%, podendo chegar a 80% das espécies vegetais das florestas tropicais e Cerrado brasileiro. Em relação as plantas cultivadas e utilizadas de forma direta ou indireta na alimentação humana, as abelhas são responsáveis pela polinização de 73% do total e de 42% das 57 espécies vegetais mais plantadas no mundo1.
Como resultado da reunião “Conservação e Uso Sustentável Dos Polinizadores Na Agricultura, com Ênfase nas Abelhas”, foi produzido o documento “The São Paulo Declaration On Pollinators”, compromisso com a Convenção Sobre Diversidade Biológica - CDB (Convention on Biological Diversity - CBD), no programa temático de Diversidade Biológica na Agricultura, que criou, no ano 2000, e aprovou, em 2002, a Iniciativa Internacional para a Conservação e o Uso Sustentável dos Polinizadores (IPI), como facilitadoras a Organização das Nações Unidas Para Agricultura e Alimentação (FAO) e as Iniciativas Regionais, incluindo a Iniciativa Brasileira dos Polinizadores (IBP), que definiu as bases prioritárias para preencher as lacunas do conhecimento sobre polinização e polinizadores no país2.
Para divulgar a existência e o trabalho destes seres tão especiais, em Curitiba, Capital do Estado do Paraná, foi criado o projeto Jardins de Mel. Diversos parques urbanos, praças, hortas urbanas, jardins de prédios públicos e outros ambientes possuem caixas com colmeias de melíponas ou abelhas nativas sem ferrão.
As abelhas sem ferrão contribuem enormemente para a conservação da biodiversidade. Uma floresta em bom estado de conservação apresenta diversas espécies de melíponas. A maioria dos produtos agrícolas e não madeireiros tem forte relação com os Meliponíneos. Acredita-se que de 35% a 90% das espécies de árvores dependam das abelhas nativas como polinizadores primários. Se as abelhas nativas desaparecerem a biodiversidade será seriamente comprometida3.
Além dos serviços ecossistêmicos, devido a doçura inigualável, sabor diferenciado, seguramente mais aromático que o mel da abelha africana (Apis melífera), os meles das diferentes espécies de melíponas têm sido utilizados na culinária gourmet. Com sabores ímpares, tem ganhado espaço nos menus de grandes restaurantes, devido a riqueza do terroir e paladar sofisticado, gerando uma experiencia culinária4.
O mel das melíponas tem sido reconhecido por suas propriedades medicinais. Possui ação antimicrobiana e anti-inflamatória, podendo ajudar a melhorar a saúde respiratória e digestiva. Estudos científicos mostram que os compostos antioxidantes e polifenóis presentes no mel podem fortalecer o sistema imunológico e promover o bem-estar geral5.
Para a preservação dos serviços das abelhas, é preciso manejar e conservar os recursos essenciais para sua sobrevivência. Um ambiente conservado favorece o seu habitat para o seu ninho e flores que ofertam polén e néctar, além de água, resina e outros3.
A divulgação da existência e importância das abelhas nativas, ajuda a preservar as espécies e, consequentemente, usufruímos dos seus serviços ofertados a nós, de forma espontânea e gratuita, no caso, graças a polinização delas, desfrutamos do alimento que chega a nossa mesa.
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REFERÊNCIAS
1ABELHA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DAS ABELHAS (org.). Agricultura e polinizadores. São Paulo – SP. 2015.
2REDE BRASILEIRA DE INTERAÇÕES PLANTA-POLINIZADOR-REBIPP. RELATÓRIO TEMÁTICO SOBRE POLINIZAÇÃO, POLINIZADORES E PRODUÇÃO DE ALIMENTOS NO BRASIL. Relatório Temático Sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, 1998 a 2019. Disponível em: https://www.bpbes.net.br/wp-content/uploads/2019/02/BPBES_Completov5.pdf. Acesso em: 11/03/2025.
3OLIVEIRA, H. J. S de. Dossiê Cadeia de Valor das Abelhas sem Ferrão da Amazônia. OLIVEIRA, H. J. S de; MEIRELLES FILHO, J. C. S.; MEIRELLES, J. P. S. Belém, PA:Instituto Peabiru, 2020.
4DAHERCOLA, 2024. Mel de abelha nativa: uma joia gastronômica brasileira. Viagem & Gastronomia da CNN Brasil.
5CASA DO APICULTOR DE CAMPINAS. Mel ASF (Abelha sem ferrão). Disponível em: https://www.casadoapicultor.com.br/mel-cia/mel-asf?srsltid=AfmBOoqDSlhVM4iH6PeqhmC2Cqd9Ejz4IXm39aGm1uYrhj9OMvhK19-a. Acesso em: 08/03/2025.
Joema Carvalho
O VOO DA ABELHA MIRIM
no som da maré
mudo
o voo da abelha
soa brisa na nuca
do céu
mundo
mirim
NO CANTO DA MANDAÇAIA
no canto da mandaçaia
vejo tons
poemas
e sairás-sete-cores
em bando
nas flores
do dossel
em frente a janela
JATAÍ
jataí
gerou o doce dia
brindou no cálice
um mel único
do teu olhar
POLINIZAÇÃO
a magia das flores
e frutos
no toque sensível
do ser alado
néctar da abelha
no meu mel
quando nutri
uma criança
que nasceu
do cálice
e floresceu
no primeiro passo
MÚSICA
(Do meu livro Luas & Hormônios, editado pela Secretaria do Estado de Cultura de Curitiba em 2010 e pela Marianas Edições em 2020 (eBook)).
acúleo fino
espinho delicado
ferrão doente
zangão
cálice felpudo
pétala
sépala verde
som harmônico
células especializadas
função
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